Jornalismo de dados e drones para entender comportamento de incêndios florestais

porDaniel Hentz
Oct 8, 2018 em Jornalismo de dados

As autoridades e bombeiros na Califórnia estão cada vez mais preocupados com o fato de que as condições climáticas mais secas e ventosas, provocadas pelo aquecimento global, tornarão os incêndios florestais mais devastadores e suas temporadas mais longas. De fato, a temporada de incêndios florestais na Califórnia neste ano está entre as piores da história, impulsionada pelo maior incêndio da história do estado, o Fogo Complexo de Mendocino, que se espalhou por quase 500 quilômetros quadrados.

Apesar das cenas dramáticas que aparecem nos noticiários, não está claro se o público está prestando atenção às causas e consequências desses incêndios florestais sem precedentes. O Storybench reuniu oito maneiras como jornalistas americanos estão cobrindo os incêndios deste ano.

Um olhar sobre as unidades de investigação de incêndios florestais – Wired

A reportagem "Whodunit" da Wired faz um mergulho profundo no mundo da investigação de incêndios: segue um dos mais renomados especialistas em incêndios do país, Paul Steensland, enquanto explica sua metodologia para encontrar o marco zero de cada complexo. O artigo, escrito por Robbie Gonzalez, chama a atenção para os elementos aparentemente inofensivos que podem levar a uma grande desastre, como a ponta de um fósforo ou até mesmo um pedaço de sucata.

Desde marcar a zona de queimadas a vasculhar hectares de solo carbonizado com poderosos detectores de metal, lupas e kits de coleta de evidências, a investigação tem proporções bíblicas. Conhecemos não apenas as ferramentas utilizadas, mas também a anatomia de um incêndio florestal. Por exemplo, os leitores podem aprender sobre a cabeça de um incêndio, seus flancos e qual das duas queima mais rápido: talvez algo que possa salvar a vida daqueles que precisam escapar de eventos similares. Outros indicadores no rastro de um incêndio, como as folhas ressecadas das copas das árvores, geralmente apontam na direção do desastre.

(Esquerda) Algumas vegetações queimam de uma maneira particular, sugerindo tempo, intensidade e direção de um incêndio. (Direita). Um complexo de fogo totalmente delineado. Fotos cedidas pela Wired.

Lapso de tempo das imagens de satélite da NOAA mostrando o acúmulo de fumaça atmosférica – Washington Post

Este lapso de tempo do Washington Post com foco em fumaça em todo os Estados Unidos é incrivelmente fascinante e grave. A dimensão é tudo durante a cobertura de incêndios florestais, mas raramente conseguimos ver dados de satélite de uma trilha de fumaça, comparável em escala à de um furacão, expandindo-se por todo o país e pelos mares. Os mapas fornecidos pela NOAA mostram manchas de vermelho, que indicam complexos ativos de incêndio, enquanto as variações de tons de marrom e bege mostram as concentrações da fumaça sendo produzida. Apresentar os dados dessa maneira faz com que os incêndios no oeste dos Estados Unidos se pareçam menos com problemas distantes e mais com perigos iminentes em nível nacional.

Dados do satélite NOAA da fumaça gerada pelos incêndios florestais na Califórnia e na Colúmbia Britânica. Crédito: Washington Post.

Fotojornalismo do terreno no norte da Califórnia – New York Times

O New York Times nos traz fotojornalismo da Califórnia que é ao mesmo tempo comovente e surreal. É impossível chamar esse trabalho de antiquado quando fotos como essas continuam a oferecer uma noção da gravidade do incêndio. Nessas imagens de aparência apocalíptica de áreas como Santa Bárbara e Santa Rosa, temos uma noção real de como a qualidade de vida nas colinas áridas do norte da Califórnia está se tornando árdua. Desde avistamentos de tornados de fogo a ar hipoxial espesso e céus diabolicamente vermelhos, este é verdadeiramente o inferno na Terra para muitos dos moradores do estado.

Aplicação de drones como tecnologia de extinção de incêndio – CNET

A recente reportagem sobre drones da CNET mostra a possibilidade de melhorar o tempo de resposta por parte dos bombeiros, que precisam se tornar mais onipresentes com o aumento da frequência de incêndios florestais em todo o estado. Isso é altamente benéfico por vários motivos: reduz a necessidade de aeronaves tripuladas, o que muitas vezes é caro para o estado e perigoso para as equipes de resposta. Igualmente importante, os drones podem ser programados em visão panorâmica para monitorar condições essenciais para o gerenciamento de desastres. Por exemplo, os drones que registram a direção e a intensidade do vento podem ajudar bombeiros a determinar o curso futuro de um sistema e, em seguida, emitir os avisos necessários para as comunidades vulneráveis ainda mais cedo. Isso pode permitir que os socorristas priorizem os quadrantes do complexo a serem reprimidos primeiro. No geral, a tecnologia pode seguir o ritmo de algumas dessas repercussões climáticas. A EdgyBees, especializada em realidade aumentada para carros e drones, está até pilotando softwares que permitirão que os drones transmitam informações valiosas de orientação aos usuários.

