Entrevista com Ami Vitale: Como um fotojornalista pode construir relacionamentos

por Mandla Chinula
Nov 28, 2016 em Jornalismo multimídia

Uma grande parte do trabalho de um fotojornalista é construir ou manter relações com as pessoas todos os dias. No entanto, a praticidade de construir essas relações e saber onde traçar a linha pode ser um pouco desafiante. Em uma entrevista por e-mail, a fotojornalista e documentarista Ami Vitale da National Geographic compartilhou algumas dicas sobre como construir relacionamentos:

IJNet: O que você acha sobre dar aos seus entrevistados coisas materiais, por exemplo, comida, como uma das maneiras de estabelecer relações ou construir confiança?

Vitale: Quando você dá dinheiro ou coisas materiais, torna-se um relacionamento comercial e cria expectativas irrealistas. No fotojornalismo, temos diretrizes muito rígidas, e pagar pessoas por entrevistas ou tirar suas fotos é considerado antiético. A Associação Nacional de Fotógrafos da Imprensa dos EUA tem um conjunto útil de diretrizes aqui.

Em algumas circunstâncias, trago frutas ou almoço como um gesto para mostrar que respeito o tempo deles. Mas nunca trago grandes presentes ou dinheiro em troca de uma entrevista. Uma coisa que eu sempre faço é levar as fotos [que tirei deles] (e se você oferecer isso, não esqueça de fazê-lo. É muito pior prometer algo e, em seguida, não cumprir).

Em um esforço para criar relações com os entrevistados, o fotógrafo pode mergulhar na cultura, respeitando as pessoas e sua cultura. Até quanto um fotojornalista pode mergulhar em uma cultura? Quando em Roma, os fotojornalistas devem fazer como os romanos? 

Eu posso usar um véu ou roupa conservadora como uma burqa quando estou num país conservador, onde essa é a norma cultural. Mas eu não pretendo ser alguém que não sou. Por exemplo, eu não finjo que sou uma pessoa religiosa devota e corto meu cabelo para provar isso. Ser transparente e honesto sobre suas diferenças é muito melhor do que tentar fingir que você acredita nas mesmas coisas quando não é caso.

Você acha que equipamentos podem às vezes dificultar ou ajudar o acesso de um fotojornalista a um indivíduo ou um espaço?

O segredo é realmente conhecer o seu equipamento antes de ir para um trabalho. Conheça o seu equipamento para que você possa se concentrar na relação com as pessoas que você está fotografando. Se você exude apreensão ou tensão, as pessoas percebem e não conseguem relaxar com o elemento adicionado de uma câmera.

Você acha que ser capaz de ter empatia por seus entrevistados pode ajudar a se relacionar melhor com eles?

Lembre-se: temos mais em comum uns com os outros do que você poderia pensar. Não olhe para as pessoas como diferentes ou exóticas. Em vez disso, concentre-se nas coisas que nos unem e nos conectam.

Há uma bela verdade universal em todos os lugares que se você olhar debaixo do véu, encontrará valores comuns impressionantes entre nós. Use sua câmera não apenas como uma extensão do seu olho, mas também como uma extensão do seu coração.

Ao construir relacionamentos, o que acha que são as qualidades mais valiosas?

Ficar perto e íntimo das pessoas exige tempo e compreensão. Eu não vejo a fotografia apenas como uma aventura. Embora nós possamos testemunhar coisas extraordinárias, a magia realmente começa quando você fica em um lugar e se dá o tempo suficiente para ganhar insight e compreensão. Prefiro passar mais tempo em um lugar do que tentar ver tudo. As imagens bem-sucedidas de pessoas quase nunca acontecem à distância. Guarde a lente teleobjetiva e leve uma lente ampla como a de 24mm ou 35mm. Você se aproxima fisicamente e mostra intimidade nas fotos.

Falar com estranhos ou pessoas célebres pode ser difícil e cruciante para alguns fotógrafos. Como você consegue se conectar com seus entrevistados?

Seja simplesmente por um gesto de reconhecimento, uma saudação, uma explicação do que você está fazendo ou uma longa conversa envolvida, eu sempre explico por que estou lá e qual é o propósito de tirar essas fotos.

Antes de sair de casa, sempre faço contato com os líderes da comunidade onde estou trabalhando. Sempre há uma hierarquia em cada comunidade. Se você gastar o tempo para explicar por que você está lá e obter a bênção dos líderes ou anciãos antes de começar seu trabalho, vai deixar todos na comunidade entender por que você está lá. As notícias viajam rápido e ter a bênção dos líderes irá mantê-lo mais seguro do que vagar sem rumo.

Para ver o trabalho de Vitale, visite amivitale.com ou instagram.com/amivitale.

Imagem principal sob licença CC no Flickr via open-arms. Imagem secundária cortesia do Twitter de Vitale.