Como o jornalismo de qualidade pode ajudar populações migrantes durante a pandemia

porAndrés Colmán Gutiérrez
Aug 16, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
cerca de arame

“A pandemia COVID-19 mostra que o jornalismo é mais necessário do que nunca para a população migrante, porque a desinformação pode colocar em risco a saúde e os direitos, mas a informação de qualidade ajuda a salvar vidas. É por isso que o trabalho dos jornalistas é tão importante”, disse Nacho Martín Galán (Espanha), assessor de mídia da Organização Internacional para as Migrações (OIM).

O jornalista e pesquisador acadêmico participou do webinar “Como a COVID-19 afeta a população migrante”, organizado pelo Fórum de Cobertura da Crise Mundial de Saúde em espanhol do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês) e a IJNet. O webinar também teve a participação de Patricia Mercado Sánchez (México), fundadora do Conexión Migrante, e Luz Mely Reyes (Venezuela), cofundadora e diretora do Efecto Cocuyo. O seminário foi moderado por Desirée Esquivel, gerente de comunidade do fórum em espanhol.

Galán afirmou que há 272 milhões de migrantes internacionais no mundo e 740 milhões de migrantes internos. Desde o início da pandemia, 80.884 restrições de mobilidade foram aprovadas em 219 países, afetando principalmente a população migrante.

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“Existem dezenas de milhares de imigrantes bloqueados ou afetados por bloqueios. Muitos foram deixados em situação precária, impossibilitados de realizar atividades de subsistência, com acesso limitado aos serviços básicos e com maior risco de serem vítimas de exploração, tráfico de pessoas ou em situações desesperadores que os forçam a aceitar condições de trabalho que os expõe mais a COVID-19”, afirmou.

Enquanto isso, Reyes destacou a importância de treinar jornalistas para contar histórias sobre migração. “Muitas vezes tratamos esse assunto com os critérios de impacto ou relevância de qualquer nota jornalística, sem perceber que um tratamento inadequado pode afetar comportamentos como xenofobia, discriminação, estigmatização”, disse.

No caso dos venezuelanos, embora as fronteiras estejam fechadas devido à pandemia, muitos migrantes ainda se deslocam do Chile, Peru, Equador ou Colômbia para entrar por estradas não regulares. “Isso os coloca em uma situação de maior vulnerabilidade. Um exemplo foi o caso de venezuelanos que caminhavam do Equador para a Venezuela. Eles foram atropelados por um caminhão, um deles morreu e vários ficaram feridos", contou.

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Mercado Sánchez disse que através do Conexión Migrante busca explicar ao público sobre as condições de vulnerabilidade que latino-americanos vivem nos Estados Unidos, mas também fornecer informações úteis e de qualidade à população migrante para enfrentar a desinformação.

“As histórias que devemos contar devem refletir não apenas a parte dramática da população migrante mais vulnerável mas também o esforço que eles estão fazendo para superar esta situação”, disse ela.

Os painelistas concordaram com a importância de esclarecer as diferenças entre migrante (pessoa que mudou de local de residência habitual, independentemente de seu status legal), refugiado (alguém que teve que deixar seu país devido a perseguição, conflito, violência ou outras circunstâncias) e deslocados internos (pessoa que deve deslocar-se de um local para outro no seu país, devido a diferentes circunstâncias). E recomendaram não utilizar os termos "irregular" ou "ilegal", que têm conotação depreciativa.

Galán compartilhou estas diretrizes para o tratamento jornalístico da questão migratória:

  1. Contribua para não estigmatizar os migrantes. Um bom conteúdo jornalístico ajuda a mudar as percepções negativas dos migrantes e a lutar contra preconceitos e estereótipos.

  2. Bom uso de terminologia. O bom domínio da língua relacionada à migração contribui para se referir com respeito ao migrante e para educar o público.

  3. Informações precisas e contextualizadas. A boa precisão e contextualização das informações contribuem para uma melhor compreensão dos desafios que envolvem a migração, mas também das conquistas e avanços que têm sido alcançados nesta matéria.

  4. Conscientização sobre os direitos dos migrantes. Sensibilizar as comunidades de destino e os próprios migrantes sobre seus direitos contribui para a integração.

  5. Bom equilíbrio de fontes. Fazer um bom equilíbrio de fontes permite que o público tenha diferentes visões da situação e oferece diferentes contextos de diferentes áreas.

  6. Inclua o migrante e sua história. Dar oportunidade aos migrantes de expressarem suas opiniões sobre uma situação específica permite um equilíbrio de fontes e uma abordagem da realidade do migrante.

  7. Identidade dos migrantes violados. Preservar a identidade dos migrantes mais vulneráveis ​​ajuda a prevenir o risco de estigmatização e outros riscos.

  8. Evite suposições em situações de conjuntura. Informações oportunas e verdadeiras sobre uma questão conjuntural específica contribuem para reduzir o risco de alarme tanto para o público quanto para os migrantes.

  9. Tratamento adequado de imagens. O manuseio adequado das imagens e o uso recursivo de fotografias ajudam a mostrar a diversidade de questões relacionadas à migração, bem como a educar para sua contribuição positiva.

  10. Recursos audiovisuais para contar a história. A utilização de conteúdo audiovisual como mapas, infográficos ou animações em vídeo, entre outros recursos, permite que a história seja contada de forma atrativa para que seja lembrada.

Assista ao webinar inteiro aqui (em espanhol):

 


Imagem sob licença Creative Commons em Flickr via Markus Spikse