Enfrentando censura, jornalistas e cidadãos nicaraguenses recorrem às redes sociais

por Ana Siu
May 7, 2018 em Diversos

O que fazer quando o governo censura a mídia? Usar as redes sociais.

Foi assim que milhares de jovens nicaraguenses começaram o movimento #SOSNicaragua, enquanto o governo do país censurava veículos independentes e reprimia violentamente os protestos. Tudo em apenas sete dias.

Como visto na Primavera Árabe e na mobilização #19S no México, os nicaraguenses conseguiram organizar e informar através do único meio que o Estado não controlava: a internet. A mídia social foi fundamental para os nicaraguenses se levantarem e tomarem as ruas exigindo justiça e para os repórteres cobrirem os protestos.

Redes sociais, a segunda trincheira

O público usou as redes sociais de várias maneiras, confiando principalmente no Twitter.

"É o canal de comunicação mais eficaz", disse o jornalista Misael Centeno. “Permite que as pessoas troquem mensagens curtas e sincronizadas durante um protesto”. Como o Twitter é amplamente utilizado por jornalistas e intelectuais na Nicarágua, ganhou maior credibilidade. "Há usuários que não têm espaço na televisão ou na imprensa tradicional, mas que se tornaram micro-influenciadores e são capazes de fazer qualquer assunto no país se tornar viral", disse ele.

Enquanto isso, os meios de comunicação independentes também alcançaram seu público através do Facebook. No meio do caos, jornalistas usaram a plataforma para expor agressões contra civis. "As histórias foram contadas através do Facebook Live, vídeos e fotos", disse Carlos R. Fonseca.

O WhatsApp também foi crucial porque permitiu que as pessoas compartilhassem informações organicamente. Como cada mensagem enviada via WhatsApp é criptografada, seus usuários desfrutaram de um nível adicional de privacidade.

"As pessoas estão envolvidas em diferentes grupos do WhatsApp: grupos de pais, amigos de infância, colegas de trabalho e outros. Nesses grupos, muito conteúdo relevante foi trocado", disse Fonseca.

Novos desafios

Quando os usuários de mídia social são a única fonte de informação, a reportagem apresenta maiores desafios. Um deles é a checagem de fatos; o outro é descobrir notícias falsas.

Rodrigo Serrano, cofundador dos movimentos #YoSoy132 e #Verificado19S, acredita que existe uma verdadeira guerra de informação e que a desinformação supostamente se tornou parte da estratégia de comunicação dos governos, incluindo o governo mexicano.

"Ensinar é uma maneira de combater a desinformação", disse Serrano. "Ensine sua tia a não compartilhar tudo o que recebe no WhatsApp, mas primeiro procurar a fonte e aprender a distinguir os sites de lixo de sites reais. Coisas muito básicas."

Quando confrontados com notícias suspeitas, os jornalistas também devem fazer reportagens e pedir declarações. No entanto, Serrano admitiu que o processo pode levar muito tempo. "Enquanto você verifica, as notícias falsas já se tornaram virais."

Em uma crise como a da Nicarágua, é um desafio para jornalistas documentar o que acontece no mesmo ritmo em que as informações estão sendo disseminadas nas redes sociais. Serrano sugere a criação de um sistema dedicado à coleta de evidências e testemunhos.

O próximo passo para o #SOSNicaragua

O movimento #SOSNicaragua é horizontal (organizado por cidadãos comuns ao nível comunitário) como a maioria dos movimentos nascidos nas mídias sociais. No entanto, alguns cidadãos estão exigindo criar uma organização política para enfrentar o partido no poder.

"Com base na minha experiência, acho que há dois caminhos à frente. O primeiro é tentar ter um impacto ao nível político dentro do sistema. O segundo, continuar a organização horizontal com a ajuda das redes sociais", disse Serrano. Os dois são um pouco incompatíveis entre si."

Se o movimento quer prevalecer a longo prazo, é necessário fortalecer as conexões que foram criadas durante essa crise, acrescentou. "O objetivo é criar confiança e desenvolver ainda mais essas redes. Essas redes funcionam dentro de um contexto específico hoje, mas o objetivo é que elas possam continuar trabalhando juntas no futuro."

Um comitê de diálogo social está sendo criado com diferentes setores da sociedade nicaraguense, incluindo estudantes que ajudaram a formar o movimento Autoconvocados.

Através das redes sociais, os jovens nicaraguenses descobriram uma alternativa ao sistema político tradicional, e os jornalistas descobriram uma alternativa ao sistema tradicional de reportagem. As pessoas estão se organizando como nunca antes e não precisam mais das estruturas antigas para fazê-lo.

Ana Siu é diretora criativa e estrategista digital da Publicis One na Nicarágua.

Imagem sob licença CC via Julio Vannini