Dicas de proteção para jornalistas durante a cobertura sobre COVID-19

porJéssica Cruz
Mar 21, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Coletiva de imprensa sobre coronavírus

O Brasil registrou o primeiro caso de coronavírus no dia 26 de fevereiro. No dia 20 de março, esse número subiu rapidamente para 977 casos e 11 óbitos.

Mas na véspera do fechamento de escolas em São Paulo e Rio de Janeiro, apesar da orientação de isolamento por autoridades de saúde, o presidente Jair Bolsonaro participou de uma manifestação pró-governo em que teve contato com centenas de cidadãos e jornalistas. Na ocasião, Bolsonaro declarou que não deixaria de estar com o povo e que “esse vírus trouxe uma certa histeria”. 

O próprio Bolsonaro foi submetido ao teste de coronavírus, enquanto pelo menos 22 integrantes da comitiva presidencial que viajou junto com ele aos Estados Unidos em fevereiro contraíram a doença.

A jornalista Marina Dias da Folha de S. Paulo, que cobriu parte da viagem de Bolsonaro, decidiu cumprir quarentena por conta própria. Ela escreveu que o ambiente do encontro em Washington não poderia ter ser sido mais propício para a transmissão do vírus: um salão sem janela, cheio de pessoas que viajaram de diversos países.

Nesse cenário, o trabalho jornalístico é uma prestação de serviço público vital, por isso, os jornalistas continuam nas ruas e conferências de imprensa, apurando os fatos. Como esses profissionais podem proteger a si mesmos contra o vírus?

[Leia mais: 10 dicas para cobrir COVID-19]

Seguindo a Organização Mundial da Saúde, o Ministério da Saúde do Brasil publicou orientações para todas as empresas do país, inclusive as de comunicação, para realizar reuniões virtualmente, cancelar viagens não essenciais e, se possível, trabalhar no modelo home office. Também orientou que os gestores adotassem horários alternativos para que os trabalhadores evitassem o período de pico dos transportes.

Muitos veículos de jornalismo do Brasil já estão implementando medidas preventivas ao mesmo tempo que intensificam sua cobertura da pandemia. As maiores redações de jornais, como a Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo, dispensaram parte de seus funcionários para trabalho de casa.

Para os jornalistas que continuam trabalhando nas redações, o infectologista Dr. Jamal Suleiman, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas em São Paulo, orienta que os profissionais se atentem à limpeza da ilha de trabalho.

"Assim que chegar ao trabalho, a pessoa deve higienizar suas coisas com álcool 70% ― melhor utilizar o álcool líquido, por causa do teclado― limpar com uma toalha ou papel para ser descartado depois, assim que terminar, lavar as mãos para começar a trabalhar e fazer o mesmo antes de ir embora”, ele recomenda, também enfatizando que manter a distância de um metro entre as pessoas é primordial. A distância também é orientada para os apresentadores e entrevistados ao vivo.

Dr. Suleiman reforça que todas as medidas são para redução da quantidade de microrganismo para evitar a infecção. Mesmo com todos os cuidados, ainda assim, pode haver contaminação.

Cuidados nas entrevistas externas

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP) enviou na segunda-feira passada orientações para as empresas jornalísticas, dizendo que as entrevistas presenciais apenas devem ocorrer se estritamente necessárias e viagens a trabalho se absolutamente essencial para a cobertura jornalística.

A orientação é bem plausível para quem trabalha com sites, impressos e empresas, mas pouco aplicável para fotojornalistas e cinegrafistas. Jornalistas visuais devem optar por entrevistas por videoconferência, mas se não for possível, escolher um local com pouca circulação de pessoas e garantir que nenhum dos dois esteja com sintomas.

Dr. Suleiman diz que ambientes abertos não são mais seguros, como muitos pensam. “A aglomeração é um problema; existem alguns estudos que falam sobre a viabilidade do vírus, que é de duas horas do ar próximo ao portador do vírus. Quanto disso tem impacto? A gente ainda não faz a menor ideia”, explica. Por isso, o ideal é escolher locais de pouca circulação de pessoas.

Já para entrevistas na rua, onde o jornalista não tem como assegurar que entrevistados não são portadores do vírus, o ideal é usar máscara cirúrgica. “Usou, descarta. A duração da máscara é de duas horas, mas você não vai ficar duas horas entrevistando a mesma pessoa; então para cada entrevistado, uma máscara diferente”, diz Dr. Suleiman.

O infectologista conta que nos anos 1990 quando estourou os casos de HIV no Brasil, as equipes de televisão eram enormes, com quatro, cinco pessoas. Hoje ele considera que as equipes reduzidas de no máximo duas pessoais são ideais para a cobertura de epidemias, o que reduz a probabilidade de infecção generalizada.

Para o equipamento, é orientado que os repórteres utilizem dois microfones, um para si e outro para o entrevistado, e façam a limpeza com álcool de todo o equipamento. Para equipe de rua, a TV Globo distribuiu um kit de álcool em gel e Lysoform para desinfetar os equipamentos.

“Não entrevistamos pessoas com sintomas e procuramos manter distância segura dos entrevistados. Além disso, estimulamos o envio de vídeos feitos pelo público em hospitais, com a devida checagem dos jornalistas”, informou o canal através de e-mail.

Na última semana, o Ministério da Saúde estipulou que as entrevistas coletivas diárias com as autoridades serão através de videoconferência. Ainda assim, o presidente Bolsonaro continua minimizando os riscos da pandemia e marcou entrevistas presenciais.

[Leia mais: Todo mundo é repórter de saúde agora: Cobrindo COVID-19 em outras editorias]

Dicas para jornalistas se protegerem do novo coronavírus:

  • Trabalhe de casa se puder
  • Em redações, higienize a mesa de trabalho todos os dias com álcool líquido 70%
  • Lave as mãos regularmente por no mínimo 20 segundos
  • Realize entrevistas presencialmente somente se necessário
  • Mantenha distância de no mínimo 1 metro com as pessoas
  • Utilize dois microfones e higienize-os com álcool e toalha descartável
  • Higienize todo o equipamento com álcool 
  • Mantenha equipes de duas pessoas no máximo nas entrevistas
  • Opte por locais com pouca circulação de pessoas
  • Use máscara cirúrgica se for entrevistar pessoas aleatórias nas ruas; descarte a máscara depois.

Imagem sob licença CC no Flickr via Governo do Estado de São Paulo: Coletiva de imprensa sobre coronavírus no dia 27 de fevereiro.