Jornalista do mês: Indeewari Amuwatte

porLindsey Breneman
Jan 1, 2020 em Jornalista do mês
Indeewari Amuwatte

Como muitos jornalistas, Indeewari Amuwatt sempre amou contar histórias.

No entanto, quando se formou no ensino médio, Amuwatte não tinha recursos financeiros para continuar sua educação. Ela precisava de um emprego e queria uma carreira que lhe permitisse seguir sua paixão ao longo da vida. Ela conseguiu uma entrevista com uma das maiores empresas de mídia do Sri Lanka, que a recebeu como repórter na editoria de notícias em inglês no meio da guerra civil.

“Quando criança, era forçada a assistir notícias. Meu pai costumava fazer isso", disse Amuwatte. "Eu sei que na época achava muito chato, mas valeu a pena."

Sem treinamento formal, Amuwatte teve que aprender a maior parte de suas habilidades de reportagem no trabalho. Sua primeira tarefa foi cobrir a explosão de uma bomba.

"Foi quando senti que havia algo em mim que foi feito para isso", disse ela. “Senti isso no epicentro da explosão, onde toda a comoção estava acontecendo e havia tantas emoções. Tudo o que eu conseguia pensar era como eu precisava ser responsável, como eu iria reportar [a história] e como eu a levaria para o resto das pessoas que queriam saber o que aconteceu.”

Ela continuou a desenvolver suas habilidades como jornalista por meio de treinamento no local de trabalho, além de outras oportunidades e recursos que encontrou online. Em 2012, ela ajudou a estabelecer a Associação Internacional de Jornalistas de Religião (IARJ, em inglês), que foi uma oportunidade que encontrou através da IJNet. Ela também usou a IJNet para descobrir um curso da Fundação Thomson Reuters sobre tráfico de pessoas e uma reunião na Universidade de Montreal, no Canadá, focada em extremismo.

Há três anos, Amuwatte começou a trabalhar na Ada Derana. Ela queria um provedor de notícias do Sri Lanka que também fosse acessível ao resto do mundo, então liderou o lançamento do serviço de notícias em inglês da Ada Derana. Hoje, é o meio de transmissão em inglês com melhor classificação no país.

Amuwatte agora apresenta o "At Hyde Park,", um noticiário em inglês, onde faz entrevistas com líderes políticos sobre assuntos atuais. Ela geralmente cobre histórias relacionadas ao extremismo, contra-radicalização e terrorismo.

Recentemente, Amuwatte foi uma das três âncoras na cobertura de um dia da Ada Derana sobre as eleições presidenciais do Sri Lanka em 16 de novembro. No final da transmissão, ela viralizou nas redes sociais. Primeiro, os posts elogiavam suas habilidades de apresentação, mas rapidamente se transformaram em ataques sexistas.

Conversamos com Amuwatte sobre seu trabalho, como ela conseguiu continuar apesar do abuso online e os conselhos que ela tem para jovens jornalistas.

Indeewari Amuwatte

IJNet: IJNet: Você é um dos membros fundadores da Associação Internacional de Jornalistas de Religião. Pode nos contar mais sobre essa organização e seu papel nela?

Amuwatte: Durante a guerra, descobri que havia algo muito perturbador acontecendo dentro da sociedade. Embora a guerra fosse entre duas comunidades diferentes, havia um medo e tensões subjacentes entre as comunidades religiosas, embora elas ainda não tivessem emergido.

Enquanto eu estava cobrindo minha editoria de política e desenvolvimento de negócios, comecei a fazer um pouco de pesquisa porque queria apenas aprender mais.

Foi quando me deparei com a oportunidade na IJNet de fazer parte da formação de uma rede global de jornalistas comprometidos com reportagens não tendenciosas sobre religião e fé. Foi aí que tudo começou. Todos nos reunimos no belo Bellagio para formar a Associação Internacional de Jornalistas de Religião (IARJ, em inglês). Todos os continentes e todas as partes do mundo estavam representados.

Hoje, viajo ao redor do mundo para falar sobre como devemos reportar sobre religião e os problemas enfrentados por pessoas de diferentes crenças, a fim de garantir que não sejamos tendenciosos e que não desrespeitemos as pessoas de fé ou sua religião.

Indeewari Amuwatte

Você reporta muito sobre pessoas com habilidades diferentes. Fazer essa cobertura moldou a maneira como você faz reportagens?

Minha primeira reportagem sobre deficiências foi, na verdade, uma reportagem especial, embora eu tenha mudado para histórias mais complexas mais tarde. Era simplesmente sobre crianças com deficiência visual pintando ovos de Páscoa. Me deparei com essas belas pinturas e rapidamente peguei a história.

Ainda assim, no Sri Lanka, não concedemos acesso igual a pessoas com deficiências e pessoas com necessidades especiais. Falamos sobre direitos iguais — sobre como as pessoas precisam ser tratadas com igualdade e justiça — mas então por que não estamos falando sobre como não há banheiros públicos onde alguém possa ir com uma cadeira de rodas? Quando observamos os deficientes visuais ou auditivos, como apoiamos essas pessoas?