A screen capture of Edgybees’ First Response Programa para drones. Crédito: CNET.

Gráfico que correlaciona o crescimento populacional na Califórnia com os crescentes incêndios florestais – Buzzfeed News

O que está se tornando cada vez mais claro: mais urbanização significa menos área de queimada natural. Para a pessoa comum, mudar-se para a Califórnia é um sonho que se torna realidade, mas é preciso considerar as consequências do reflorestamento reduzido. Sem áreas naturais de queimadas, as casas assumem o papel de pavio no caminho do avanço dos incêndios florestais. Além disso, mais residentes trazem consigo uma consequência óbvia: mais maneiras de começar um incêndio. Peter Aldhous, do Buzzfeed News, criou vários gráficos para ilustrar essa correlação. O que fica óbvio ao ver esses números é um ciclo inegável: o ser humano estimula as mudanças climáticas com os gases do efeito estufa, levando a climas mais secos; mais humanos criam mais riscos de incêndio que catalisam grandes incêndios. É uma matemática simples, com consequências profundas.


Mais recente mapa atmosférico da NASA do Observatório da Terra mostra como os incêndios são uma questão global – CNBC & Fortune

É difícil não pensar globalmente ao ver as últimas investigações da NASA sobre os incêndios no oeste dos EUA a partir do Earth Observatory da organização. Este mapa representa uma infinidade de aerossóis viajando pelo ar, mas presta atenção especial a cinzas, fumaça e poeira – o vermelho ao redor da Califórnia é de carbono negro. A reportagem da CNBC sobre as imagens recentes da NASA inclui um aviso, lembrando que os dados ilustrados são baseados em modelos matemáticos e previram condições climáticas do mundo real. Uma coisa é certa: os efeitos sentidos pelos incêndios florestais da Califórnia não discriminarão com base no país; os incêndios terão efeitos globais.

Vídeo que analisa a relação da infraestrutura e a frequência do incêndio – The Verge 

A frequência dos incêndios na Califórnia não é inteiramente causada por seres humanos e mudanças climáticas. The Verge lançou recentemente um curta intitulado: “Why wildfire season never stops" [Por que a temporada de incêndios nunca para], que investiga as barreiras, ou a falta delas, que permitem que os incêndios florestais aumentem, com menos possibilidade de contenção. As linhas de alta tensão, por exemplo, são muitas vezes as culpadas durante ventos fortes. Com o clima mais seco da Califórnia, derrubar uma linha de alta tensão é um começo tão certo para um incêndio florestal quanto riscar um fósforo. Com relação à urbanização, os correspondentes do The Verge, Rachel Becker e William Poor, observam que as casas são “frequentemente compradas e vendidas em áreas propensas a incêndios” (mais de 40% das residências na Califórnia). Onde construímos e quão densamente construímos podem afetar a duração do fogo e o tempo de expansão. No entanto, isso também pode incluir abafadores feitos pelo homem, como campos de golfe e campos de futebol, onde há pouco para queimar. Mas isso não é SimCity. Tais mudanças exigirão uma tomada de decisão municipal rápida e séria, e muitos não têm tempo para isso.

Captura de tela [3:58] mostrando como as áreas urbanas entram na linha do curso natural de um incêndio em áreas propensas naturalmente a esses processos. Crédito: The Verge.

Vídeo sobre outros elementos responsáveis pelos incêndios na Califórnia — Vox

A Vox montou uma equipe para criar um vídeo curto que foca nas conexões entre incêndio e expansão urbana. Seu uso da sobreposição de mapas (1:24-1:42) entre residentes e áreas mais propensas ao fogo elucida ainda mais essa relação, mostrando que os principais catalisadores de fogo como os complexos Mendocino ou Carr são em grande parte utensílios domésticos — no caso de Carr, uma faísca de um aro de pneu.

(Esquerda) Frequências de incêndios florestais na Califórnia, (à direita) Densidades de residentes - Captura de tela [1:32]. Crédito: Vox Media.

Daniel Hentz é assistente de pesquisa de pós-graduação na Faculdade de Jornalismo da Universidade Northeastern e contribui para o Storybench. Ele possui mestrado em jornalismo e bacharelado em estudos globais, ecologia e biologia evolutiva.

Este post foi publicado originalmente no Storybench, reproduzido pela GIJN e aparece na IJNet com permissão.

Imagem principal sob licença Unsplash via Vince Fleming