Como fazer perguntas difíceis sobre COVID-19

porAmanda Menas
May 26, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Cadeira de entrevista

Em parceria com nossa organização-matriz, o Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês), a IJNet está conectando jornalistas com especialistas em saúde e líderes de redação por meio de uma série de seminários online sobre a COVID-19. A série faz parte do Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde do ICFJ.

Este artigo é parte de nossa cobertura online de reportagem sobre COVID-19. Para ver mais recursos, clique aqui.

"Toda entrevista -- seja com uma vítima de COVID-19 ou com o presidente do seu país -- é uma luta pelo controle", disse Julian Sher, veterano redator e diretor de documentários de TV, durante um webinário do ICFJ na terça-feira.

Para manter as entrevistas nos trilhos, segundo ele, os repórteres devem definir uma estratégia antes do tempo e depois se manter firmes em segui-la. “Temos um trabalho desconfortável. Às vezes, temos que forçar os limites e me sinto bem em ser humano em relação a isso”, disse ele.

Ao mesmo tempo, os repórteres devem ter em mente que nenhuma entrevista é perfeita. "Fiz milhares de entrevistas nos últimos 30 anos e, inevitavelmente, a maioria delas não funciona da maneira que eu quero", disse ele. "O objetivo não é fazer uma entrevista perfeita, o objetivo é descobrir como fazer a melhor entrevista possível."

Ele compartilhou exemplos e dicas de como usar entrevistas para obter as respostas que o público precisa e responsabilizar os poderosos.

 

Aqui estão as principais declarações da conversa:

Sobre como se preparar para uma entrevista difícil

Depois de fazer sua pesquisa, escolha uma estratégia para sua entrevista, disse Sher. Primeiro, descubra se será principalmente uma entrevista informativa, emocional ou de responsabilidade. As melhores conversas com fontes têm elementos dos três tipos, disse ele. Pergunte a si mesmo quanto da entrevista deve se concentrar em cada tipo e elabore suas perguntas de acordo.

Quando você falar com a fonte, comece fazendo perguntas para solicitar informações, ele disse. Em seguida, faça perguntas relacionadas à emoção. No final, termine com perguntas sobre responsabilidade.

Ele compartilhou exemplos de cada tipo de pergunta:

  • Informativo: Quando você soube pela primeira vez sobre o surto de COVID?
  • Emocional: O que a morte das enfermeiras que você conhecia tão bem significou para você?
  • Responsabilidade: Quão culpado você se sente por se recusar a fornecer máscaras e outras proteções?

[Leia mais: Estudo destaca papel crítico do jornalismo no combate à desinformação sobre COVID-19]

Como redirecionar uma entrevista

  • Se você começar a perder o controle da fonte, seja firme, disse Sher. Volte o foco para as suas perguntas, talvez usando humor. Se necessário, adote uma abordagem agressiva.

  • Se a resposta da fonte for tão longa que corre o risco de usar o tempo que você precisa para outras perguntas, "acho que você deve interromper, mas pode fazê-lo de maneira educada", disse ele.
  • Não tenha medo de repetir a mesma pergunta, ele disse. "Parece um pouco ridículo, mas se alguém não está respondendo à pergunta, você continua perguntando até que ela responda ou até pelo menos provar ao seu público que [a pessoa] tem medo de responder à pergunta."

Como manter as perguntas simples

  • “Quando um ponto de interrogação sai da sua boca e você ainda está falando, você precisa descobrir: 'Por que eu ainda estou falando?' Isso foi um ponto de interrogação! Pare de falar!" 

Por que não deixar uma fonte atrair você para um debate

  • "Se você entrar em um debate, sempre perderá porque é uma luta injusta. A pessoa que você está entrevistando pode mentir, desviar, inventar coisas. Você não pode", ele disse.

[Leia mais: Como cobrir mudanças climáticas durante uma pandemia]

Sobre como responder quando desafiado

  • Quando a resposta do presidente dos EUA, Donald Trump, à pergunta de Weijia Jiang da CBS News sobre o teste COVID-19 dos EUA foi: "Faça essa pergunta à China", Jiang, que é chinesa-americana, não recuou. Em vez disso, ela perguntou repetidamente por que ele havia dirigido esse conselho especificamente a ela. "Não tenha medo de se defender", disse Sher, compartilhando um clipe da troca como parte da sessão. "Ela se levanta, mas faz uma pergunta jornalística." 

  • Se líderes ou políticos tentam limitar suas perguntas ou impedir que você obtenha informações, ele diz: “Nunca viole a lei. Nunca se arrisque a ir para a cadeia ou ser assediado. Mas você precisa ser corajoso.”

Como encontrar respostas durante uma pandemia

  • "Está ficando cada vez mais claro que os países que colocaram a ciência em primeiro lugar, colocaram os cientistas na frente das conferências de imprensa nacionais, versus os governos ... que pressionaram a política sobre a ciência, que houve consequências mortais", disse ele. Se você está cobrindo esses governos, ele disse, pergunte a eles por quê.

Para mais dicas e guias, visite o site de Sher


Imagem sob licença CC no Unsplash via Daniel McCullough