Conselhos para jornalistas que trabalham com imagens traumáticas

porClothilde Goujard
Apr 12, 2017 em Segurança do jornalista

Imagens traumáticas sempre fizeram parte do jornalismo, mas no ciclo de notícias de 24 horas, as pessoas que trabalham nos meios de comunicação estão expostas a notícias negativas como nunca antes.

Gavin Rees do Dart Centre Europe, uma iniciativa dedicada a melhorar a cobertura mediática de traumas, disse que viu de primeira mão como os jornalistas estão cada vez mais expostos a imagens fortes.

"Até certo ponto, isso já aconteceu antes: algumas imagens bastante horríveis circularam durante a primeira guerra no Iraque e o genocídio em Ruanda", disse ele à IJNet. "O que é diferente [agora] é a intensidade do material: é filmado em alta definição, é gerado pelo usuário e vem para o jornalista."

Os jornalistas anteriormente podiam escolher se queriam ir para zonas de conflito, mas agora eles têm menos controle sobre quais imagens são expostas a eles.

"Era mais fácil dizer que você não ia lidar com certos tipos de exposição, que você queria evitar expor-se a material traumático, escolhendo diferentes tipos de trabalhos", disse Rees. "Mas agora o material está chegando à redação de uma forma que não foi vista antes."

Muitas faculdades de jornalismo ainda não ensinam aos alunos sobre como a cobertura de trauma pode impactar tanto os leitores quanto os próprios repórteres. No entanto, Reese disse que as redações estão ficando melhores em lidar com imagens traumáticas e suas consequências para sua equipe.

"As pessoas estão ficando mais conscientes", disse ele. "Nós tendemos a lidar com o dano depois que os problemas se desenvolveram ao invés de antes, e isso é complicado quando se trata de pessoas com problemas de trauma, porque ainda é fortemente estigmatizado e as pessoas não gostam de admitir a fraqueza.

Estudos mostram que os jornalistas tendem a ser mais resistentes do que a população em geral, pois tendem a ter um sentido de missão e acreditam que seu trabalho é significativo, o que ajuda a protegê-los durante situações estressantes, disse Rees.

No entanto, os jornalistas não são completamente imunes a sofrer os efeitos adversos da exposição constante a imagens traumáticas. Uma preocupação é que os jornalistas que desenvolvem TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático) costumam demorar a comunicar seus sintomas, disse Rees.

É por isso que ler as diretrizes produzidas pelo Centro Dart para Jornalismo e Trauma -- e obter uma melhor compreensão sobre como a mente e o corpo reagem a estímulos traumáticos -- podem ajudar um jornalista a reconhecer se seus sintomas são o início de TEPT. A exposição a imagens traumáticas tende a fazer com que as pessoas se sintam emocionais e entorpecidas, mas essas emoções não são necessariamente anormais. Um sinal de que uma jornalista está começando a sofrer TEPT é se começa a desconfiar de seus colegas de trabalho, Rees disse.

"Seu cérebro está respondendo às situações muito violentas na frente deles. Se você perde essa sensação de segurança em um domínio, durante o tempo que está olhando para essas imagens, é mais provável que se sinta inseguro sobre outras coisas também, como se pode confiar em colegas ou na direção", disse ele.

Também é importante que os direitores estejam conscientes dessas questões para que sua equipe se sinta mais segura.

"Os melhores editores que encontramos lidam com o exemplo", disse Rees. "Eles estão abertos para as questões e não têm medo de reconhecer suas próprias reações quando se deparam com material intenso."

As práticas da mídia estão evoluindo para proteger melhor os jornalistas e o público de imagens traumáticas. O desenvolvimento de inovações tecnológicas -- que poderiam automaticamente sinalizar imagens traumáticas -- poderia ajudar a proteger ainda mais os espectadores, alertando-os.

No entanto, Rees acha que muitas redações ainda precisam trabalhar com o equilíbrio de seu dever de informar o público e ao mesmo tempo proteger as pessoas (e eles mesmos) de trauma.

"Há momentos em que as pessoas devem ver o que realmente está acontecendo no mundo lá fora e isso pode significar mostrar imagens que são perturbadoras e angustiantes", disse ele.

Imagem sob licença sob CC no Flickr via Kimli