Design e jornalismo de dados: uma combinação poderosa

porMarianne Bouchart
Feb 4, 2020 em Jornalismo de dados
Darren Long, SCMP

A comunidade de jornalismo de dados está crescendo rapidamente na Ásia. Talvez você conheça os projetos atraentes das equipes de design do Caixin (China), Readr (Taiwan), Rappler (Filipinas), Malaysiakini (Malásia), ou Apple Daily (Taiwan). Para este artigo, decidimos examinar mais de perto um dos maiores nomes da região:  o South China Morning Post.

Australian fires
"Incêndios na Austrália: Entendendo a intensidade e o impacto global" do SCMP

 

Eles vêm fazendo um trabalho incrível nos últimos anos, o que os levou a mais de 100 prêmios internacionais em quatro continentes.

Darren Long lidera a transição da equipe de design gráfico do SCMP do impresso para o digital desde 2014. Este ano, ele se junta a mais de 20 especialistas internacionais como membro do júri do Sigma Awards, uma nova competição de jornalismo de dados patrocinada pela Google News Initiative e organizada pelo DataJournalism.com do European Journalism Centre.

Nesta entrevista, conversamos sobre o estado do jornalismo de dados na Ásia, a relação entre gráficos e dados e o que os jornalistas de dados podem aprender com a equipe de design do SCMP.

Você tem experiência em design, mas muitos de seus projetos no SCMP envolvem dados e informações. Como você entrou no jornalismo de dados? Quais foram alguns dos desafios que você enfrentou nessa transição e como os superou?

Darren Long: Acredito que uma perspectiva externa me ajudou no meu papel. Comecei minha carreira há quase três décadas como ilustrador, mas me dediquei à direção de arte para unir o que eu vi que era uma desconexão entre a palavra e o visual. Meu maior desafio quando me tornei gerente de gráficos do SCMP, cinco anos atrás, foi fazer a mudança do impresso para o digital. Embora o impresso seja meu primeiro amor, recebo todas as minhas notícias por telefone e percebi que precisávamos dar aos leitores a chance de apreciar nosso trabalho em seus telefones. Isso significou uma mudança sísmica na maneira como trabalhamos, não apenas tecnicamente, mas também esteticamente, para garantir que nosso trabalho tenha tanto poder visual em uma minúscula tela do iPhone quanto em uma página grande de jornal.

Foi um trabalho contínuo. Nos primeiros dias dessa transição digital, criamos gráficos que eram essencialmente uma questão de colocar online nosso trabalho pesado de pesquisa. Um exemplo foi o nosso estudo dos investimentos no exterior da China, onde mostramos todas as fusões e aquisições no exterior com um valor acima de US$100 milhões feitos entre 2005 e 2015.

Esses tipos de gráficos eram legais, mas não eram bons o suficiente para o telefone.

Adicionamos novos talentos e a equipe trabalhou em conjunto para aprender a programar. Começamos a pensar em como poderíamos fazer com que nossas histórias visuais evoluíssem com o tempo, em vez de telegrafar a ideia para os leitores com uma única imagem. Os avanços ocorreram como nos artigos Relâmpago em Hong Kong e os Cinco principais projetos da Iniciativa Belt and Road, quando percebemos que a rolagem online significava mais espaço para desenvolver uma narrativa.

Como você definiria o estado do jornalismo de dados na Ásia hoje? Como é diferente de outras regiões como a América do Norte e Europa?

A liberdade de imprensa é um problema na Ásia. Lembra dos jornalistas da Reuters presos em Mianmar? E Maria Ressa, do Rappler, que o presidente das Filipinas está usando como pretexto de evasão fiscal para perseguir? As visualizações de dados asiáticas tendem a evitar questões delicadas e têm menos a ver com o trabalho dos governos do que no Ocidente.

Os dados são o nosso maior desafio.

Mesmo com todas as liberdades que lutamos para manter em Hong Kong, ainda é difícil obter dados confiáveis ​​sobre a China. A Cingapura, apesar de toda a sua censura à imprensa, produz ótimas coisas. O Straits Times, por exemplo, produz matérias interativas de qualidade, como este guia infográfico sobre uma névoa de fumaça que assola o país.

Existem outras ótimas visualizações saindo da Ásia. Na Coreia do Sul, Sung Hwan Jang tem alguns infográficos impressionantes em seu site 203 × e meus amigos do Kompas, um jornal da Indonésia, estão fazendo um ótimo trabalho. Adoro o artigo Rentetan Senja Mencekam di Gelora e matérias culturais, como Makam Unik Orang Toraja — Tutur Visual, e o interativo Kupu-kupu Bantimurung — Tutur Visual, que convida o leitor a encontrar cinco borboletas raras.

Mesmo na China, onde a internet é muito censurada, algumas matérias encantadoras estão sendo desenvolvidas, como esta do Caixin e esta do The Paper. O Sixth Tone também está provando ser inovador com matérias como a Linha Hu: Viagem pelo coração da China.

