Mudanças na indústria da mídia exigem profissionalização do jornalismo freelance

porMirelis Morales Tovar
Nov 11, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Mulher digitando no computador

Nada será como antes. Por mais que insistamos em negar, o negócio da mídia mudou. E não por causa da pandemia. O coronavírus apenas acelerou o que estava por vir: queda na publicidade, ajustes de orçamento, cancelamento de viagens, cortes de pessoal e suspensão de colaborações. O problema é que muitos jornalistas especialmente freelancers não estavam preparados para esse choque.

A crise de saúde produzida pela COVID-19 deixou claro que essa espécie do ecossistema jornalístico pode ser tão livre quanto vulnerável. A pandemia serviu, entre outras coisas, para revelar a precariedade de suas condições de trabalho. Exacerbou suas fragilidades e gerou instabilidade em uma profissão que não tem renda fixa, seguro saúde ou aposentadoria.

“Agora, mais do que nunca, o trabalho do freelancer precisa ser profissionalizado”, diz a jornalista mexicana Alejandra Sánchez Inzunza, que trabalha por conta própria há dez anos. “Ser freelancer é frágil e o que essa situação fez foi agravar os problemas que já tínhamos. Precisamos aprender a viver bem do jornalismo e parar de [apenas] sobreviver.”

Sánchez Inzunza, que também é diretora da Dromómanos, garante que não existe fórmula mágica para ser autônomo e não morrer na tentativa. No entanto, ela comenta que muitos já conseguiram e é hora de aprender com suas experiências. Por isso, ela se animou a lançar junto com o jornalista José Luis Pardo o programa "La Exclusiva", que visa preparar profissionais independentes a contar melhor suas histórias, vendê-las e transformar suas carreiras.

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“Ser freelance implica ter uma ordem pessoal no caos da mídia”, diz Sánchez Inzunza. “Precisamos começar traçando um plano estratégico, aprendendo a fazer melhores propostas de pauta, construir nossa marca pessoal e gerenciar questões financeiras para viver com renda variável. Também é necessário saber sobre empreendedorismo e engajamento se realmente queremos manter nossa liberdade como freelancers.”

Insegurança no trabalho

A realidade vivida por muitos jornalistas independentes na América Latina, porém, está longe dessa visão estratégica. A maioria dos profissionais trabalha no agora. Poucos se baseiam em um projeto futuro. A norma é aceitar qualquer tarefa, por medo de ficar sem nada. Às vezes sem nem saber quanto cobrar.

Esta situação torna-se crítica no caso de quem vive em regiões onde as opções de trabalho são reduzidas e as limitações são abundantes. Mesmo nas áreas urbanas, o rádio, a imprensa e a televisão continuam reinando devido à disparidade tecnológica que tem restringido o surgimento das mídias digitais. Poucos se atrevem a empreender, e a maneira mais rápida de receber uma renda extra é fazendo imprensa institucional.

Paul Pillco cobre as notícias de Apurimac (Peru) há 25 anos e pode atestar isso. O jornal jurídico onde colaborava suspendeu as operações por quatro meses por falta de publicidade e paralisação dos tribunais. Sobreviveu fazendo reportagens para a TVPerú, mas reconhece que se tivesse um equipamento melhor poderia ter ampliado suas possibilidades.

“Tudo gira em torno da mídia digital. Mas, devido à disparidade tecnológica, as pessoas nas regiões não estão familiarizadas com ela. Gostaria de aprimorar minhas imagens para oferecer um conteúdo de maior qualidade. A questão é que para isso é necessário tecnologia e uma maior velocidade de navegação.”

O bendito plano B

Apesar das dificuldades de trabalhar por conta própria, Paul diz que não trocaria sua independência por nada. Há o perigo de ser autônomo: uma vez dentro, ninguém quer sair. Constanza Bruno confirmou isso durante a pandemia. Esta jornalista colombiana, que cobriu o conflito armado para diversos meios de comunicação nacionais durante seis anos, ficou sem renda. Chorou muito. Ficou deprimida. Ela se recusava a concorrer a um cargo permanente. Diante do desespero, ela cedeu e se candidatou.

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“A resposta de que não tinha sido aceita me foi dada quando pude regressar aos territórios e quebrar a maldição da COVID. Me sinto viva de novo, mas agora reconheço que devo ter um plano B e um orçamento para lidar com essas situações. Além disso, não posso continuar desprotegida, sair para reportar sem equipamento de segurança. Imagine, eu nem sei nadar e costumo andar de barco. Essa crise me levou a pensar que devemos valorizar mais o nosso trabalho e nos organizar como um coletivo”, afirma Bruno.

Naira Hofmeister, jornalista brasileira, com mais de 15 anos como independente, concorda com a necessidade de se associar a outros freelancers para deixar de lado a síndrome de eremita e ser mais forte para outras situações. “No final do dia, os freelancers estão sozinhos. Por isso, é importante que possamos criar uma rede para compartilhar trabalhos, publicações, custos e ainda saber como nos defender em caso de ação judicial. Não podemos continuar a ser a parte mais frágil da indústria”, comentou.

É verdade que ninguém nos preparou para enfrentar uma situação tão extraordinária. Não existe um manual para sair de uma pandemia. No entanto, Sánchez Inzunza sugere que, pelo menos, é útil fazer uma análise dos meios de comunicação que continuam a aceitar colaborações, adaptar-se a novas fontes que exigem conteúdos e apostar em outras áreas como o fact-checking. “Se nós jornalistas temos algo, é que podemos ser camaleônicos. Agora é a hora de nos adaptarmos se quisermos continuar trabalhando no que gostamos."


Imagem sob licença Creative Commons no Unsplash por  Andrew Neel