Jornalista do mês: Aliya Bashir

porTaylor Mulcahey
Apr 8, 2019 em Jornalista do mês
Aliya Bashir

Embora tenha passado a maior parte de sua vida em uma zona de conflito, Aliya Bashir dedicou sua carreira a contar histórias diferentes. Ela se concentra em direitos humanos e justiça de gênero em uma região onde muitas pessoas estão focadas em apenas uma coisa: o conflito.

“Principalmente na cobertura internacional ou na cobertura nacional, é só sobre histórias negativas de mulheres”, disse Bashir. “Eu não menosprezo o fato de que as mulheres estão sendo afetadas em conflitos, mas a vida continua. Mesmo se acontece um bombardeio num dia, a vida continua. Não é como se não houvesse nada aqui. Isso é o que me inspira."

Bashir nasceu e cresceu na Caxemira administrada pela Índia, onde agora passa metade do seu tempo quando não está em Nova Déli.

Depois de trabalhar anos como repórter freelance, com matérias no Guardian, Huffington Post, News Deeply e mais, Bashir agora é repórter sênior do Global Press Journal. Ela escreveu sobre as viúvas deixadas para trás durante o conflito na Caxemira, as formas como as mudanças climáticas estão afetando as mulheres, rádio comunitária e muito mais.

Ela enfrentou inúmeros desafios ao longo de sua carreira, incluindo vigilância do governo, apagões da internet e toques de recolher. Ela também sofreu sexismo e se preocupa com sua segurança: preocupações decorrentes do trabalho em uma sociedade desacostumada a mulheres repórteres.

Bashir encontrou uma oportunidade de treinamento em ambiente hostil do Centro Pulitzer através da IJNet, bem como várias outras bolsas e oportunidades. Ela recebeu um subsídio de reportagem do Fundo Howard G. Buffett para Mulheres Jornalistas da International Women’s Media Foundation (IWMF), e outra bolsa de reportagem do Population Reference Bureau (PRB).

“Eu acho que, como jornalista do sexo feminino e jornalista que cobre conflito ou assuntos delicados, é realmente importante aprender com o treinamento de ambiente hostil”, disse Bashir. "Minha reportagem nunca foi a mesma."

“Nos fins de semana, as pessoas planejam as férias e eu planejo horários especiais para olhar [a IJNet] e ver o que está disponível para mim durante a semana”, acrescentou ela.

Conversamos com Bashir sobre seu trabalho, os desafios que ela encontrou e seus conselhos para jovens jornalistas.

Hostile environment training
Treinamento em ambiente hostil organizado pelo Centro Pulitzer na Pensilvânia

IJNet: O que inspirou você a se tornar jornalista e a cobrir mulheres em particular?

Bashir: Depois que terminei minha graduação, as coisas começaram a ficar ruins na Caxemira. Sendo uma cashmiri, sendo uma local, descobri que havia [apenas] um punhado de mulheres jornalistas trabalhando na Caxemira. Isso é uma pena e uma triste realidade de hoje. Temos poucas mulheres jornalistas na Caxemira. Eu pensei, por que não contribuir da minha maneira única?

Eu literalmente ansiava por essas histórias de mulheres. Eu sempre via reportagens especiais e eram sempre de repórteres masculinos, e os problemas eram sempre masculinos. Então, eu perguntava à minha mãe: "Algum dos problemas femininos foi contado?" Eu estava curiosa sobre essas coisas. Eu pensava: "Por que sempre mostram mulheres como pobres e indefesas?" As mulheres sempre faziam o trabalho, mas não eram destacadas de uma forma digna. 

Conte sobre uma matéria que você fez e os desafios que encontrou.

[Para a bolsa do PRB] eu fui para a Caxemira rural, o que é realmente difícil de fazer considerando a questão da segurança. Então, convencer as pessoas a falar sobre histórias de saúde [foi um desafio] porque naquela época o conflito era muito grave e havia uma mentalidade de que você não deveria falar sobre outra coisa senão conflito. Conseguir fazer duas matérias foi muito difícil para mim. Eu tive que atrasar minha reportar por um mês e meio  porque o governo não tinha dados.

Todos os dias, há matérias sobre o conflito, sejam de jornalistas estrangeiros ou jornalistas locais: eles só escrevem sobre conflitos. Então não há uma demanda pela responsabilidade do governo. Os jornalistas não fazem perguntas diferentes e buscam dados diferentes. Então o governo não se sente responsável. Você também não tem uma forte sociedade civil e intelectuais.

Eu produzi duas longas reportagens sobre cuidados de saúde que afetam essas populações rurais. O sistema de saúde na Caxemira está totalmente em frangalhos [e] todo mundo diz que é por causa do conflito. Essa não é a realidade: a vida continua; é uma desculpa fácil para não tratar disso.

Community radio
Trabalho de rádio comunitário em Mewat, Haryana.

Que outros desafios você encontrou?

Nem todo mundo tem acesso à internet. [Algumas] pessoas são analfabetas ou não têm celulares em áreas rurais. Eles não entendem, porque eu não tenho uma cópia impressa para mostrá-los. Isso é difícil porque se eu disser a alguém: "A matéra aparecerá no Huffpost". Eles ficam confusos: "O que é isso? Nós não entendemos. Precisamos da cópia da revista."

Grandes organizações contratam principalmente moradores locais como fixers. Elas não entendem que não podem usar jornalistas profissionais o tempo todo como fixers. Eu recusei algumas ofertas muito boas de grandes organizações que eu não quero dar o nome. Eu digo "Tudo bem, mas e quanto a dar o crédito a mim?" Elas oferecem dinheiro por isso. Eu não quero dinheiro, quero crédito. Eu recusei. Acham que os jornalistas locais podem ajudá-lo com edições especiais o tempo todo, mas não respeitam e dão dignidade como colaboradores.

Camera work

Que conselho você daria para jovens jornalistas?

Ser uma jornalista mulher é uma força em si mesma. Se você valoriza o seu gênero, se dá dignidade a quem você é --ao invés de vê-lo como uma fraqueza-- então isso realmente se mostra em seu trabalho. Sempre senti isso, como mulher jornalista de uma zona de conflito, como muçulmana, senti poder em quem sou. Isso sempre apareceu no meu trabalho. É o que faz você continuar acreditando em si própria e consistentemente se esforçar e sair da sua zona de conforto. Nunca vai ser fácil. Quanto mais trabalho você fizer, mais seus leitores esperam de você.


Esta entrevista foi editada.

Todas as imagens são de cortesia de Aliya Bashir.

A cada mês, a IJNet apresenta um jornalista internacional que exemplifica a profissão e usou o site para promover sua carreira. Se você gostaria de ser apresentado, clique aqui.