Faculdade americana foca em mentalidade 'startup' para jornalismo

porMaite Fernandez
Oct 11, 2013 em Diversos

Numa época em que as escolas de jornalismo são criticadas por demorarem demais para se adaptarem ao mercado de trabalho digital, um programa de pós-graduação em Nova York tem como objetivo produzir a próxima onda de empreendedores da mídia.

Criado há três anos, o mestrado em artes e certificado avançado em jornalismo empreendedor da Tow-Knight Center for Entrepreneurial Journalism da City University of New York (CUNY) capacita jornalistas para darem um grande salto e lançarem novas startups de mídia.

Entre as histórias de sucesso do programa até agora estão projetos renomados, como Skillcrush, um site que oferece recursos para mulheres aprenderem codificação e entenderem melhor de tecnologia, e Narrativa.ly, um site de notícias que "desacelera o ciclo de notícias, "apresentando uma grande história em profundidade por dia". A revista Time nomeou Narrative.ly um dos 50 melhores websites de 2013.

Além de oferecer um currículo condensado de administração de negócios, o programa exige que cada aluno desenvolva e lance um projeto de startup.

"Um dos nossos principais objetivos é preparar o aluno para se adaptar às mudanças no mercado e ajudar a liderar a indústria", disse Jeremy Caplan, diretor do Tow-Knight Center. "O importante não é apenas dominar ferramentas específicas, mas desenvolver uma mentalidade que engloba o pensamento criativo, resolução de problemas, análise inteligente e uma colaboração eficiente e eficaz."

Caplan falou com a IJNet sobre o que o programa aprendeu desde o seu lançamento em 2010, o que é preciso para ser um empreendedor jornalístico de sucesso e como será o jornalismo daqui a cinco anos.

IJNet: O programa foi apontado como o primeiro de seu tipo quando começou. Quais as lições que você aprendeu dirigindo o programa nos últimos três anos?

Jeremy Caplan: O programa de jornalismo empresarial do Tow-Knight Center foi o primeiro a oferecer um mestrado e um certificado avançado em jornalismo empreendedor, e nós sabemos que precisamos continuar renovando a nossa abordagem para ficar à frente. Aprendemos com programas inovadores nas melhores escolas de negócios, jornalismo e design de todo o mundo e fizemos inúmeros ajustes e melhorias para o programa desde que lançamos.

Em primeiro lugar, aumentamos as visitas a startups e programas com palestrantes convidados para tirar proveito máximo do centro empresarial que envolve a nossa escola. Na primavera passada, por exemplo, visitamos o Facebook, Twitter, Tumblr, BuzzFeed, Kickstarter, RebelMouse, Forbes, Mashable e outras empresas de tecnologia. Nós também oferecemos mais workshops e treinamentos práticos conduzidos por especialistas da indústria em áreas técnicas como o desenvolvimento de negócios, gerenciamento de projetos e marketing online. Nós juntamos estudantes com mentores e focamos em orientação personalizada durante todo o programa. E aperfeiçoamos cada um dos cursos que oferecemos em resposta ao feedback dos alunos e do corpo docente.

Outra grande lição que aprendemos é que precisamos experimentar em alcançar pessoas online, para que possamos ampliar o impacto do nosso programa e ajudar mais jornalistas de todo o mundo. É por isso que estamos nos preparando para expandir nossos programas de aprendizagem online no ano que vem. Fique ligado no newjournalism.towknight.org para novas oportunidades de aprendizagem online no próximo ano.

IJNet: Numa época em que as faculdades de jornalismo são criticadas por não se adaptarem rápido o suficiente às mudanças na mídia, por que os estudantes devem investir em um programa de mestrado como este?

JC: Uma das vantagens de um programa como o nosso é que é mais prático do que acadêmico. Isso é uma vantagem para alguém interessado em praticar o jornalismo e não só pensar sobre ele. Nosso corpo docente inclui jornalistas e profissionais de mídia, e não teóricos, e nós atualizamos o nosso currículo a cada ano.

