De estudante de literatura a correspondente da CNN: As memórias de Clarissa Ward

por Katya Podkovyroff Lewis
Jan 20, 2021 em Segurança do jornalista
Imagem de Clarissa Ward com uma identificação de imprensa

A correspondente internacional da CNN, Clarissa Ward, estudava literatura comparada na Universidade de Yale em 11 de setembro de 2001, quando as torres gêmeas do World Trade Center foram atacadas na cidade de Nova York. Ela começou a querer se envolver mais nos assuntos mundiais, o que a levou a seguir a carreira de jornalista.

“Eu me senti envergonhada por não estar mais ciente do que estava acontecendo no mundo — por não estar mais envolvida com as notícias do mundo”, disse Ward.

Pouco depois do 11 de setembro, ela aceitou seu primeiro trabalho de jornalismo como estagiária não remunerada da CNN em Moscou. Isso a levou a um emprego noturno de assistente na Fox News em Nova York. Dezenove anos depois, Ward viajou para vários continentes, cobriu editorias diferentes e entrevistou pessoas de todas as esferas da vida. Ela fez reportagens em Bagdá, Pequim, Beirute, Moscou, Nova York e Londres, trabalhando para a Fox, ABC, CBS e CNN.

“Fiquei consumida pela ideia de que queria tentar agir como uma comunicadora entre mundos”, disse ela. “Também pensei que talvez pudesse agir como uma espécie de tradutora também, porque senti que de alguma forma a falta de comunicação, a desumanização e a falta de engajamento eram parte do problema.”

Em abril passado, Ward publicou seu livro de memórias, "On All Fronts", que faz uma retrospectiva de uma carreira cobrindo desastres naturais, guerra e conflito. Ela começou a escrever o livro enquanto estava grávida de seu primeiro filho em 2018. O que começou como uma carta para seu filho ainda não nascido se transformou no que Ward chamou de uma “carta de amor ao jornalismo”.

“É uma carta de agradecimento a todas as pessoas que conheci ao longo do caminho que me ofereceram uma xícara de chá ou uma visão profunda”, disse ela. “Há tantos pequenos atos de gentileza que acontecem nos bastidores — atrás das câmeras — que não aparecem no noticiário da noite.”

Ward covering the 2011 Tsunami in Japan
Ward entre destroços do tsunami de 2011 no Japão.

Mergulhando na comunidade

Ward passou grande parte de sua carreira reportando no Oriente Médio pós-11 de setembro. Ela também cobriu o conflito na Síria, o tsunami no Japão e a incursão russa na Geórgia.

Ward se incorporava nas comunidades sobre as quais informava. Ela passou um tempo vivendo com as tropas dos Estados Unidos, o Talibã e famílias locais ao redor do mundo. A imersão total, disse ela, torna a reportagem mais rica.

“É como um curso intensivo”, disse ela. “Especialmente se você estiver caindo de paraquedas por algumas semanas e não tiver o luxo de passar um ano em um lugar. Acho que você terá uma visão muito mais profunda se estiver imerso.”

[Leia mais: 4 livros em português que todo enviado especial precisa ler antes de viajar]

Desafios no campo

Depois do 11 de setembro, o Oriente Médio foi considerado inseguro para jornalistas americanos, especialmente mulheres jornalistas. Ser uma repórter mulher na região, no entanto, pode ser uma vantagem também, disse ela. “Também é incrivelmente valioso [ser mulher] no sentido de que, nas sociedades mais conservadoras, tenho acesso a 50% da população que meus colegas homens não têm.”

Ainda assim, Ward estava reportando de zonas de guerra, na linha de frente do conflito, e havia perigo associado a isso. Em seu livro, ela conta sobre a vez que testemunhou uma multidão furiosa espancando um homem, um incidente que ela decidiu filmar para um de seus segmentos. “Eu queria que o espectador visse a feiura do momento sem nenhum filtro”, escreveu ela.

Ward também foi forçada algumas vezes a decidir se deveria se envolver em situações que pudessem colocar em risco sua autoridade como repórter imparcial. Em alguns casos, pode haver áreas cinzentas significativas, e cada jornalista precisa decidir por si mesmo como abordá-las. “Contanto que estejamos todos baseados em um lugar onde usamos fatos, informações verdadeiras e relatos de testemunhas oculares para agir como a base de nossas reportagens, então tudo bem para nós sermos um pouco subjetivos em termos de denúncias”, ela disse.

Uma vez, por exemplo, quando Ward se infiltrou no Talibã, ela quis entrevistar um comandante talibã. O comandante, porém, se recusou a ser visto com uma mulher na rua. Ward usou a filmagem dessa conversa para a própria história.

Ward reporting in Northern Syria in 2016
Reportagem de Ward no norte da Síria em 2016.

Jornalismo e saúde mental

Em suas memórias, Ward também reflete sobre o impacto de suas reportagens em sua saúde mental. Ela bebia ocasionalmente após uma noite de trabalho árdua e às vezes fumava cigarros para lidar com isso, apesar de não ser fumante. “Se você está passando anos em situações violentas na linha de frente, vendo pessoas sendo mortas, temendo por sua própria vida, sendo cercado por pessoas em meio à dor e trauma, e você não é afetado por isso emocionalmente — você provavelmente é um sociopata”, disse Ward. “Provavelmente, se você fizer este trabalho, será afetado. Tem um custo, e isso é completamente normal.”