Os projetos orientados a dados produzidos pelo SCMP são muito diferentes de outras publicações conhecidas pelo jornalismo de dados, porque sua equipe faz um grande esforço nos recursos visuais e nos designs. Como você vê a relação entre gráficos e dados? Você acha que os gráficos vêm antes dos dados/informações?

Acredito que os dados são os primeiros e o visual é informado pelos dados. O mesmo acontece com o design da página: você não seleciona fotos e coloca uma página sem ler a história.

Talvez o aspecto visual de nossas histórias às vezes seja tão impressionante, como na "Rede de satélites" (foto acima), que as pessoas não percebem que o visual foi criado com os dados.

Inclusive a matéria sobre como a reforma e abertura da China transformou famílias pobres em compradores da classe média foi baseada no estudo dos dados antes de criarmos o conceito.

Nossa equipe de gráficos veio principalmente do impresso, o que significa que a interpretação dos dados não é natural para todos nós. Usamos isso para nosso proveito, porque precisamos pensar visualmente para entender as informações antes de transmiti-las aos leitores.

2017: recorde em segurança no céu é um ótimo exemplo. Adolfo Arranz se inspirou quando ouviu a notícia. Ele imediatamente quis mostrar que muitos voos haviam decolado e poucos haviam se acidentado. O conceito chegou a ele em um momento "eureka", mas levou alguns dias para trabalhar como comunicá-lo.

Você pode falar sobre o fluxo de trabalho e cronogramas típicos para produzir um projeto de jornalismo de dados no SCMP? Qual é o tamanho da sua equipe e como ela colabora com outras editorias?

Tudo o que fazemos começa com a pesquisa e um lápis e papel para esboçar ideias. Tudo tem a ver com as ideias. A equipe gráfica é composta por 11 pessoas, de oito nacionalidades diferentes e origens variadas (artes plásticas, design, jornalismo, computação). Cinco designers se concentram em vários gráficos simultaneamente, enquanto outros cinco trabalham em notícias diárias e ilustrações de editoriais de opinião. Temos um engenheiro que ajuda a todos nós. Meu papel é como o maestro de uma orquestra. Parece gracioso quando tudo está afinado, mas se um instrumento sai do ritmo, a responsabilidade é minha.

"Do Occupy 2014 aos protestos de 2019" do SCMP

 

A maioria de nossos infográficos vem de iniciativa própria, mas também colaboramos com outras editorias, especialmente se a matéria precisa de reportagens especializadas. Por exemplo, com os recentes gráficos de protesto, Pablo Robles concebeu 100 dias de protestos no rock de Hong Kong como uma maneira de mostrar os níveis de violência que afetam Hong Kong. Pesquisa, reportagem, texto, edição, gráficos, animações de vídeos etc. foram todos feitos pela equipe de gráficos. Já o texto de Do Occupy 2014 aos protestos 2019 (imagem acima) foi fornecido por um repórter da equipe enquanto criamos o visual e a linha do tempo conceitual.

A série de histórias visuais MIC2025 do ano passado foi desafiadora, pois envolvia diferentes partes do artigo. A parte mais difícil de trabalhar com outras equipes é que elas tendem a procurar dados para apoiar uma noção preconcebida, enquanto que queremos explorar os dados primeiro, depois visualizá-los antes de encontrar uma história e queremos deixar os leitores livres para tirar suas próprias conclusões.

"Vírus Wuhan: um explicador visual" do SCMP

 

As ideias vêm em primeiro lugar e a tecnologia existe para facilitar a comunicação da ideia, então os tempos de produção variem amplamente. O vírus Wuhan: um explicador visual (imagem acima) foi montado em questão de horas, enquanto a história da série Cidade Proibida levou quase dois anos. Mas esse foi um caso extremo que envolveu viajar para Pequim e Taipei.

Normalmente, uma visualização de dados como As principais cidades mais competitivas que estão mudando o mundo leva cerca de uma semana.

Como outros jornalistas de dados podem aprender com você e sua equipe no SCMP?

O importante é se divertir, não é? A matéria de Marcelo Duhalde, em que os leitores podem comparar sua altura com a de líderes mundiais, Eu sou tão alto quanto... sempre me faz sorrir.

Tentamos ser contra-intuitivos e procuramos ângulos incomuns. O artigo de Adolfo mostrou como a China, que não se classificou para a Copa do Mundo (imagem abaixo), acabou sendo a vencedora final no Rio, graças a todos os contratos comerciais que conquistou.

 

"Somos os campeões" do SCMP.

 

China's overseas investments
O projeto "investimentos no exterior da China" do SCMP mostra todas as fusões e aquisições no exterior (excluindo títulos) com um valor acima de US $ 100 milhões que as empresas chinesas realizaram de 2005 a 2015.

O Sigma Awards é um novo prêmio de jornalismo de dados que visa não apenas celebrar o melhor jornalismo de dados do mundo, mas também capacitar, elevar e esclarecer a comunidade global de jornalistas de dados.

Marianne Bouchart é fundadora da HEI-DA e gerente do Sigma Awards

Este artigo foi publicado originalmente por Marianne Bouchart em sua página Medium. Foi republicado na IJNet com permissão.