Jornalista do mês: Raihana Maqbool

porTaylor Mulcahey
Apr 1, 2018 em Jornalista do mês
Raihana

No território da Caxemira, disputado entre a Índia e o Paquistão, os jornalistas lidam com desafios que a maioria de seus colegas ao redor do mundo não poderiam imaginar.

"Se há algum tipo de incidente, alguém foi morto ou [houve] algum combate, o governo fecha a internet", disse Raihana Maqbool, jornalista da Caxemira administrada pela Índia. “Não posso mandar mensagem [a meus editores], não posso fazer nada. Não posso enviar minha história e não posso conhecer minhas fontes... Isso não é só eu, todo jornalista na Caxemira enfrenta esse desafio.”

Maqbool lembra de uma época em 2016 quando a internet foi fechada por meses e ela não conseguiu fazer uma única reportagem.

Embora o trabalho seja desafiador, Maqbool sempre soube que queria ser jornalista. Ainda jovem, ela assistia aos âncoras de noticiários na televisão e queria ser como eles. Ela logo descobriu que sua força estava na escrita.

"Eu costumava ver problemas quando andava ou pegava um ônibus para a faculdade", disse ela. "Havia tantos problemas e ... eu queria escrever sobre eles."

Maqbool estudou jornalismo e produção multimídia na graduação e depois fez mestrado em jornalismo e comunicação de massa. Ela trabalhou na The Better India, Rádio Kashmir e Hindustan Times antes de conseguir sua posição atual como colaboradora regular do Global Press Journal.

Ela cobre uma variedade de tópicos, incluindo educação, esportes, saúde, conflitos e mulheres e gênero, e faz as fotos de suas reportagens.

Maqbool é seguidora de longa data da IJNet. "É marcado no meu laptop", disse ela.

Ela lê artigos de dicas e entrevistas e concorre a oportunidades. Em 2017, ela participou do workshop sobre tráfico humano e escravidão moderna em Chennai e da conferência Discover Football sobre gênero e mídia em Berlim, ambos encontrados por meio da IJNet.

Maqbool conversou com a IJNet sobre ser uma mulher jornalista, a reportagem de zonas de conflito e conselhos para jornalistas emergentes. Esta entrevista foi resumida.

IJNet: Você mencionou que é difícil ser uma mulher jornalista na Caxemira. Quais desafios encontrou?

Maqbool: Se você visitar a minha região ou meu estado, a Caxemira, não encontrará muitos jornalistas aqui. Nós somos muito poucos. E os que estão trabalhando às vezes deixam esse trabalho. Se você trabalha para jornais locais aqui, o pagamento é muito baixo. As mulheres ficam desanimadas porque recebem menos que os homens. Então desistem.

Também, há outros desafios, como acesso a fontes ou acesso a determinados locais. Se quiser fazer uma reportagem nas áreas de fronteira da Caxemira, tem que ter muitas permissões para ir a essa área. Às vezes, essas permissões não são concedidas.

Quando um embate acontece, as pessoas vêm para mim e dizem: 'O que você está fazendo aqui?' São superprotetores, mas o que não entendem é que estou apenas fazendo meu trabalho. Sempre que há câmeras --sempre que há um clique-- as pessoas cercam você e perguntam: 'O que você está fazendo?' Isso geralmente acontece com mulheres jornalistas na Caxemira.

Qual matéria foi a sua favorita de cobrir?

Toda matéria é especial para mim, mas recentemente eu estava fazendo uma reportagem sobre uma represa que será construída em uma das áreas mais distantes da Caxemira, no distrito de Kishtar. Fiquei surpresa ao saber que fomos os primeiros jornalistas a chegar lá: ninguém jamais havia ido lá antes para ouvir seus problemas.

É uma história importante porque a represa que será construída deslocará as pessoas de lá. Não é apenas uma pequena aldeia, há muitas pequenas aldeias nessa área que serão deslocadas quando a barragem for construída. E as pessoas são pobres, não podem ir a nenhum outro lugar ou construir casas.

Outra história que mora no meu coração é uma que eu fiz sobre os refugiados rohingya em Jammu e como a comunidade hindu em Jammu está forçando as vítimas rohingya em Jammu a sair. Essa é outra história importante para mim porque trabalhei duro nela.

Que conselho você tem para um jornalista jovem e emergente?

Meu conselho é [ter] paixão. Uma pessoa precisa ser apaixonada e ter muita paciência. Na Caxemira, você precisa ter muita paciência porque aqui não temos um setor privado muito desenvolvido. Não é um trabalho tão bom aqui.

Eu aconselharia jovens que querem se tornar jornalistas a começar cedo. Comece a fazer estágio, comece a escrever, comece a fotografar: comece cedo para ganhar experiência. E sim, a paixão é a coisa que te mantém andando.

Há mais alguma coisa que você gostaria de acrescentar?

Eu costumo reportar histórias que não são cobertas por outros repórteres ou que são ignoradas. Meu foco não está nas histórias de conflito. Todo jornalista na Caxemira tenta reportar conflitos --seja para publicações internacionais ou nacionais-- o foco principal é o conflito.

Mas há muitas outras histórias que são muito mais importantes que o conflito. Sim, vivemos em uma zona de conflito e o conflito é uma coisa importante que precisamos cobrir. Mas e as outras histórias? Elas também precisam ser contadas.

Imagens cortesia de Raihana Maqbool