Dicas e recursos para cobertura de terrorismo

por Sherry Ricchiardi
Feb 16, 2017 em Segurança do jornalista

Antes de viajar para Bangladesh em janeiro, estudei relatórios sobre os desafios enfrentados pelos jornalistas locais. O terrorismo estava no topo da lista.

Durante as reuniões na imensa capital de Dhaka, uma pergunta foi levantada frequentemente: Como cobrimos a ascensão do extremismo islâmico em nosso próprio quintal? O que devemos fazer ou não em reportagens sobre terrorismo e militância? Existem diretrizes que podem ajudar? Quais são os perigos de lidar com grupos que defendem a violência para alcançar seus objetivos?

Os jornalistas descreveram ataques crescentes contra a imprensa. Um repórter veterano foi incapacitado por cinco meses depois de ser agredido por extremistas. Vários outros falaram de ameaças e intimidações. Um ainda estava com o braço engessado por causa de um ataque.

Em 2 de fevereiro, Abdul Hakim Shimul, correspondente do jornal Samakal, foi baleado na cabeça e no rosto enquanto cobria a agitação política. Ele morreu um dia depois. Jornalistas especularam se ele foi atacado ou pego em fogo cruzado quando o tiroteio começou.

"Bangladesh se tornou um lugar perigoso para quem ousa cruzar uma linha invisível estabelecida por extremistas islâmicos com a intenção de silenciar vozes dissidentes com facas e armas", reportou a CNN em abril de 2016. Muitos jornalistas ainda assumem o risco.

Durante meses, o repórter do Dhaka Tribune, Adil Sakhawat, cortejou fontes na esperança de que o levassem a um grupo militante responsável pelo ataque de outubro de 2016, que matou nove guardas ao longo da fronteira entre Mianmar e Bangladesh.

Finalmente, ele obteve permissão. De carona numa motocicleta para um local remoto, ele foi revistado e vendado. Uma caminhada de duas horas pela selva levou-o ao segundo-em-comando do grupo.

O repórter ficou sabendo que os guardas de fronteira eram alvos para "saquearmos suas armas e munições para o nosso treinamento de guerrilha". O motivo do grupo, disse o líder, era proteger os Rohingyas, uma minoria muçulmana oprimida em Mianmar.

A matéria foi publicada em 11 de janeiro com a manchete, "Vamos lutar até a última gota de sangue".

Por que Sakhawat, 28 anos, casado, com dois filhos, correu esse risco? "Militância e radicalização são as principais preocupações em todo o mundo. Temos que cobrir não apenas os líderes, mas as raízes desses grupos, seus seguidores e seus motivos", disse o repórter. "Confiei em minhas fontes."

Os recursos sobre a cobertura do terrorismo que eu reuni para Bangladesh são aplicáveis ​​em qualquer lugar do mundo. Aqui estão três que podem ser úteis no planejamento de estratégias de reportagem:

O banco de dados de terrorismo global (GTD, em inglês) da Universidade de Maryland oferece um ponto único para pesquisar ataques terroristas. De acordo com seu site, a lista de mais de 150.000 incidentes é a base de dados não-classificada mais abrangente do mundo sobre eventos terroristas.

Para cada um, há data e localização, as armas utilizadas e a natureza do alvo, o número de vítimas e -- quando identificável -- o grupo ou indivíduo responsável. O GTD atua como parte do Consórcio Nacional para o Estudo do Terrorismo e Respostas ao Terrorismo (START, em inglês).

"O GTD conseguiu muito tráfego nos últimos anos -- milhões de páginas vistas por mês", diz Gary LaFree, diretor do START. Na tarde em que conversamos, ele telefonou para o Wall Street Journal buscando informações sobre os sete países predominantemente muçulmanos -- Síria, Iêmen, Iraque, Somália, Líbia, Irã e Sudão -- mencionados na proibição de viagem do presidente Trump.

LaFree afirma que o banco de dados mostra que não há um único caso de ataque terrorista que envolve um perpetrador de um dos sete países onde um americano foi morto nos Estados Unidos.

Outra fonte de fácil utilização é o "Handbook on Reporting Terrorism", financiado pelo International Media Support, na Dinamarca. Na lista de o que fazer e não fazer:

  • Fornecer contexto e não simplificar demais. Esses eventos não acontecem no vácuo.

  • Não especular sobre nada! Forneça os fatos somente e o que é sabido e pode ser verificado.

  • O que reportamos não deve comprometer a vida humana e em muitos desses casos precisamos cooperar com as forças de segurança/agentes do governo para evitar colocar outros em perigo.

  • Não usar manchetes sensacionalistas e que causem pânico.

  • Não usar palavras inflamatórias, inapropriadas ou depreciativas.

  • Certificar-se de que a sua matéria inclua a perspectiva de várias fontes.

  • Promover a coesão social, a paz e o patriotismo sem ser a voz ou porta-voz de qualquer oficial/agente.

  • Contar histórias sobre a resiliência das comunidades, boa intervenção e outros ângulos positivos.

O “Breaking News Consumer’s Handbook”, por Alex Goldman, oferece recomendações a jornalistas dirigidos por prazos diários e competição. 

"Apressar [a publicação de] informação não confirmada ou precoce ou boatos da mídia social é arriscado. A informação pode ser imprecisa ou promover mitos sobre quem é responsável pela violência", escreve Goldman, produtor do On the Media.

Entre as diretrizes da edição do guia sobre terrorismo:

Para dicas de segurança, confira o Committee to Protect Journalists, International News Safety Institute, Reporters without Borders e Rory Peck Trust, que fornecem materiais para ajudar repórteres a assessar situações de perigo. 

Imagem principal sob licença CC no Flickr via DVIDSHUB. Segunda imagem cortesia do Banco de Dados de Terrorismo Global Terrorism. Terceira image cortesia do On the Media.