Lições da eleição presidencial nos EUA: Como a mídia pode mudar sua estratégia

porAuguste Yung
Feb 12 em Miscellaneous

Desde a eleição de Donald Trump que confundiu pesquisadores e jornalistas em novembro, não faltou discussão na indústria de notícias. E com a continuação da relação hostil entre a administração Trump e a mídia, os jornalistas ainda estão descobrindo como cobrir com precisão o complicado cenário político nos Estados Unidos.

Como parte de um simpósio sobre tecnologia, política e mídia, a Fundação John S. e James L. Knight realizou um painel de discussão sobre como os jornalistas podem fazer um trabalho melhor ouvindo e refletindo com precisão o eleitorado americano. Eles identificaram várias áreas onde a mídia pode trabalhar para melhorar a cobertura.

Diversidade

De acusações de elitismo sistêmico na mídia a questões com representação racial e de gênero, os membros do painel observaram que os jornalistas que cobriam a eleição talvez carecessem de diversidade em certas categorias.

"Há muitos repórteres que moram em Washington e não há repórteres suficientes que moram em todos os Estados Unidos", disse Sally Buzbee, editora executiva da Associated Press. Enquanto ela enfatizou a diversidade geográfica, ela também citou a diversidade ideológica, socioeconômica, racial e de gênero como áreas de melhoria para o jornalismo.

Nate Silver, editor-chefe o FiveThirtyEight, também abordou questões de sub-representação ao discutir a visão de dentro da mídia.

"Parte disso tem a ver com a opinião de grupos de mídia e o fato de que você tem um número relativamente pequeno de pessoas... que têm uma enorme quantidade de influência na forma como outras redações em todo o país se comportam", disse ele. "Eu acho que o método de bastidores de reportar falhou um pouco nesta eleição."

Pesquisas e literacia estatística

Pesquisas de opinião foi um tópico frequentemente discutido depois da eleição, especialmente quando quase todas as principais pesquisas previam que Hillary Clinton ganharia facilmente a presidência. O grupo concordou que a mídia se baseou demais nas pesquisas durante as semanas que antecederam a eleição, observando dois fatores-chave para retratar com precisão os dados de pesquisas: equilíbrio e literacia estatística.

Buzbee disse que os jornalistas devem considerar as pesquisas apenas como uma opção na caixa de ferramentas jornalística e não basear toda a cobertura em tais dados. Da mesma forma, Silver argumentou que a pesquisa se tornou um bode expiatório para jornalistas; ele enfatizou a necessidade de comunicar a natureza falha das pesquisas ao reportar sobre elas.

"As pessoas estavam fazendo interpretações muito ambíguas da pesquisa e levando isso para significar que Clinton iria ganhar", disse ele. "As pessoas precisam encontrar mais maneiras de expressar a incerteza."

Buzbee concordou.

"Como podemos realmente comunicar às pessoas normais, que não são especialistas em estatística, a validade e as incertezas na pesquisa de opinião de uma maneira muito mais visceral e precisa?", ela perguntou, retórica. "Eu preciso... explicar para as pessoas que esta é uma ferramenta na caixa de ferramentas, com desvantagens, e não acho que a linguagem que usamos agora está fazendo efetivamente isso."

Ela e Silver também enfatizaram a necessidade de os jornalistas aprenderem a literacia estatística para que estejam na melhor posição possível para transmitir os pontos fortes e fracos dos dados das pesquisas.

Produzindo conteúdo que as pessoas se importam

Amalie Nash, editora executiva da USA Today para a região oeste, disse que as agências de notícias devem se concentrar na criação de conteúdo relevante para os interesses e preocupações do público. Na esteira da eleição, muitos argumentaram que a mídia não cobriu, ou levou a sério, questões que eram importantes para os eleitores de Trump -- e que, como resultado, não conseguiu entender o apelo de Trump a grandes partes do eleitorado americano.

"Acho que um de nossos desafios que nós vamos ter que superar é descobrir uma maneira de tornar uma grande parte desta cobertura mais relevante e ressoar mais e representar pessoas de todo o país", disse Nash.

Mas não é apenas uma questão de cobrir tópicos que as pessoas estão interessadas, trata-se também de encontrar a melhor maneira de apresentar esse conteúdo para eles, disse Buzbee.

"Quero que as pessoas consumam reportagens ricas, profundas e matizadas", disse ela, "mas talvez eu precise apresentá-las em um vídeo de 32 segundos que vai atrair um garoto de 19 anos."

Silver também sugeriu que as organizações de notícias experimentassem mais frequentemente com diferentes conteúdos e formas de entrega.

"Eu acho que há muito conservadorismo quando alguém tenta fazer algo novo, seja o BuzzFeed, ou Gawker, ou FiveThirtyEight", disse ele. "As pessoas vão virar os olhos para todas essas organizações porque fazem as coisas de maneira diferente. Acho que precisamos de mais inovações nas formas de jornalismo e não apenas no modelo de negócios."

Veja a discussão completa abaixo (em inglês):

Imagem principal sob licença CC no Flickr via U.S. Embassy Tel Aviv. Imagem secundária sob licença CC no Flickr via Mark's Postcards from Beloit.