Como 5 jornalistas de dados expuseram a corrupção no Congresso do México

porJames Breiner
Nov 26, 2015 em Empreendedorismo de mídia

A verdade dói, especialmente quando a verdade está contida em recibos de bares, hotéis, spas e revendedores de veículos de luxo.

Um grupo de cinco jovens jornalistas mexicanos passou o ano passado examinando milhares de relatórios de despesas de senadores e deputados do México para ver como estavam usando o dinheiro dos contribuintes.

Entre seus furos:

  • Membros do senado compraram 10 motos Harley-Davidson ao custo de 2,12 milhões de pesos mexicanos, ou cerca de US$130.000, para servir melhor os cidadãos mexicanos. 
  • Senadores gastaram 43.800 pesos em 210 garrafas de vinho ou US$2.700 num período de quatro meses.
  • Um senador comprou uma caminhonete Yukon Denali SUV pr 890.000 pesos ou US$60,000, para uso de uma agência obscura cujo objetivo é "fazer estudos para ajudar o Congresso a tomar decisões". O senador recusou-se a responder aos numerosos pedidos de comentário.

Estes jornalistas, liderados por Israel Piña, 33, estavam fazendo o trabalho de investigação em seu tempo livre, por nada. Então, eles ficaram surpresos que suas reportagens atraíram a atenção o suficiente para que um ano atrás, estações de televisão e grandes empresas da mídia impressa -- incluindo o jornal El Universal -- começaram a lhes pagar pelo seu conteúdo.

Eles estavam fornecendo um tipo de jornalismo investigativo que ninguém mais estava fazendo. Normalmente, os repórteres políticos no México gastam o seu tempo cobrindo os pronunciamentos e as acusações da classe política. Trata-se dos bastidores do meio. Eles não fazem muita pesquisa básica utilizando documentos públicos.

Mas os jornalistas do QuienCompro.com (Quem Comprou) se descrevem como uma "plataforma de jornalismo de dados para revelar a utilização de dinheiro no Congresso do México."

Segurança primeiro

No momento, Quien Compro está se movendo para uma nova plataforma e um novo modelo de negócio. De acordo com a organização de defesa do jornalismo Artigo 19, uma série de sites de notícias digitais independentes têm sido alvos de ataques de negação de serviço após a publicação de informações que contestaram a versão do governo do desaparecimento de 43 estudantes universitários.

Então Piña e sua equipe contaram com a ajuda de uma ONG, a Engine Room, para ter seu trabalho hospedado em uma plataforma mais segura. Eles também querem se proteger pessoalmente. No primeiro semestre de 2015, 66 jornalistas sofreram ataques físicos, de acordo com o Artigo 19.

Piña, um nativo de Guadalajara, cobriu polícia e segurança pública há vários anos para o jornal Mural do país. Ele se mudou para a Cidade do México em 2009 para fazer um mestrado em jornalismo e relações públicas no prestigioso Centro para Pesquisa Econômica e Instrução (CIDE, em espanhol).

Ele paga as contas trabalhando como editor do Etcetera, uma publicação online, e também como freelancer. Estes dias a sua renda vem principalmente de cuidar da parte técnica de sites para um número de mídia digital.

Mídia na crise financeira

É bom que Piña tem outros rendimentos, porque a mídia que estava pagando o Quien Compro no início de 2015 na sua maioria parou. Eles estão enfrentando uma crise financeira em duas vertentes. O governo perdeu receitas devido aos baixos preços de petróleo bruto, então há menos publicidade oficial nos meios de comunicação. Além disso, o aumento do poder do dólar tem aumentado os custos para as organizações de mídia.

Quien Compro agora tem apenas um cliente pagante, um grupo nacional de imprensa, televisão, rádio e empresas da Web chamado Capital Media. O acordo prevê um salário para um repórter e abrange algumas despesas de infraestrutura, disse Piña.

Ele e sua equipe estão trabalhando com o Engine Room para desenvolver produtos de Internet que não seriam apenas artigos de texto, mas gráficos e tabelas atualizados em tempo real. Eles também estão tentando criar um sistema em que os membros do público ajudem na transcrição de dados de arquivos PDF de relatórios de despesas para bancos de dados eletrônicos. No momento, esse processo é feito à mão pelos cinco membros da equipe.

Uma audiência pequena mas interessada

Enquanto o tráfego para o site do Quien Compro é baixo pela maioria dos padrões -- cerca de 2.100 visualizações de páginas e 1.500 visitantes únicos por mês -- o tempo médio por visita é de 7 minutos, cerca de duas vezes o que a maioria dos sites de notícias consegue. Seus artigos muitas vezes obtém milhares de "likes" no Facebook, mas nem sempre se convertem em links.

As pessoas estão prestando atenção ao Quien Compro, especialmente no Congresso mexicano. Isto significa que os jornalistas têm sido negados acesso aos documentos com mais frequência do que acontece ao público. A obstrução aumentou após o artigo sobre a caminhonete de luxo. Piña me garantiu que ele e sua equipe não vão ser dissuadidos. Eles estão encontrando um caminho em torno dos obstáculos. Isso é o que os jornalistas fazem.

Este post apareceu originalmente no site News Entrepreneurs de Breiner e é publicado na IJNet com permissão. 

Juan Manuel Casanueva, bolsista do Knight Fellowship do ICFJ, foi consultor do projeto. 

Imagem principal sob licença CC no Flickr via Eneas de Troya