Cobertura da pandemia em 2021 vai girar em torno da vacina, preveem jornalistas de saúde

porMarina Monzillo
Jan 15, 2021 em Reportagem sobre COVID-19
Chegada de 1,6 milhão de doses de Coronavac no aeroporto internacional de Guarulhos

“Ninguém esperava que a cobertura sobre COVID-19 fosse durar tanto tempo”, começou Fabiana Cambricoli, jornalista do Estado de S. Paulo, no webinar “Perguntas e respostas sobre a cobertura de COVID-19 em 2021”, realizado em 14 de janeiro, pelo Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde

Ela, que é especializada em saúde pública, e Phillippe Watanabe, jornalista da Folha de S.Paulo que também participou do debate online, têm produzido reportagens sobre diversos aspectos da pandemia há quase um ano. “Virou uma missão, porque falta informação de qualidade, então, a gente precisa dar”, afirmou o repórter. Ambos compartilharam os principais desafios para a imprensa em 2020 e os aprendizados que tiraram dessa experiência para 2021.  

 

Veja a seguir os principais pontos da conversa.

Volume de informação e falta de transparência

  • Segundo os repórteres, foram vários os desafios ao longo de 2020. Para começar, o volume de trabalho e a variedade de temas que precisavam cobrir. “Tinha a esfera epidemiológica, a humana, do sistema de saúde, os impactos na economia, na educação, a parte da ciência – nunca teve uma produção tão acelerada de papers científicos…”, listou Cambricoli. Para isso, os veículos de comunicação criaram núcleos de cobertura, com repórteres de outras áreas, porque apenas os das editorias de ciência e saúde não dariam conta. 

  • Outra dificuldade enfrentada foi a falta de acesso a dados completos do Ministério da Saúde. “O Brasil não foi um exemplo de transparência. Isso atrapalhou muito o nosso trabalho”, comentou ela. “Não dá para fazer a cobertura com poucas pessoas e sem se aprofundar no assunto, porque alguns discursos oficiais tentavam enganar o jornalista, com dados pela metade. Se você não tem profundidade, é facilmente enganado.”

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  • Por fim, mas não menos importante, houve a tentativa de sensibilizar as pessoas sobre a gravidade da crise de saúde. “A gente mostra tudo, os hospitais lotados, e vemos uma resposta da população como se a pandemia tivesse acabado”, comentou a jornalista. “Dá tristeza, desânimo e desgosto. Você se pergunta, onde estou errando?”, completou Watanabe. 

  • Para ele, esse é um desafio que continua para 2021, assim como mostrar a maneira que a ciência funciona para uma população mais ampla. “A maioria não está acostumada com a evolução do conhecimento científico, não entende que a gente vai conseguindo mais evidências que acabam apontando para outro caminho, como foi no caso das máscaras”, disse. Passar isso sem parecer político ou uma simples mudança de ideia é complexo, segundo o repórter. “Porque ainda tem os discursos políticos conflituosos, que vão criando ainda mais ruído e confusão.”

  • Eles citaram as fontes mais confiáveis de estudos científicos e explicaram o cuidado que precisam ter com os pré-prints – papers que ainda não tiveram revisão por pares. “Temos sempre que ouvir mais de um pesquisador da área sobre esses materiais, eles ajudam no filtro, porque nem sempre os pré-prints têm qualidade”, contou Watanabe. Também é necessário estar atento às chamadas revistas predatórias, que não têm um corpo de revisão capacitado e cobram para publicar qualquer pesquisa. “É importante ver a instituição que está por trás, se é confiável, se o estudo traz referências bibliográficas.” 

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As pautas de 2021

  • Quando começar a vacinação, vão se abrir novos assuntos para cobertura, como o impacto da campanha de imunização, monitoramento de eventos adversos, as tentativas de furar fila e o mercado paralelo. Os jornalistas lembraram que ainda não se sabe quanto tempo dura a imunidade e eficácia da vacina para novas variantes do coronavírus e isso será acompanhado. “No Brasil, tem a questão extra da adesão à vacinação. Apesar do nosso histórico forte de imunização, infelizmente, vivemos um momento de polarização e descrédito do método científico. As trapalhadas na divulgação de dados das vacinas deixaram uma marca”, comentou Cambricoli. Dentro desse contexto, a imprensa vai precisar analisar os dados dessa adesão por região e ver o impacto disso localmente, cruzando com dados da situação epidemiológica. 

  • Os dois profissionais não enxergam que a desinformação piora com os questionamentos feitos por jornalistas e cientistas nas redes sociais, pelo contrário. “No caso da eficácia da Coronavac, o ruído partiu do Governo do Estado, que fez mil promessas com algo que não tem na mão e soltou dados picados”, disse Watanabe. Cambricoli entende que a repercussão disso nas redes sociais pode gerar confusão para a população, mas disse que nunca vão compactuar com a falta de transparência. 


Marina Monzillo é jornalista freelancer com 20 anos de experiência em diversas áreas, como cultura, turismo, saúde, educação e negócios.

Imagem sob licença CC no Flickr via Governo do Estado de São Paulo