Cobrir essas histórias abriu meus olhos. Antes de tentarmos mudar a sociedade ou pressionar o governo, nós, como repórteres, devemos aprender a reportar de tal maneira que mesmo pessoas com certas dificuldades — com capacidade diferenciada ou com necessidades especiais — tenham acesso às informações que disseminamos.

Durante nossas reportagens sobre negócios, apresentei uma matéria em linguagem de sinais. Enquanto as notícias foram ao ar, tivemos uma pequena janela com a linguagem de sinais apresentada ao lado. Também tentamos usar o máximo de gráficos e suporte possíveis para permitir que pessoas de todas as habilidades façam parte de nossa audiência.

Indeewari Amuwatte

Conte-nos sobre o Sri Lanka Decides e a reação que você enfrentou pela transmissão.

Como jornalista de TV, você fica no estúdio o dia todo, começando assim que as pessoas saem para votar. Eu estava liderando a transmissão em inglês, junto com meus colegas de língua cingalesa e tamil. Continuamos participando de uma transmissão ao vivo e, de alguma forma, na segunda parte, ganhamos muito impulso nas mídias sociais.

Tudo começou com muito amor. Inicialmente, foi sobre o idioma inglês, porque havia uma grande diferença na forma como apresentamos. Tudo começou com as pessoas apreciando minhas habilidades de apresentação, mas lentamente se transformou em abuso, e havia muita objetificação. As pessoas que administram essas páginas de rede social aproveitaram essa popularidade. Eles sabiam que ser ofensivo e sexista geraria mais alcance para seu conteúdo, então fizeram muitos memes, e as pessoas começaram a criar contas falsas em meu nome. Tiraram fotos da minha página pessoal do Facebook. Da noite para o dia, em poucas horas, eles tinham um grande número de seguidores.

Eles começaram a compartilhar muitas postagens que eu nunca publicaria. Foi uma coisa terrível de se ver, porque eu não faria isso. Especialmente como jornalista de TV, sempre tive cuidado com a minha imagem. Então foi terrível ter essas pessoas me representando.

Como você conseguiu perseverar diante de ataques pessoais tão horríveis?

Senti que tinha a responsabilidade de ser um exemplo para as meninas que aspiram estar onde estou hoje. Tive a sorte de chegar até aqui. Sim, com dificuldades, desafios financeiros e falta de recursos ou apoio, mas estou aqui. Tenho a sorte de ser essa líder. E se há outras que têm talento incrível ou potencial para isso? Por que desencorajá-las por causa de pessoas que querem instigar medo e criar comentários sexistas?

Precisamos acabar com o sexismo da sociedade.

No Sri Lanka, a mídia não está organizada de maneira que dê apoio. Não culpo a indústria, mas temos dificuldades aqui. Não é considerada uma profissão formal ou reconhecida como é no mundo ocidental. As mulheres especificamente enfrentam dificuldades, e eu sou a única chefe feminina de um noticiário de televisão, pois é dominado por homens. Sinto que tenho responsabilidade para com todas as meninas que desejam fazer isso. Não quero desistir e dizer: "Olha, eu fracassei". Vamos continuar essa batalha, porque quem vier a seguir também terá que enfrentar isso. Obviamente tem que ser resiliente. Alguém tem que navegar por isso e mostrar ao resto como isso é feito. 

Indeewari Amuwatte

Qual é o seu conselho para aspirantes a jornalistas, especialmente aqueles que não tiveram acesso a uma educação formal ou jovens que entram no campo?

Vou começar com o treinamento formal. Obviamente, precisamos de educação. Eu estou buscando fazer um mestrado agora, porque existem muitas opções fora do país. Se você ainda não teve a oportunidade de obter uma educação, sempre poderá fazê-lo com toda a sua experiência e trabalho duro. No entanto, a falta de certificado de educação ou jornalismo não deve desencorajar ninguém de entrar em campo. Contar histórias é uma característica inerente aos seres humanos. O mais importante é dizermos a verdade. Contribuímos para uma sociedade melhor e um mundo melhor. Essa deve ser a nossa paixão como jornalista, tendo ou não educação formal.

Para garotas aspirantes: Não tema. É difícil, sim, mas nada vem facilmente. Temos que ser resilientes para encontrar nosso caminho. Se você não tentar agora, estaria desencorajando outra garota a seguir isso. Haverá desafios, mas devemos sempre nos unir como mulheres para apoiarmos umas às outras, encorajarmos umas às outras e enriquecermos nossas ideias e trabalhos para que possamos seguir em frente. As mulheres sempre elevaram a sociedade e também elevamos o jornalismo. Temos nossa própria maneira de abordar e resolver problemas, então para realmente mergulhar profundamente nos problemas que a sociedade enfrenta, as mulheres terão que estar no centro.

Seja ousada. Não tenha medo. Abrace seu potencial. Vá viver o seu sonho.


Esta entrevista foi resumida e traduzida.

Todas imagens são cortesia de Indeewari Amuwatte.