Como entender e interpretar os números da COVID-19 no Brasil

porFhoutine Marie
Jun 17, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Tela de computador com números da COVID-19

Em parceria com a nossa organização-matriz, o Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês), a IJNet está conectando jornalistas com especialistas em saúde e líderes de redação por meio de uma série de seminários online sobre COVID-19. A série faz parte do Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde do ICFJ.

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A ausência de uma comunicação de risco eficaz, o negacionismo de parte das autoridades públicas e as dificuldades para atingir taxas de isolamento superiores a 50% devem adiar o pico de casos do COVID-19 no Brasil para o final de julho. Esta é a avaliação de Benilton de Sá Carvalho, palestrante do webinar “Como interpretar os números da COVID-19” realizado pelo ICFJ na última terça-feira (16).

Carvalho é doutor em bioestatística pela Universidade Johns Hopkins e professor e pesquisador da Unicamp, onde integra uma força-tarefa da universidade de combate à COVID-19. Segundo ele, a tendência é que o Brasil, hoje atrás apenas dos Estados Unidos, se torne o líder mundial em número de casos e óbitos. 

As evidências mostram que os números da doença continuam em ascensão no Brasil. “Minha honesta expectativa é que [o pico] seja mais pro fim de julho, porque a gente tem agora a temporada de inverno chegando”. Carvalho explica que em anos normais nessa época já costuma ter um período de maior ocorrência de doenças respiratórias que costumam gerar mais demanda da rede pública de saúde. Além disso o movimento de reabertura do comércio deve contribuir para o aumento de casos.

Carvalho lembra que o pico “só é metade da história” e que se o pico fosse hoje, até o fim do ano ainda observaríamos outros 45 mil óbitos.

 

 

Veja a seguir as principais declarações da conversa:

Sobre o pico da doença no Brasil:

- Segundo ele, as predições começaram a ser feitas imaginando que os índices de isolamento social seriam maiores, contudo as medições de deslocamentos mostram índices que não costumam ser muito superiores a 50%. “Há cidades no interior que continuam com a vida social normal porque não houve muitos casos no local, o que produz uma sensação de que a pandemia não faz parte da realidade local. O problema é quando isso começa a evoluir. Esse tipo de comportamento é o que acaba arrastando esse pico muito mais pra frente.”

- “A situação que eu vejo neste momento é que a gente tá num caminhão descendo ladeira, sem freio, com pneu estourado e tentando trocar o pneu à medida que está descendo. Quando isso passar vamos conseguir pensar como seriam as nossas ações quando isso acontecer novamente. A questão é: será algo como COVID-19 ou como o ebola?”, diz sobre o enfrentamento do país à epidemia.

Comparação com outros países

- O pesquisador critica a flexibilização do distanciamento e isolamento social neste momento, pois o potencial de contaminação no país ainda é muito alto. Ele lembra que em Wuhan quando o isolamento começou a ser flexibilizado o número básico de reprodução do vírus estava em 0.3. Ou seja, cada grupo de dez infectados tinha o potencial de infectar outras três pessoas. No Brasil, em regiões como Campinas e São Paulo, o número de reprodução é de 1.4. “Numa estimativa otimista isso quer dizer que para cada grupo de dez pessoas há potencial de contaminação de outras 14.” 

- Carvalho explica que para comparar países ou mesmo regiões diferentes é preciso que se faça uma proporção por milhão ou 100 mil habitantes. Ele cita como exemplo a cidade e o Estado de São Paulo, cujas populações são maiores que muitos países. “O site do Ministério da Saúde diz que o Brasil tem hoje 881 mil casos confirmados. O que a gente precisa pensar a esse respeito? São 800 mil dentro de 212 milhões. A partir daí a gente começa a pensar nessa padronização por milhão para poder comparar com Portugal, com Suécia ou mesmo Argentina.” 

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- As outras coisas que poderiam ser levadas em consideração outras variáveis, como a idade, densidade populacional. “A Suécia é um dos lugares onde a coabitação é muito diferente do Brasil, onde mais da metade da população mora sozinha, enquanto no Brasil a estrutura de habitação vai na direção oposta: o neto mora com a mãe, que mora com a avó... Este tipo de caso precisaria de um modelo estatístico para mensurar essas diferenças.” 

- Quando se trata da comparação entre Brasil e Estados Unidos, ele adverte que é necessário tomar alguns cuidados e lembrar que os tempos epidemiológicos dos países são diferentes. O ideal seria fazer a comparação a partir do momento em que certo país atingiu certo número de casos. “O primeiro caso no Brasil aconteceu lá em fevereiro. Esse primeiro caso foi um caso importado, como os primeiros casos em várias localidades do país. Precisou passar um tempo para a gente ter o que se chama de contaminação sustentada... o vírus circulando por si só dentro daquela comunidade”. Então as melhores estratégias com relação a esse aspecto, na opinião do pesquisador, são comparações que começam a contar os casos após cada um dos lugares ter atingido um número de casos.

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Subnotificação 

- Carvalho afirma que os dados sobre síndrome respiratória aguda grave podem auxiliar a estimar o número de subnotificações. “Em Belo Horizonte o número de casos reportado [de COVID-19] é pequeno, mas quando se faz o levantamento da Síndrome Respiratória Aguda Grave o aumento é bastante significativo e o comportamento de óbitos é semelhante ao da COVID-19.”

- O pesquisador revela que há um estudo coordenado pela Universidade Federal de Pelotas que está fazendo um levantamento de exposição ao vírus em todo país com amostragem. Os resultados mostram que para cada caso reportado deve haver entre sete e dez outros que não foram notificados.


Imagem sob licença CC no Unsplash via Clay Banks