Mídia digital recorre ao impresso para aumentar conscientização sobre direitos humanos

porBelén Arce Terceros
Nov 9, 2017 em Temas especializados

"Vinte e cinco anos atrás, um ditador nasceu e um assassino em massa caiu", diz a capa do jornal Llakiy Times em letras grandes brancas contra um fundo preto. A manchete do papel ("llakiy" significa "pesar" ou "tristeza' em quechua, uma das línguas indígenas oficiais do Peru) refere-se a dois grandes eventos que ocorreram no Peru em 1992: primeiro, o fechamento do parlamento e a suspensão da constituição e do judiciário peruano pelo presidente Alberto Fujimori, o que passou a ser conhecido como autogolpe; e segundo, a captura de Abimael Guzmán, líder do grupo terrorista Sendero Luminoso.

Embora esses eventos não sejam exatamente notícias hoje, eles continuam sendo grandes acontecimentos na história do Peru e em seus 20 anos de conflito entre terroristas e forças de segurança. São essas violações dos direitos humanos e as feridas deixadas que o site de jornalismo investigativo Ojo Público procura destacar ao lançar este novo projeto. E, enquanto as notícias tradicionais estão migrando para plataformas digitais, este meio digital está tomando o caminho contrário para atingir seu objetivo: utilizar o jornal impresso para atingir um público mais amplo.

"O Llakiy Times é uma experiência editorial e jornalística que visa transformar as investigações que publicamos digitalmente em documentos permanentes e fornecer um formato que qualquer pessoa pode ver em qualquer lugar. Isso, de certo modo, provoca a curiosidade dos leitores sobre o que estamos fazendo", explicou David Hidalgo, diretor do Ojo Público. A publicação "traduz para uma língua mais familiar e essencial alguns tópicos muito difíceis que fazem parte da nossa linha de investigação", acrescentou. Buscando alcançar um público internacional, a publicação também é bilíngue, com cada artigo apresentado em inglês e espanhol.

O Llakiy Times foi lançado em um ano difícil em termos de segurança e direitos humanos no Peru, de acordo com Hidalgo, com a possibilidade de Fujimori receber um perdão. A edição resume algumas das violações de direitos humanos e os assassinatos cometidos durante o conflito, lembrando os leitores de alguns dos problemas ainda pendentes no país, enquanto aborda a história sob uma nova perspectiva.

Para tentar atrair novas audiências que talvez não estejam interessadas em saber sobre os abusos de direitos humanos cometidos no país andino, a publicação de 12 páginas, que também pode ser baixada em PDF, apresenta uma série de micro-reportagens que se referem à matérias e investigações maiores da publicação. As matérias capricham no design e fotos atraentes feitas por alguns dos fotógrafos mais conhecidos do Peru.

Da reportagem de um antropólogo forense que cozinha comida peruana para lidar com o estresse de investigar assassinatos em massa à reprodução de um mapa desenhado por uma testemunha que ajudou a encontrar os corpos de 10 pessoas executadas pelo Grupo Colina, um esquadrão da morte anticomunista, há 25 anos, as matérias são emocionantes e convidam o leitor a descobrir mais.

Esta não é a primeira vez que o Ojo Público aborda as violações dos direitos humanos do Peru nem a primeira vez que inova para apresentar informações de forma mais atrativa e engajante. No início desse ano, lançou o Proyecto Memoria, uma plataforma com investigações e histórias sobre o conflito peruano e suas vítimas, com ilustrações e visualizações de dados para transmitir informações envolventes.

Série "Times"

O Llakiy Times é o primeiro de uma série de seis publicações impressas que o Ojo Público publicará em diferentes tópicos. A próxima edição será sobre a indústria farmacêutica, com base em uma investigação publicada no início do ano sobre o custo da medicina na América Latina.

"Com essas histórias curtas que sempre têm um ângulo curioso ou surpreendente, procuramos envolver o leitor e convidá-lo a refletir sobre alguns dos tópicos que abordamos", disse Hidalgo. O design e o conteúdo visual procuram "criar um objeto tão chocante que a pessoa leia e guarde".

O Ojo Público está tentando crescer para além do seu público digital e atrair pessoas que leem jornais impressos, bem como aqueles que gostam de edições especiais, fornecendo um produto complementar à sua publicação online.

O objetivo final? "Para fazer o leitor pensar em algo transcendental", disse Hidalgo. "Para surpreendê-los para que eles descubram, para que eles entendam."

Imagem principal sob licença CC no Flickr via Nicolas Nova