Entrevista com Sandra Rodríguez Nieto: Fazendo jornalismo em uma cultura de impunidade

porJulie Schwietert Collazo
Dec 14, 2015 em Jornalismo investigativo

A jornalista investigativa Sandra Rodríguez Nieto passou sua carreira cobrindo corrupção e falhas do governo federal e sistema judicial do México, bem como seus efeitos sobre os cidadãos. O principal desses efeitos, Sandra disse, é o impacto da impunidade -- a impossibilidade de perseguir e julgar crimes -- sobre a sociedade civil. Seu trabalho recebeu inúmeras homenagens, incluindo o Prêmio Knight Jornalismo Internacional em 2011.

O livro recém-publicado de Sandra, The Story of Vicente, Who Murdered His Mother, His Father, and His Sister: Life and Death in Juárez” (A História de Vicente, Que Assassinou Sua Mãe, Seu Pai e Sua Irmã: Vida e Morte em Juárez", em tradução livre), é a sua mais recente contribuição jornalística sobre a guerra das drogas no México e, em particular, os seus efeitos sobre Ciudad Juárez.

Ela falou com a IJNet sobre Vicente, a cultura da impunidade em Juárez e como o jornalismo mexicano foi afetado pela guerra às drogas.

IJNet: O que você acha que leitores e telespectadores de notícias precisam saber para entender melhor as zonas fronteiriças?

Sandra: A história de Vicente reflete a normalidade de uma cidade violenta. A intenção, em certo sentido, era mostrar que os crimes são cometidos como resultado de oportunidades nos países sem um Estado de direito, não porque as pessoas [que cometem os crimes] são, em si mesmas, criminosas. O objetivo do livro é mostrar como funciona a impunidade na vida das pessoas que não têm relação anterior ao crime. Para mim, esta é uma situação geral que afeta toda a cidade, criminosos e não-criminosos, e isso contamina a todos nós.

IJNet: Mais de um dos seus colegas foi assassinado por causa de seu trabalho jornalístico. Você se preocupa com sua própria segurança? Como se protege?

Sandra: A principal forma de me proteger é trabalhando e escrevendo da maneira mais objetiva possível, colocando temas e as pessoas em todos os contextos possíveis que nos ajudam a compreendê-los, sem julgar ninguém, além daqueles que são obrigados pelas leis deste país de proteger os seus cidadãos: o governo. Com isso, espero que quem lê o meu trabalho saiba que a única coisa que eu faço é o meu trabalho jornalístico. Esta é a minha única forma de proteção profissional.

Infelizmente, eu sinto que não há nenhuma maneira de proteger a vida de qualquer pessoa no México -- nem jornalistas nem qualquer outro cidadão -- depois que alguém decide cometer um homicídio. Como posso lidar com essa desesperança? Eu sou cristã, acredito em Deus e tento cultivar essa fé.

IJNet: A violência associada ao narcotráfico tem obrigado muitos jornalistas a trabalhar de uma forma em conflito com a sua formação, opondo-se a seus próprios valores e preferências. Qual é o estado atual do jornalismo em Juárez e outros zonas de fronteira [EUA-México]?

Sandra: Esse é o problema mais grave e obrigada por perguntar sobre isso. Em Juárez e México em geral, os jornalistas foram surpreendidos com a escalada da violência, para a qual não foram de forma alguma preparados, profissionalmente falando. Olha, nós não estávamos mesmo imediatamente cientes de que estávamos no meio de uma guerra. Percebemos, pouco a pouco, cada um de nós em um momento diferente, eu acho, e todos tomaram as precauções que puderam.

Alguns [jornalistas] em Juarez foram tão longe quanto usar coletes à prova de balas, mas depois percebemos que poderíamos ser emboscados e baleados na cabeça, e não apenas pegos em fogo cruzado. Eu sinceramente acredito que nós jornalistas mexicanos mostramos uma enorme coragem na grande parte do nosso trabalho, mesmo sem saber exatamente o que estamos enfrentando: uma guerra sem lados definidos e nós no meio.

IJNet: O que a comunidade internacional de jornalistas pode -- e deve -- fazer para apoiar seus colegas mexicanos?

Sandra: Preste atenção ao que acontece no México, que pretende ser uma democracia funcional, e levante a sua voz em todos os fóruns sobre o fato de que as taxas de homicídio de jornalistas e impunidade não correspondem a um país democrático.

Esta entrevista foi condensada e editada.

Imagem principal sob licença CC no Flickr via Daviddje