Como um desafio jornalístico ensina empreendedores a refinarem suas ideias

por Jessica Weiss
Nov 13, 2012 em Diversos

Apesar de ser tarde demais para concorrer no primeiro African News Innovation Challenge (Desafio de Inovação Jornalística Africana), inovadores de mídia em qualquer parte do mundo podem aprender muito com o concurso.

Depois de terem reforçado e aperfeiçoado suas propostas durante um intensivo processo de julgamento de quatro meses, 40 finalistas continuam na corrida dos 500 candidatos iniciais. Os vencedores receberão financiamento entre US$12.000 e US$100.000, bem como assistência técnica. O concurso, que tem como objetivo avançar ideias digitais para melhorar a maneira em que notícia é apurada e divulgada na África, é organizado pela African Media Initiative (AMI).

Como a competição se aproxima do fim, a IJNet conversou com Justin Arenstein, um estrategista de mídia que trabalha com a AMI como parte de sua bolsa do Knight International Journalism Fellowship. Arenstein explicou como o concurso estimulou os participantes a refinarem e melhorarem suas ideias e como os projetos podem transformar o engajamento cívico na África.

IJNet: Quem são, em termos gerais, os 40 finalistas?

Justin Arenstein: Os finalistas são cerca de 100 pessoas [com] 40 projetos de mais de 20 países. Os projetos abrangem uma ampla gama de ideias, tecnologias e geografias. Temos projetos que fazem de tudo, desde tentar fortalecer a profundidade e a qualidade das reportagens a projetos que tentam dar ao público novas maneiras d detectar e agir contra o jornalismo de má qualidade. Temos também projetos que tentam melhorar os sistemas que as redações usam para produzir notícias, ou que dão a jornalistas novas ferramentas para apurar notícias em lugares perigosos ou difíceis de alcançar, ou que criam novas fontes de receita para os veículos de comunicação. Nós também temos inscrições de organizações cívicas e vigilantes comunitários, que estão propondo ajudar a mídia a abrir os governos e sociedades.

Todos eles oferecem tecnologia ou técnicas reutilizáveis. Isto significa que, se tiverem sucesso, eles não serão os únicos beneficiários; qualquer um será capaz de usar as soluções vencedoras. E todos os nossos finalistas tentam resolver um problema do mundo real enfrentado pelas redações africanas.

IJNet: Como os projetos progrediram em refinar suas ideias ao longo dos últimos meses?

JA: A evolução das ideias é uma das coisas que diferencia este desafio da maioria dos outros concursos jornalísticos. O Desafio tenta fazer com que a mídia use abordagens de iteração rápida para acelerar a experimentação nas redações; portanto, deliberadamente estruturamos o Desafio a encorajar os participantes a testar, rever e fortalecer constantemente suas propostas. O princípio de constante revisão foi construído desde o início. Por exemplo, nós encorajamos as inscrições a recrutarem seguidores e convidarem comentário público ou sugestões sobre suas propostas. Nós também dispensamos o banquete de costume com os vencedores e, em vez disso, reunimos todos os 40 finalistas para um intensivão de quatro dias em outubro, o "TechCamp", quando os finalistas repetidamente trocaram ideias entre si em sessões para defender e aperfeiçoar suas propostas. O processo ajudou a moldar o grupo em uma comunidade de inovadores. Eles também se encontraram com especialistas em tecnologia dos Estados Unidos, América Latina e Europa, [e que passaram um tempo] com mentores empresariais de nível mundial.

Quase todos os finalistas ajustaram levemente suas propostas, sendo que dois projetos fizeram uma reformulação completa, com base no feedback dos colegas. Muitos outros encontraram sinergias entre suas ideias e formaram parcerias ou amizades que irão permanecer. O processo de desenvolvimento intensivo significa que todos saem como vencedor. Mesmo aqueles que não receberão subsídios terão novas habilidades, novas redes e novas parcerias, e, mais ainda, terão propostas sofisticadas que outra organização poderá fundar.

IJNet: O formato "speed geeking" usado no TechCamp foi eficaz?

JA: Sim, eu acho que foi um verdadeiro sucesso. Foi baseado no formato de "speed dating" (encontros rápidos). Na primeira noite, todos prepararam uma explicação de três minutos de seu projeto -- o que é, porque é diferente e por que faria diferença. Então, dividimos o grupo em dois grupos, com os apresentadores em uma mesa separada e todos os outros em pequenos grupos. Os grupos passaram de mesa em mesa para ouvir a proposta de três minutos e depois fazer perguntas por dois minutos até o toque de sino para mudar os grupos para a próxima mesa. As apresentações foram realmente ruins no começo, mas o processo rápido e as questões desafiadoras forçaram os apresentadores a aprimorarem suas ideias muito rapidamente. Na décima vez que apresentaram suas propostas, falaram muito melhor. Assim que o primeiro grupo dominou suas apresentações, trocamos os grupos e a segunda metade teve que apresentar. O resultado foi que todos conheceram os projetos de todos na manhã seguinte -- o que é raro depois de uma reunião comum. Usamos um formato muito semelhante durante todo o TechCamp. Isso significou que a base de tudo foi compartilhar, fazer perguntas e participar um a um com novas ideias. Mesmo as pessoas normalmente tímidas chegaram se engajar.

IJNet: Será que esses projetos têm o potencial para impactar a sociedade africana?

JA: Acreditamos que muitos dos projetos podem ajudar a reformular não apenas a mídia na África, mas também a criar um maior engajamento cívico. Quase metade dos finalistas envolvem tecnologia ou estratégias para melhorar a conexão dos meios de comunicação com a sociedade. Isso inclui verificação de fatos de forma mais eficiente por parte dos veículos de comunicação, formas mais simplificadas para o público moldar o conteúdo [e questões] da mídia, e formas mais seguras para fazer denúncias públicas sem arriscar a segurança do cidadão. Mas talvez o tema mais importante que podemos ver em muitos dos [projetos] é um foco em maneiras práticas para abrir o governo, abrir os meios de comunicação e abrir empresas por meio de ferramentas de transparência de "dados abertos". Isso não é exclusivo à África, mas é ótimo ver que a África está na vanguarda deste movimento "aberto". E, finalmente, a sociedade se beneficia e qualquer coisa que melhora a qualidade de reportagem da mídia e a capacidade dos meios de comunicação responderem às pessoas comuns.

A African Media Initiative (AMI) organiza o concurso com o apoio da Omidyar Network, Google, Fundação Bill e Melinda Gates, Fundação John S. e James L. Knight e outros. A AMI vai anunciar os vencedores no final do mês.

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Foto usada com licença Creative Commons no Flickr via Thomas Hawk.