Jornalismo de dados: o bom, o mau e o feio

porSandra Crucianelli
Jun 29, 2012 em Diversos

Que condições são necessárias para um repórter fazer jornalismo de dados? Nas últimas semanas muitos colegas me fizeram essa pergunta. A resposta é complexa: envolve o mínimo necessário para processar dados a partir de uma sala de redação e chegar a conclusões úteis para os cidadãos.

Vivemos em um mundo onde quase tudo é expresso com números. Para isso, a manipulação de grandes quantidades de dados requer certas habilidades por parte de quem pretende encontrar notícias relevantes por trás deles. A missão não é simples: você tem que encontrar um significado tangível a partir do abstrato; tem que contar para as pessoas como um grande emaranhado de números afeta suas vidas. Só dessa forma se consegue o impacto necessário para viver em sociedades melhor informadas.

  • O jornalismo de dados requer treinamento permanente e conhecimento de assuntos que estão geralmente longe das preferências do jornalista convencional. As fontes aceitas não são suficientes: é preciso conhecer o funcionamento da administração pública, saber interpretar leis, decretos e ordenanças. Se um jornalista não entende como as instituições do seu país funcionam, dificilmente pode seguir o caminho com sucesso.

  • Fluência em inglês. As ferramentas mais utilizadas no jornalismo de dados não têm equivalentes no espanhol [ou português]. Atualmente uma divisão está se formando entre aqueles com acesso a esses recursos por serem bilíngues e aqueles sem.

  • Habilidades desenvolvidas em pesquisas na Web. Usar o Google de maneira tradicional não é suficiente. Temos de aprender a tirar melhor proveito das pesquisas avançadas por formato, por domínio e por data, mas também, na ausência de uma iniciativa nacional para abrir os dados, conhecer os sites locais onde há dados oficiais.

  • Aprenda os conceitos básicos de Excel, ou programa similar, capaz de processar informação numérica em planilhas.

  • Ter conhecimento de matemática básica e estatística, tanto descritiva como inferencial. Um jornalista "anumérico" não terá a capacidade de enfrentar o processo conhecido como "a entrevista com os números". Isso nos preocupa especialmente quando se trata de análise dos orçamentos públicos, impostos e outras questões como criminalidade e poluição.

  • O jornalista se depara com um cenário desconhecido. Fomos treinados para um mundo onde prevalece a falta de dados, não para um mundo sobrecarregado de informação. Os dados nos chegam de várias frentes e em grandes quantidades.

  • Não há ainda treinamento formal em jornalismo de dados nas universidades, com algumas exceções. Portanto, os futuros jornalistas de dados precisam investir, principalmente em tempo, para obterem sua própria formação nessa disciplina.

  • O jornalismo de dados envolve trabalho duro e é muitas vezes caro. O jornalista deve ter acesso a dezenas, senão centenas ou milhares de planilhas, textos e gráficos. Deve recorrer às vezes a programadores para que desenvolvam aplicativos capazes de capturar dados em páginas da Web. O esforço será sempre um componente de presença forte nessa área.

  • Há três marcas básicas do jornalismo de dados: a primeira é que oferece ao público documentos de respaldo sobre os quais a reportagem se baseou, muitas vezes compartilhados a partir de uma plataforma externa; a segunda é que o repórter explica seus métodos para que seu trabalho resista a revisão crítica -- o que significa que se um leitor ou outro jornalista fosse utilizar os mesmos documentos da mesma forma, chegaria à mesma conclusão. E, finalmente, inclui uma visualização adequada de dados, acompanhada por textos não muito extensos.

  • A rotina às vezes é frustrante, porque você nem sempre encontra o que busca. Você vai ter que ler arquivos pesados, montanhas de papelada, fazer chamadas que ninguém retornará e abrir portas que provavelmente não vão abrir. O jornalista de dados sempre deve considerar que às vezes não há notícias por trás dos dados. Contudo, é claro, isso não é o mais comum.

Agora você sabe o pior do jornalismo de dados. Se quiser seguir em frente, está pronto para enfrentar o desafio e conseguirá com certeza, porque nesta profissão abençoada não brilham os sortudos com bons contatos, nem mesmo os de mentes brilhantes: nessa tarefa só brilham os persistentes. É aí que se encontra a diferença.

“Revelar ao mundo algo que lhe interessa profundamente e que até então ignorava, mostrar-lhe que foi enganado em algum ponto vital a seus interesses temporais ou espirituais, é o maior serviço que um ser humano pode prestar a seus semelhantes." (John Stuart Mill)

Este post foi publicado originalmente em espanhol no La Nación Data e reproduzido com autorização da autora.

Sandra Crucianelli é bolsista do Knight International Journalism Fellowship, uma jornalista investigativa e instrutora, com especialização em recursos digitais e jornalismo de dados. Ela é fundadora e editora da Sololocal.info, uma revista online que fornece notícias hiperlocais de Bahía Blanca, Argentina. Atualmente, trabalha como consultora para o jornal argentino La Nación, ajudando a criar o primeiro blog sobre jornalismo de dados do jornal, o La Nación Data.

Imagem: Morguefile