Informando sobre COVID-19 para as comunidades indígenas no Paraguai

porAnalía López
Sep 15, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Indígena sentada em banco fazendo sacolas

A COVID-19 revelou um sistema de saúde precário e também expôs as lacunas sociais existentes no Paraguai. Por esse motivo, é necessário conhecer o contexto do território onde trabalhamos e se preparar para fornecer informação a sectores vulneráveis ​​que, muitas vezes, são marginalizados.

Segundo dados preliminares do III Censo Nacional Indígena 2012, a população indígena em todo o Paraguai é de 115.944 habitantes, sendo a região de Presidente Hayes, no oeste do país, o local com maior população indígena. Este setor é um dos mais vulneráveis ​​à COVID-19, especialmente porque suas condições de vida são inseguras e instáveis ​​e seu acesso à internet ou aos meios de comunicação de massa é escasso. Por isso, ter boas práticas e ferramentas na comunicação sobre a pandemia torna-se um desafio.

[Leia mais: Contexto é essencial ao reportar sobre povos indígenas e COVID-19]  

 

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) elaborou um documento com pontos a serem levados em consideração ao informar as comunidades indígenas. O documento destaca a importância de se ter estratégias de comunicação diferenciadas e de alcance imediato.

Aqui compartilhamos boas práticas e dados que todo comunicador deve ter em mente ao informar as comunidades indígenas sobre a COVID-19:

1. Produza materiais em idiomas nativos

A diversidade linguística em cada comunidade indígena é uma realidade da qual devemos fazer parte, por isso devemos ter tradutores ou intérpretes que possam nos apoiar nas comunicações sobre a COVID-19.

María José Centurión, comunicadora paraguaia da Federação para a Autodeterminação dos Povos Indígenas (FAPI), menciona que, além da criação de materiais em línguas nativas, é necessário “promover e estar permanentemente em uma atitude de escuta e desfazer estereótipos e preconceitos em relação às comunidades indígenas. Ouça mais, não seja a voz deles, mas dê voz a eles na mídia, em espaços de incidência política, social e econômica.”

No Paraguai, por meio da campanha de comunicação #EntreComunidadesNosCuidamos  — promovida pela FAPI, o Instituto Paraguaio do Indígena (INDI), a Secretaria Técnica de Planejamento do Desenvolvimento Econômico e Social (STP), o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o Dia das Boas Ações, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o Fondo Pawanka e a Agência Espanhola de Cooperação para o Desenvolvimento Internacional) — 24 imagens e 25 spots de rádio traduzidos para línguas nativas foram transmitidos em diferentes canais de comunicação.

 

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Materiais em língua nativa, divulgados na campanha #EntreComunidadesNosCuidamos.
Os canais de comunicação:

É extremamente importante dispor de espaços de radiofrequência para dar maior cobertura às rádios comunitárias e fornecer equipamento de comunicação de rádio. Segundo a Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel), órgão regulador do Paraguai, existem 242 rádios comunitárias no país. No entanto, no capítulo sobre o Paraguai do estudo Mapa de rádios da América Latina e Caribe, a comunicadora Salustiana Caballero descreve a situação desigual das rádios comunitárias no país. O mapa de radiodifusão da Conatel mostra a forte concentração de rádios na região leste, enquanto na região do Chaco, onde a população indígena é maior, há poucas radiofrequências. Por isso, o desafio e o compromisso de jornalistas e comunicadores são ainda maiores.

Centurión também destaca o papel fundamental que as rádios comunitárias desempenham em tempos de pandemia. “É a voz da comunidade, da cultura, é o reflexo dos sentimentos e problemas da comunidade, de um povo inteiro. Hoje, tendo em conta este contexto, as rádios indígenas têm apelado à criatividade, com os limitados recursos e equipamentos de que dispõem, para poder levar informação verdadeira às suas comunidades, na língua do seu povo, numa perspectiva intercultural e real para quem vive o dia a dia.”

2. Derrube estereótipos

Para realizar qualquer estratégia de comunicação que seja eficiente, inclusiva e intercultural, é fundamental que todo comunicador conheça e compreenda o modo de vida das comunidades e povos indígenas, e como veem o mundo em suas dimensões política, cultural, econômica, espiritual, territorial, de identidade ou linguagem.

“Desse ponto de vista, muitos mitos são demolidos e, sobretudo, evita-se realizar o processo de construção da notícia de uma perspectiva descriminatória, às vezes sem intenção e só por desconhecimento... A aquisição desse olhar intercultural abre um caminho mais amplo para o mais próximo da objetividade, da inclusão, da não discriminação e da não revitimização dos povos indígenas, para começar a considerá-los como sujeitos de direito e não de caridade”, destaca Centurión.

3. Entre em contato com os líderes indígenas

As comunidades indígenas são representadas por meio de seus líderes, que podem ser importantes porta-vozes para a divulgação de informações ou campanhas de comunicação sobre a COVID-19. É importante ter em nossa agenda o contato de quem corresponde a cada comunidade.

[Leia mais: Povos indígenas se isolam e recorrem à medicina ancestral diante da pandemia]

Educar faz parte do nosso papel de comunicadores e manter-se informado faz parte dos direitos dessas comunidades; portanto, treinar e fornecer informações sobre a COVID-19 aos líderes é um ponto fundamental para que eles possam transmiti-lo às suas comunidades.

4. Tenha conhecimento sobre os termos e conceitos chaves

Há momentos em que um comunicador comete erros devido a uma profunda ignorância do assunto. Quando se trata de comunidades indígenas, devemos nos educar sobre cada termo e conceito chave que ajude em uma comunicação boa e respeitosa.

A Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas utiliza o termo povos indígenas em todos os seus artigos, destacando-os como sujeitos de direito. Na Constituição Nacional do Paraguai, o mesmo termo é utilizado em todos os seus artigos no Capítulo V (“Dos Povos Indígenas”).

Termos (em espanhol):

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Fonte: Recomendações mínimas para o uso de uma linguagem inclusiva em relação a pessoas e grupos em situações especiais de vulnerabilidade.

 

Por fim, Centurión deixa um desafio aos comunicadores e jornalistas interessados em se tornar comunicadores interculturais: “Que eles possam se despojar dos conceitos e ideias que foram construídos no imaginário individual ou como sociedade sobre os povos indígenas.”

Por meio da comunicação, o jornalista pode ser uma ferramenta que torna visível a realidade em que vivem as comunidades indígenas durante a pandemia.


Foto principal cortesia de Laila Tellechea