Jornalistas contam como cobriram separação de famílias nas fronteiras dos EUA

porNaomi Harris
Sep 23, 2018 em Temas especializados

Em maio, o governo de Trump implementou uma política de separação familiar para desencorajar pessoas de cruzar a fronteira entre Estados Unidos e o  México como parte de uma abordagem de tolerância zero à imigração. A política recebeu muitas críticas de ativistas, formuladores de políticas e do público, que pediram pela unificação das famílias.

De acordo com um processo judicial em agosto, centenas de crianças ainda estavam separadas de seus pais, informou a CNN.

Quatro jornalistas fizeram parte de uma viagem de reportagem na fronteira dos Estados Unidos com o México e El Salvador como parte de uma bolsa da International Women’s Media Foundation (IWMF). Quando ficaram sabendo da política, as jornalistas começaram a apurar o que estava acontecendo à medida que a atenção da mídia aumentava.

Elas conversaram com a IJNet para compartilhar suas experiências e oferecer suas dicas e recomendações para jornalistas interessados em cobrir questões de fronteira e imigração.

Busque a história

“Recebi a missão do Los Angeles Times de encontrar com a caravana de migrantes em Oaxaca, e de lá tive mais oportunidades do New York Times para continuar trabalhando com esse grupo de pessoas”, disse a fotógrafa freelance  Meghan Dhaliwal. 

Dhaliwal, baseada na Cidade do México, cobre migração e estava familiarizada com o tópico. Ela fotografou a caravana de migrantes porque sabia que o grupo estava organizado.

“Com a separação de famílias na fronteira, [minha equipe] estava procurando alguém para esclarecer sobre uma experiência que não tínhamos conhecimento”, explicou ela.

Inicialmente, repórteres e agentes não eram autorizados a entrar em centros de detenção --um político dos Estados Unidos foi impedido de entrar em um centro de detenção no Texas. Em vez disso, os jornalistas recorreram a diferentes ângulos para reportar a história.

Sarah Kinosian, freelancer na América Central, escreveu sobre migrantes deportados de volta para seus países, alguns sem seus filhos. Ela documentou os esforços de um pai solteiro tentando recuperar sua filha.

"Fui ao centro de deportação que recebeu migrantes deportados dos Estados Unidos e do México", explicou Kinosian. “É lá que eles preenchem o formulário e dizem por que foram embora. Acabei conhecendo um pai que havia sido separado de sua filha e que havia sido deportado.”

Sua entrevista com o pai, Arnovis Guidos Portillo, enfatizou o problema da deportação dos pais sem seus filhos, disse Kinosian.

"Sua história resume muito todo o problema do início ao fim", disse ela. Segundo Kinosian, o pai fugiu duas vezes e foi deportado em cada vez. Em sua terceira tentativa de entrar nos Estados Unidos, ele pediu asilo devido a ameaças de morte em sua terra natal. Em vez disso, ele foi separado de sua filha e mais uma vez enviado de volta.

Além de contar narrativas emocionantes de pais em busca de seus filhos, as repórteres procuraram comunidades e organizações que tentavam ajudar os migrantes durante a implementação da política.

"Não se trata apenas da separação das famílias", disse Tamara Merino, uma fotógrafa que fazia uma matéria para a National Geographic. "Há outro lado para mostrar, então fizemos uma investigação no campo para encontrar organizações e pessoas ajudando nos Estados Unidos e no México."

Junto com sua parceira, Lujan Agusti, ela documentou, por meio de fotografias narrativas, a história de migrantes que cruzavam a fronteira do México até Eagle Pass, no Texas, e quem os ajudavam. Por exemplo, elas entrevistaram um padre no México que forneceu comida e um espaço para descanso para migrantes e um xerife americano que “fazia vista grossa”, disse Merino.

Verifique as fontes e entenda as políticas

Enquanto essas jornalistas encontravam fontes para entrevistar e fotografar, elas ainda enfrentavam desafios, incluindo entender um sistema legal complicado e validar as informações das fontes. Esses desafios foram exacerbados pelos prazos curtos que são característicos das notícias de última hora.

Ao cobrir a migração, é crucial revisar as políticas, pois as leis de imigração mudam dependendo do país, de acordo com Dhaliwal. Então, ela recomenda que jornalistas prestem atenção.

"Entenda a lei tal como está e suas mutações", disse Dhaliwal.

Kinosian passou três dias sob um prazo apertado, mas ainda fez questão de verificar o máximo de informações possível.

"Você pede a verificação, pede o comentário e, sempre que pode, pede documentos", disse Kinosian. Ela também aconselha repórteres a pedir passaportes e números estrangeiros, porque ajuda a encontrar o localizador do ICE (a agência americana de polícia de imigração).

Treine para possíveis perigos

Merino estava reportando em um ambiente desafiador e se baseou fortemente no treinamento de segurança que recebeu como parte de sua bolsa da IWMF.

“Acho que o mais importante é manter a calma. Nós agimos muito bem porque fomos treinadas para essas situações”, disse ela.

O treinamento em ambientes hostis, como o que Merino recebeu, pode ser caro, especialmente para jornalistas freelance. No entanto, há uma série de organizações que oferecem apoio financeiro para jornalistas, incluindo o Rory Peck TrustCanadian Journalism Forum on Violence and Trauma, Reporters Instructed in Saving Colleagues e mais.

Permaneça motivado

As crianças ainda estão separadas de seus pais e o número de pais deportados sem seus filhos ainda não está claro. A ACLU continua “acompanhando a questão com o governo”, afirmou a CNN.

Embora a situação seja desafiadora, Lujan Agusti, que documentou a fronteira EUA-México com Merino, está motivada a continuar fotografando histórias como as discutidas nesse artigo, como forma de aumentar a empatia pelas crianças e famílias envolvidas.

"Eu acho que o problema [do público] é que não temos empatia em relação aos outros", disse Agusti. "O que estou tentando fazer é [compartilhar] as histórias junto às pessoas para que elas entendam por que isso está acontecendo."

As quatro jornalistas falaram de suas experiências como bolsistas da IWMF em um painel, Great Reporting on U.S. Border Issues, no National Press Club recentemente.

A imagem, cortesia de Meghan Dhaliwal, mostra um grupo de jovens centro-americanos andando de um abrigo para outro depois que o primeiro abrigo ficou sem espaço em Tijuana, Baja California Norte, México, no dia 31 de sua jornada à fronteira EUA-México.