Um dos nossos principais objetivos é preparar o aluno para se adaptar às mudanças no mercado e ajudar a liderar a indústria. O software específico, os serviços de gerenciamento de conteúdo e sites que os estudantes usam vão mudar com frequência, de modo que é importante não apenas dominar as ferramentas específicas, mas desenvolver uma mentalidade que engloba o pensamento criativo, resolução de problemas, análise inteligente e uma colaboração eficiente e eficaz.

IJNet: Com base na sua experiência no centro e acompanhando startups de mídia da ideia à implementação, o que caracteriza um empresário de mídia bem sucedido?

JC: Persistência e paixão são as duas características mais importantes. Começar algo do zero geralmente exige sacrifício pessoal e profissional. Também requer uma tolerância para o fracasso ocasional e uma vontade de enfrentar inúmeros obstáculos ao longo do desenvolvimento do projeto. Para ter sucesso como jornalista empreendedor, é preciso ter paixão suficiente para persistir diante de desafios.

IJNet: Como imagina a evolução do jornalismo nos próximos cinco anos, o que acha que as escolas precisam fazer para se adaptar?

JC: Curadoria e agregação será cada vez mais importante, pois o volume de informação se espalhando online cresce exponencialmente. As faculadades terão que ensinar essas habilidades, porque muitos jornalistas vão trabalhar selecionando informação produzida por outros ao invés de produzir conteúdos próprios.

Um número crescente de jornalistas vai optar por carreiras de agente livre, trabalhando de forma independente e produzindo histórias para vários canais digitais, impressos e eletrônicos. Jornalistas vão criar e contribuir para uma crescente variedade de sites de nicho e canais de mídia social. Ter uma marca pessoal será crucial para o desenvolvimento da carreira.

Capitalizando sobre o ecossistema de mídia em evolução, muitos jornalistas vão se distinguir através de seu espírito empreendedor, iniciando novos sites, aplicativos e serviços.

A especialização e experiência em um assunto serão cada vez mais importantes. Os consumidores de notícias vão cada vez mais se dar ao luxo de procurar sites de nicho com profunda experiência em praticamente qualquer área de assunto. Esses sites terão jornalistas capazes de mergulhar profundamente em áreas específicas, que também podem esclarecer questões complexas e apresentar histórias de maneiras criativas.

A verificação da mídia social vai continuar a crescer em importância. As faculdades devem fornecer uma base nesse conjunto de habilidades, assim como devem ajudar o alunos a dominar os conceitos básicos de verificação dos fatos em geral.

Jornalistas serão cada vez mais procurados por organizações não-jornalísticas, porque organizações de todos os tipos vão reconhecer a importância de criação de conteúdo, mídias sociais e multimídia. Os jornalistas estão cada vez mais sendo contratados por museus, empresas de consultoria, agências governamentais e outras entidades de "não-mídia". Essa tendência irá acelerar e ampliar a disponibilidade de oportunidades disponíveis para aqueles com formação em jornalismo.

IJNet: Se pudesse dar um conselho para um aspirante a jornalista, o que seria?

JC: Torne-se um especialista em alguma coisa, seja genética, árabe, estatísticas, refugiados, ou algum outro assunto de seu interesse que terá impacto sobre a notícia nas próximas décadas. Sua experiência vai lhe dar credibilidade, uma vantagem crucial.

E aperfeiçoe seu ofício a cada oportunidade. Assim como leva 10.000 horas de prática para se sobressair em um esporte ou um instrumento musical, leva muito tempo, esforço e prática para se destacar no jornalismo. Tirar muitas fotos ruins e escrever muitas matérias medíocres é o primeiro passo em direção à excelência, se e somente se você aprender com cada esforço e procurar mentores que podem ajudar você a [aprender] com os erros.

Para mais detalhes sobre o programa, visite o Tow-Knight. As inscrições para a próxima classe vão até 31 de outubro.

Imagem: Tow-Knight Center no Flickr, cortesia de Jeremy Caplan

Maite Fernández é editor-chefe da IJNet. É fluente em inglês e espanhol e fez mestrado em jornalismo multimídia pela Universidade de Maryland.