Como um projeto de jornalismo investigativo transformou uma redação

porSherry Ricchiardi
Dec 17, 2017 em Jornalismo digital

Em setembro uma reportagem investigativa sacudiu os corredores das universidades na Indonésia.

Repórteres expuseram uma fraude de doutorados falsos em 12 universidades, resultando na intervenção do governo e remoção dos perpetradores. A reportagem sobre a falsificação de doutorados foi mais do que um furo jornalístico. Para o Tempo Media Group, o projeto serviu como modelo para o futuro.

Em junho, Antoine Laurent, um estrategista de inovação e ex-jornalista de Paris, iniciou uma bolsa apoiada pelo Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ) e o Google News Lab para ajudar empresas de notícias indonésias como o Tempo a aproveitar as novas formas de contar histórias usando as mais modernas ferramentas digitais. Um de seus primeiros projetos com o Tempo foi desenvolver visuais interativos para a investigagação sobre os doutorados, um protótipo para o novo jornalismo multiplataforma do Tempo.

Tradicionalmente, a unidade investigativa era exclusivamente orientada para o produto impresso, prestando pouca atenção à infografia interativa do Tempo.co, um dos principais sites de notícias da Indonésia.

O projeto mudou tudo isso. Produziu uma lista de marcos impressionantes para o Tempo. Entre eles:

  • Pela primeira vez, as equipes de investigação e infografia trabalharam juntas desde o início para planejar uma versão digital e impressa de uma matéria. Durante o processo, jornalistas da imprensa aprenderam a usar ferramentas interativas.

  • Até setembro, o Tempo nunca havia produzido um grande projeto de investigação com elementos interativos. Anteriormente, apenas o texto e as fotos das matérias impressas eram postadas no site e um PDF era colocado para assinantes.  

  • Normalmente, as investigações eram publicadas primeiro na revista semanal e depois de alguns dias ou uma semana postadas no Tempo.co. Laurent sugeriu que a matéria sobre os doutorados fosse publicada simultaneamente no impresso e online.

Os resultados foram surpreendentes. A matéria atraiu milhares de comentários de leitores e compartilhamento nas mídias sociais. "Gerou uma das maiores visualizações de página na história do Tempo", disse Laurent.

Os repórteres do Tempo foram convidados a aparecer na televisão e no rádio para discutir diplomas "drive-thru", incluindo dissertações plagiadas e assinaturas falsas nos registros de presença.

Também houve impacto nos corredores do poder. O Ministério da Pesquisa, Tecnologia e Ensino Superior lançou uma investigação e suspendeu um reitor na Universidade Estadual de Jacarta que seria supostamente um líder.

Abraçando o digital

Como tantas empresas de notícias em todo o mundo, o Tempo está sofrendo com o declínio constante na receita de publicidade e circulação de seus produtos impressos. Para os líderes do Tempo, abraçar o digital é uma questão de sobrevivência.

Ao mesmo tempo, os indonésios estão mudando para a mídia digital, especialmente a população mais nova. Alcançar esse mercado crescente tornou-se uma prioridade para a empresa baseada em Jacarta.

"Se não possuímos uma presença digital sofisticada, seremos deixados para trás e perderemos neste novo cenário", disse Wahyu Dhyatmika, editor-chefe do Tempo.co e força motriz por trás da transição.

Ele enfatiza que os principais valores jornalísticos do Tempo permanecem intactos, mas todo o resto está sujeito a mudanças à medida que a empresa se transforma em uma operação digital sob a direção de Laurent.

Para a reportagem sobre os doutorados, Laurent juntou-se à gerente de projeto digital Sadika Hamid  para criar mapas e gráficos para o produto impresso e o site.

Eles utilizaram o software Infogram e o Piktochart, porque ambos poderiam fornecer resultados confiáveis com menos tempo gasto ao seu aprendizado, importante para a equipe com habilidades técnicas baixas. Um plugin, criado com a orientação de Laurent, permitiu ao leitor visualizar os numerosos exemplos de violações das universidades.

Para projetos futuros, facilitar o processo de incorporação de gráficos e visuais será uma prioridade, disse Hamid.

Um “facelift” para a redação

O Tempo também está priorizando seu regime de treinamento de redação. Nos próximos meses, a equipe aprenderá sobre ferramentas de visualização de dados, multimídia e engajamento de usuários. Uma equipe de transformação digital está sendo formada para ajudar a direcionar os próximos passos no processo evolutivo.

Dhyatmika credita Laurent com a ajuda na transição da redação quando ele chegou. Em primeiro lugar, o plano era treinar todos os jornalistas e "fazer um 'facelift' na redação", como descreveu Dhyatmika. Laurent, ele disse, recomendou um caminho diferente a seguir "sem balançar o barco com muita força".

Em vez de realizar um treinamento obrigatório, os editores contrataram funcionários, muitos deles repórteres mais jovens, que mostraram interesse em aprender novas habilidades. Eles esperaram que apresentar os benefícios da construção de um ambiente digital atrairia outros para embarcar no projeto.

"Tivemos que mostrar, não apenas dizer", disse Dhyatmika, jornalista investigativo premiado e bolsista Nieman da Harvard em 2015.

Muitos jornalistas ainda não estão convencidos, "mas convencemos as pessoas-chave na redação e isso é suficiente por enquanto", disse o editor.

A reorganização continuará em fases, incluindo mudanças nas descrições de cargos, liderança e fluxo de trabalho da redação. Web designers, programadores de notícias e especialistas digitais para dirigir o laboratório de mídia serão contratados para impulsionar a eficácia online do Tempo.

"Espero que a equipe veja que não estamos sacrificando os melhores valores da nossa profissão", disse ele. "Estamos enriquecendo-os, tornando-os mais engajantes e alcançando mais pessoas. Isso é bom para toda a nossa operação."

Antoine Laurent é um bolsista Google do ICFJ com base na Indonésia. Ele tem uma sólida experiência em trazer as últimas inovações digitais para a mídia para aprimorar sua narrativa, distribuição de conteúdo e engajamento do público. É especialista em ferramentas digitais, como Google Fusion Tabelas e Mapas, YouTube Live, Infogram e Datawrapper. Saiba mais sobre a bolsa Google do ICFJ e sua experiência aqui.

Imagem por Fardi Bestari. Da esquerda para a direita: Wahyu Dhyatmika, editor-chefe do Tempo.co; bolsista Google do ICFJ Antoine Laurent; Sadika Hamid, gerente do projeto digital do Tempo.co; e Mustafa Silalahi, jornalista investigativo da revista Tempo