Colaborando para combater desinformação nas eleições da Indonésia

porAstudestra Ajengrastri
May 21, 2019 em Fact-checking e verificação
Colaboração

Combater a desinformação em um momento crucial como uma eleição não é algo que pode ser feito por uma única organização de notícias sozinha. Para isso, foi criado o CekFakta (“verificar fatos” em indonésio), uma coalizão de 24 redações online da Indonésia e ONG, fundada para combater a disseminação de desinformações durante a eleição na terceira maior democracia do mundo.

Como bolsista do TruthBuzz Fellowship do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês) na Indonésia, eu fiz parte da luta desta coalizão contra a desinformação durante a eleição de 2019. Meu papel foi ampliar seus esforços de verificação de fatos e fortalecer sua presença nas mídias sociais.

Durante essa bolsa, inicialmente trabalhei com o Tempo.co e a Tirto.id, cujas redações fazem parte do CekFakta, que foi lançado durante o Trusted Media Summit 2018, realizado em Jacarta em maio passado. Vinte e duas organizações de mídia e a organização sem fins lucrativos Mafindo assinaram um acordo de colaboração.

O editor-chefe do Tempo.co, Wahyu Dhyatmika, me convidou para participar da iniciativa, considerando que a eleição deste ano seria a mais complicada do mundo. A Indonésia tinha 809.500 mesas de votação para eleger mais de 250.000 candidatos para mais de 20.500 vagas legislativas em cinco níveis de governo e um presidente --tudo num único dia. Além disso, o período de campanha começou seis meses antes da eleição, levando a uma investida de desinformação.

 

CekFakta logo

Fact-checking ao vivo dos debates ao dia da eleição

A coalizão criou iniciativas de verificação de fatos ao vivo durante os debates presidenciais. Houve cinco debates entre o presidente em exercício, Joko Widodo, e o adversário, Prabowo Subianto, com seus respectivos companheiros de corrida, Ma'ruf Amin e Sandiaga Uno. No primeiro debate, todas as redações trabalharam separadamente de seu próprio escritório. Percebendo que trabalhar separadamente não era tão eficaz, a coalizão decidiu se reunir em um lugar para fazer a verificação de fatos ao vivo para o segundo debate e cada debate subsequente.

Cerca de três dúzias de jornalistas e verificadores de fatos reuniram-se em uma sala por quase três horas para verificar as alegações dos candidatos em tempo real.

A coalizão também reuniu especialistas de organizações sem fins lucrativos para o debate, cada um especializado em temas como economia, educação, direitos humanos e mais. Os jornalistas puderam consultá-los no local para obter informações sobre os tópicos em debate.

Estas verificações de fatos ao vivo durante os debates foram os primeiros e maiores eventos de fact-checking já feitos na Indonésia.

Ainda não há dados sobre como esse esforço afetou o conhecimento dos eleitores indonésios e diminuiu informações falsas ou enganosas. No entanto, sabemos que o site da coalizão foi hackeado dois dias após o segundo debate presidencial, sinalizando que as pessoas estavam começando a nos reconhecer.

Outro impacto foi quando um dos candidatos, durante uma conversa com uma jornalista envolvida no projeto, disse a ela que era menos provável que ele fizesse alegações falsas porque sabia que os jornalistas os desmascarariam nas mídias sociais.

Métricas e análises online também refletiram seu sucesso. Por exemplo, o engajamento de mídia social disparou durante os debates, e as exibições de página no site foram três a seis vezes maiores durante cada debate presidencial do que em comparação com o número de leitores diários.

A rodada final do evento de checagem de fatos aconteceu de 16 a 17 de abril, encerrando no dia da eleição. A coalizão fez parceria com o Pop-Up Newsroom, um projeto do Meedan e Dig Deeper Media, para usar sua tecnologia de código aberto para uma plataforma automatizada de verificação de mídia social, o Check. O evento de dois dias também recebeu um grupo muito maior, incluindo jornalistas e estudantes universitários de 15 regiões da Indonésia, para identificar e desacreditar a disseminação de informações errôneas nas mídias sociais nas horas críticas da eleição.

Dentro de dois dias, a coalizão desmentiu pelo menos 40 alegações falsas sobre a eleição.

Um projeto ambicioso, com um fluxo de trabalho claro

É natural que as redações se tornem competitivas, fato que faz com que o projeto parecesse ambicioso em primeiro lugar.

No entanto, vendo esforços de colaboração feitos com sucesso em outros países (CrossCheck durante a eleição de 2017 na França e o Comprova durante as eleições do Brasil 2018, entre outros), os membros do CekFakta estavam otimistas de que poderiam alcançar o mesmo sucesso trabalhando juntos na Indonésia.

Os membros colaboradores lançaram um site conjunto, o CekFakta.com, em uma API operada pelo Mafindo, uma ONG indonésia. Todos os membros da redação podem contribuir publicando as verificações no site em um esforço para impedir a disseminação de informações falsas e aumentar a confiança do público na mídia.

Este site também permite que o Mafindo reúna e construa um banco de dados de conteúdos verificados. Este banco de dados é usado para outros projetos relacionados à disseminação de desinformação. Um dos projetos que usam esses dados é o Kalimasada, uma linha direta do WhatsApp operada pelo Mafindo. Quando as pessoas enviam perguntas através da plataforma criptografada sobre uma informação suspeita de ser falsa, um bot rastreará o banco de dados e gerará uma resposta automatizada.

O mesmo banco de dados também está sendo usado como pesquisa para um projeto de educação de mídia social por um consórcio de equipes da Universidade de Notre Dame, IREX, Moonshot CVE e Geopoll. O CekFakta é agora um parceiro colaborador neste projeto.

Para que a coalizão trabalhe a longo prazo --não apenas no período eleitoral de 2019--, os membros do CekFakta desenvolveram um sistema de publicação que ajudará a coalizão sem prejudicar os membros individuais da redação. Em vez de forçar cada redação a priorizar suas verificações para o CekFakta, eles publicam suas verificações de fatos em seus próprios sites primeiro e depois os publicam novamente no site do CekFakta imediatamente depois. Todos os outros membros são encorajados a publicar novamente os artigos em seus sites e canais de mídia social.

O sistema está funcionando bem na Indonésia, onde muitas redações regionais simplesmente não têm recursos suficientes para formar uma equipe de verificação de fatos por conta própria.

Este modelo também pode fornecer inspiração para outros países que enfrentam seus próprios problemas de desinformação. Embora a desinformação provavelmente continue a se espalhar na Indonésia, acreditamos que a única maneira de combater o problema é através da colaboração.


Saiba mais sobre Ajengrastri e a bolsa Truthbuzz no site do ICFJ. Você também pode seguir o seu trabalho e o trabalho de todos bolsistas através da hashtag #Truthbuzz

Crédito da imagem: Ismail Pohan