Desafios para cobertura do extremismo violento

porSherry Ricchiardi
Feb 24, 2019 em Temas especializados
Bring back our girls

Quando o palestrante subiu ao pódio, o tópico da sua apresentação apareceu na tela atrás dele: "Os desafios éticos de reportar sobre extremismo violento".

Em sua palestra, o jornalista nigeriano Abdullahi Tasiu Abubakar referiu-se a sua pesquisa sobre o Boko Haram, uma insurgência mortal em sua terra natal, destacando as complexidades e os riscos da editoria do terrorismo.

“Insurgentes Boko Haram mataram jornalistas e atacaram e bombardearam agências de notícias porque eles consideraram a cobertura desfavorável”, disse Abubakar, um premiado repórter e editor do Daily Trust, um jornal na capital do país, Abuja.

Abubakar ensina jornalismo na Universidade de Londres e trabalhou para a BBC World News como correspondente na Nigéria.

Em seu estudo sobre a cobertura do terrorismo, ele reuniu informações de entrevistas com 32 jornalistas nigerianos e análise de vídeos do Boko Haram e comunicados de imprensa das forças de segurança nigerianas.

Durante sua apresentação em uma conferência de ética da mídia em Doha, no Katar, em janeiro, Abubakar descreveu uma "relação complexa, mas simbiótica, entre a mídia e o extremismo violento".

Terroristas armam a mídia para promover suas causas, enquanto a mídia “se alimenta” das oportunidades de reportar suas atividades, disse Abubakar a uma audiência de jornalistas e educadores de mídia.

Para os meios de comunicação, reportar sobre o terror é uma faca de dois gumes: prejudicando e ajudando as comunidades atormentadas por grupos violentos.

O público tem o direito (e precisa) de saber o que está acontecendo em suas comunidades e como podem se proteger. Jornalistas estão na linha de frente, agindo como vigilantes da sociedade.

No entanto, a cobertura de notícias e as mídias sociais dão aos terroristas exatamente o que eles mais cobiçam: uma plataforma para espalhar propaganda, exaltar sua causa e inflar suas posições. Alguns dizem que os jornalistas são os melhores amigos dos terroristas devido à exposição que eles oferecem.

O Boko Haram ganhou notoriedade com o sequestro e a escravização de 276 meninas nigerianas em abril de 2014. Ao longo dos anos, o grupo gerou terror com decapitações, assassinatos e execuções em massa.

“Eles encenaram esses ataques para atrair a atenção da mídia. É um componente de sua campanha de comunicação estratégica, que eles realizam implacavelmente”, escreveu Abubakar em sua pesquisa. É impossível para a mídia ignorar a carnificina e manter os cidadãos informados ao mesmo tempo.

As ações da Boko Haram têm “consequências negativas intensas e, portanto, são consideradas dignas de notícia. Junto a isso, a esperteza comunicacional dos militantes aumenta a presença do grupo na mídia”, escreveu ele em sua pesquisa.

Abubakar pressiona as organizações de notícias a fornecer treinamento de segurança para suas equipes, a iniciar mudanças nas políticas e melhorar os códigos de ética para abordar a cobertura do terrorismo em seu país.

A IJNet identificou recursos que podem ajudar jornalistas e gerentes de notícias a definir e implementar políticas que andam na linha entre muita cobertura e pouca cobertura.

Esses recursos são gratuitos, fáceis de usar e contêm links para outros relatórios sobre o tópico. São uma leitura crítica para os principais funcionários de redação que trabalham em áreas regularmente afetadas por organizações terroristas e devem ser usados para atualizar códigos de ética para lidar com as exigências especiais de reportagens sobre extremismo violento no país ou no exterior.

Manual da Unesco “Terrorism and the Media é uma cartilha abrangente para jornalistas iniciantes e veteranos, com foco na prática, como evitar glorificar terroristas, enquadrar o terrorismo e entrevistar grupos fora da lei como o Boko Haram.

Entre as diretrizes do manual sobre como interagir com grupos terroristas:

  • Não permita que terroristas estabeleçam limites para as perguntas.
  • Explique na matéria por que a entrevista foi solicitada e as condições em que ela ocorreu.
  • Corrija as declarações falsas dos entrevistados. Dê voz às vítimas, autoridades e outros envolvidos, não apenas a terroristas.

O manual também inclui uma lista de recursos e “leituras essenciais” sobre o terrorismo e a mídia..

The Oxygen of Amplification” por Whitney Phillips, professora da Universidade de Syracuse. Whitney entrevistou 50 jornalistas e especialistas em mídia para o relatório, que faz parte da Data & Society Media Manipulation Initiative de 2018. A publicação inclui as melhores práticas para reportar sobre extremistas de vários pontos de vista. Está repleto de exemplos de como a mídia lidou com situações difíceis no passado e faz recomendações para o mundo da mídia atual.

10 tips for journalists covering extremists” por Mark Pitcavage, pesquisador sênior da Liga Anti-Difamação, fornece conselhos para a cobertura do extremismo de direita nos Estados Unidos. Os princípios fundamentais aplicam-se à cobertura do extremismo em qualquer parte do mundo.

Uma das dicas mais notáveis de Pitcavage: Ao buscar fontes, “não se contente com o fácil. O mundo do extremismo é mais vasto do que um punhado de pessoas com contas proeminentes no Twitter”.

Global Terrorism Index 2018: Measuring the impact of terrorism, publicado anualmente pelo Instituto de Economia e Paz, oferece uma perspectiva ampla e excelente informação de base. O site inclui um mapa do índice de terror, uma seção sobre tendências terroristas globais e regionais e informações sobre a paisagem do terrorismo em mudança. É um balcão único para os repórteres em busca de uma rápida visão geral do mundo do terrorismo.


Sherry Ricchiardi participou da conferência de Doha e moderou um painel com Abubakar.

Imagem sob licença CC no Flickr via Tim Green