Newsletters para cobertura de crises: como começar e ter sucesso

Apr 20, 2022 em Engajamento da comunidade
Mailboxes

As newsletters são um formato popular para veículos jornalísticos distribuírem seu conteúdo, engajarem a audiência e expandirem os esforços de monetização. Porém, lançar e administrar uma newsletter não é simples — principalmente em momentos de crise.

Em um evento recente realizado pelo Fórum de Reportagem de Crise Global do ICFJ, o gestor de comunidade do ICFJ, Paul Adepoju, conversou com o premiado jornalista investigativo nigeriano David Hundeyin sobre sua newsletter, West Africa Weekly, que ele começou no exílio. Hundeyin fugiu da Nigéria depois de receber ameaças de funcionários do governo por causa de uma matéria investigativa que ele escreveu sobre os maus-tratos sofridos por empregados da UBA e do Dangote Group.

 

 

 

"Eu só fui começar a newsletter no ano passado, já que estava no exílio, o que por si só é um processo complicado, pois estava tentando me estabelecer em um país estrangeiro", diz.

Lançada em junho de 2021, a West Africa Weekly mergulha fundo em questões pouco abordadas e urgentes do Oeste da África, incluindo cobertura sobre as origens e o contexto do terrorismo na Nigéria.

Hundeyin deu conselhos a jornalistas sobre como engajar os leitores com suas próprias newsletters, atrair assinantes e aproveitar da melhor forma as redes sociais para divulgar seu conteúdo. 

Identificando as necessidades dos leitores

A West Africa Weekly tem mais de 100.000 assinantes no mundo todo, de acordo com o site da newsletter. Essa audiência foi construída identificando a melhor forma de servir os leitores.

"Se você está começando uma newsletter, a coisa mais importante que você precisa descobrir é o que a sua audiência precisa que ela não está encontrando em nenhum lugar. Quando eu comecei a West Africa Weekly, essa era a minha consideração principal", diz Hundeyin. "Você precisa descobrir o seu nicho e também determinar a sua frequência de publicação."

Construção de audiência

Hundeyin optou por focar o conteúdo de sua newsletter no jornalismo investigativo. "Eu decidi não incluir opinião, mas trabalhar com matérias investigativas contundentes, escrevendo-as com estilo e com uma pegada millennial para engajar a audiência. Quando eu passei a escrever desse jeito, a newsletter decolou e eu ganhei mais leitores", explica. "Eu [uso] um tom irreverente e [incorporo] elementos não ortodoxos, como memes, que você não vê no jornalismo tradicional."

Depois de publicar a reportagem Flocos de Milho para Jihad: a origem do Boko Haram, que aprofundou no modo como o grupo terrorista começou, Hundeyin diz que a newsletter teve um aumento de 4.000 assinantes.

"Eu precisava ir mais fundo do que qualquer um tinha ido até então no Boko Haram. Eu analisei as origens do grupo para além do que fizeram outras matérias que eu tinha visto. Eu tracei as raízes do Boko Haram a partir do período entre os anos 1950 e 1960, quando o Wahhabismo e a sua ramificação, o Salafismo, chegaram à Nigéria", diz. "Muitas pessoas nunca tinham ouvido o relato de como [o Boko Haram] se originou e cresceu. Com a minha newsletter, elas tiveram acesso a essa informação e a reportagem foi escrita de um jeito que engajou os leitores."

Prioridade para conteúdos que atraem assinantes

Antes de começar seu próprio projeto, Hundeyin enviava newsletters em nome de agências de relações públicas da Nigéria como a Black House Media. Ele aproveitou essa experiência para começar a sua própria newsletter. "Essa foi minha porta de entrada para o mundo das newsletters diárias e semanais. Na época, eu não pensava nelas de fato como uma mídia jornalística, eu só achava que eram um jeito prático de transmitir informação de uma forma resumida para uma grande lista de distribuição."

Hundeyin usa o Substack como sua plataforma de newsletter e observa que o MailChimp e Revue também são boas opções para jornalistas e redações lançarem suas newsletters.

Acima de tudo, Hundeyin reforça a importância de conteúdo forte quando se trata de monetizar a newsletter. "Se as pessoas gostam o bastante do seu trabalho, elas vão assinar", diz. "É assim que você atrai receita com assinaturas."

Ao desenvolver uma estratégia de assinaturas, jornalistas também precisam ter atenção às diferenças de mercado no mundo. "O que eu descobri foi que o que talvez funciona no mercado da Europa ou da América do Norte não necessariamente funciona no mercado do Oeste da África por causa da pobreza", diz Hundeyin. "A monetização não foi assim tão fácil."


Foto por Mathyas Kurmann no Unsplash.