O conselho de Ward para a saúde mental de jornalistas é multifacetado.

Em primeiro lugar, tenha um terapeuta com quem conversar durante ou após uma tarefa estressante, disse ela. Ou, pelo menos, fale com alguém em quem você pode confiar. É importante ter um grupo de amigos ou rede de apoio com quem você possa voltar à vida "normal", mas com quem você ainda possa ser honesto sobre suas experiências no campo.

“Acho que a parte mais difícil desse trabalho não é necessariamente o que você vê no campo, mas depois voltar à vida normal e esperar que se reintegre imediatamente e saia para jantar e beber vinho e rir”, disse Ward. “E você tem que ser capaz de fazer isso, viver plenamente e estar presente em ambas as partes da sua vida, mas isso leva tempo e requer prática, e devemos ser capazes de ter uma conversa mais honesta sobre isso.”

Ward reconhece o estigma em torno dos problemas de saúde mental e abuso de substâncias que existem no jornalismo. A melhor maneira de abordar esse problema é enfrentá-lo, permitindo mais espaço para conversas tanto nas redações quanto nas relações interpessoais de jornalista a jornalista, disse ela.

[Leia mais: Como lidar com coberturas angustiantes e traumáticas]

Criando uma família

Após quase uma década de relacionamento à distância, Ward se casou com o amor de sua vida em 2016 e, sete meses depois, engravidou de seu primeiro filho. Esses acontecimentos importantes marcaram uma mudança na forma como ela abordava sua carreira.

Ward's wedding to husband Phillip

Por muitos anos, Ward foi a primeiro a assumir uma missão em zonas de guerra perigosas ou áreas de desastre. Agora, ela tem que pensar um pouco mais na segurança dela e de seus filhos. Ela também percebeu que fica mais afetada pelo que testemunha enquanto trabalha. “Percebi quando estava em campo que estava muito mais emocionalmente vulnerável do que antes. Fico muito emocionada, principalmente com a situação difícil das mães e o sofrimento das crianças”, disse Ward. “Obviamente, qualquer ser humano normal se sente movido por essas coisas, mas agora chegou ao ponto em que é quase insuportável ver algumas dessas coisas.”

Enquanto a CNN a deixava optar sobre como trabalhar durante a gravidez, Ward finalmente decidiu ir para casa. Ela estava cobrindo o conflito no Iêmen e tinha passado por várias crises de ansiedade, temendo que seu bebê não chutasse tanto quanto antes. Ainda assim, tornar-se mãe não mudou a opinião de Ward sobre viajar a lugares perigosos para cobrir uma história

Seu primeiro filho, Ezra, nasceu em março de 2018 e seu segundo filho, Caspar, em junho de 2020. Durante sua segunda gravidez, Ward teve que trabalhar durante uma pandemia global. Como muitos repórteres, isso significava que ela precisava aprender a fazer reportagens em casa.

“É a primeira guerra que preciso reportar da minha sala de estar”, disse ela. “É como o nível de interrupção do 11 de setembro e, da mesma forma que depois do 11 de setembro, não entendemos totalmente as implicações e ramificações de tudo o que estava acontecendo”, disse Ward.

Desde o início da pandemia, ela contribuiu para a cobertura das notícias de última hora da CNN sobre a COVID-19 e as tensões entre os Estados Unidos e o Irã. Ela e sua equipe também concluíram recentemente uma investigação sobre o envenenamento do líder da oposição russa Alexey Navalny, encontrando e confrontando os agentes russos que dizem ter cometido o crime.

O futuro do jornalismo

Vamos precisar de jornalistas altamente comprometidos para continuar contando histórias e ignorar os barullhos e os ataques que sofrem, disse Ward.

Para os jovens jornalistas, em particular durante a COVID-19, Ward sugeriu que aproveitassem o tempo extra que podem ter em mãos agora: “Use o tempo para aprimorar tudo que puder, seja a tecnologia, aprender a filmar, aprender edição básica, escrever o máximo possível ou assistir a velhas histórias e documentários. Faça o que puder para melhorar seu conjunto de habilidades.”

Enquanto Ward incentiva qualquer pessoa a seguir uma carreira no jornalismo, ela disse que também é preciso paixão para ter sucesso.

“É um trabalho difícil em muitos níveis — logisticamente, emocionalmente, pessoalmente — há muito sacrifício envolvido. Exige muito”, disse ela. “Mas se você estiver disposto a fazer isso e se estiver curioso sobre o mundo... eu diria que é o melhor trabalho do mundo.”


Em 2016, Ward recebeu o Prêmio de Excelência em Reportagem Internacional do Centro Innternacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês), que publica a IJNet. 

Todas as imagens cortesia de Clarissa Ward.

Katya Podkovyroff Lewis é uma jornalista a freelance com base em Salt Lake City, Utah.