Como dar prioridade à história ao ensinar jornalismo de dados

por Raymond Joseph
Aug 27, 2015 em Jornalismo de dados

 

Jornalismo de dados está na moda entre os jornalistas na África do Sul. Mas, na realidade, é um caso de muita conversa e pouca ação, com poucos jornalistas e redações fazendo algumas coisa de reportagem impulsionada por dados. 

Muitas vezes é porque editores da velha escola que trabalham com recursos muito limitados e um número de funcionários cada vez mehor não entendem o valor e a profundidade que boas matérias de dados poderiam acrescentar à sua reportagem. Eles são relutantes em dar tempo para que os repórteres aprendam essas novas habilidades ou dar espaço para trabalhar em histórias orientadas por dados ou projetos de investigação com um prazo mais longo.

No entanto, isso não é um problema exclusivo da África do Sul. Atualmente, estou trabalhando com uma jornalista talentosa na Costa Rica, que recentemente se formou em uma universidade espanhola renomada com um mestrado em jornalismo de dados. De sua classe de graduação de 13 alunos, ela é a única a trabalhar como jornalista de dados só porque achou um estágio no Code for South Africa (Code4SA) no outro lado do mundo. A maioria de seus colegas graduados encontrou emprego em redações, mas nenhum como jornalistas de dados.

Também na mistura estão veículos de mídia avarentos que ainda se concentram em velhos modelos fracassados de receita para gerar renda e não veem como o jornalismo de dados pode agregar valor no final das contas.

Mas estou convencido de que um dos maiores obstáculos para a integração da perspectiva do jornalismo de dados é os próprios jornalistas. Em vez de aprender novas habilidades que possam ajudá-los à se garantirem para o futuro de suas carreiras, muitos fogem com a menção de jornalismo de dados. Outros o rejeitam como uma fase passageira ou, como mais de um jornalista me falou, eles são relutantes em aprender uma nova habilidade que pode acabar aumentando a sua carga de trabalho.

Muitos também acreditam erroneamente que precisam ser ninjas da tecnologia ou codificadores para ser um jornalista de dados. Eles olham para o jornalismo de dados e visualizações de ponta por mídias como o Guardian e New York Times -- que têm disponíveis pessoas e equipes de dados com as habilidades técnicas avançadas-- e se sentem sobrecarregados até mesmo pela ideia de tentar.

Com demasiada frequência, esta percepção é reforçada pelo treinamento em jornalismo de dados ensinado por não-jornalistas que focam na tecnologia, mas são fracos no ingrediente mais importante: o contar da história. Sei de vários jornalistas locais que frequentaram treinamentos avançados demais para as suas competências básicas ou inexistentes e acabaram perdendo o interesse pelo jornalismo de dados.

Então, quando o Code4SA decidiu oferecer uma Data Journalism Winter School (Escola de Inverno de Jornalismo de Dados) para jornalistas na ativa, nós concordamos em fazer uma engenharia reversa do processo e colocar a história na frente e no centro da nossa formação. É claro que não vamos ignorar outros aspectos importantes e garantir que os participantes atinjam um nível básico de proficiência em dados que inclui a capacidade de recolher, agrupar e verificar os dados. Aqui estão os passos que vamos tomar para fazer isso:

  1. Vamos começar apresentando histórias orientadas a dados que já fizemos - como Living Wage (salário mínimo) e esta feita para o Dia dos Namorados --e, em seguida, voltar para trás, explicando como nós fizemos a matéria, mostrando os conjuntos de dados originais e diferentes ferramentas que usamos. Vamos ensiná-los a encontrar, limpar, filtrar e organizar dados usando ferramentas simples construídas especialmente para os jornalistas, que fazem o trabalho sem ter que entender a tecnologia por trás.
  2. Nós vamos dar a eles os mesmos conjuntos de dados que usamos, mas em "condição suja", crua, e ensiná-los a limpá-los. Neste processo, erros como duplicações e pontuação incorretas são removidas e a ortografia é corrigida para tornar as informações fáceis de organizar em uma planilha.
  3. Finalmente vamos mostrá-los como filtrar e interrogar os dados para procurar histórias e ângulos diferentes. Também vamos ensiná-los a usar ferramentas de visualização simples para dar vida às histórias de vida.

Lidar com editores pré-históricos e contadores de feijão é uma questão que também teremos que enfrentar usando outras estratégias. Isso irá requerer um processo paciente de engajamento e educação para convencê-los dos benefícios e do valor que o conteúdo orientado a dados pode trazer para seus produtos de conteúdo.

Mas, por agora, esperamos que focando na história irá ajudar a tornar o jornalismo de dados menos assustador para os jornalistas. Afinal de contas, trata-se de jornalismo de dados, não jornalismo de dados -- assim, colocar a história em primeiro lugar faz todo o sentido.

Imagem sob licença CC no Flickr via Open Knowledge