Comunicação e planejamento podem evitar falta de insumos para vacinação de COVID-19, dizem especialistas

porMarina Monzillo
Dec 21, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Mão segurando uma siringa de vacina

Para não faltar, precisa organizar. Esta foi a conclusão de Priscila Miguel, professora e coordenadora de mestrado com ênfase em Supply Chain da FGV EAESP, e Evelin Placido, enfermeira-coordenadora do projeto Xingu da Unifesp e presidente regional de SP da Sociedade Brasileira de Imunizações, durante o webinar “O impacto da escassez de insumos na vacinação contra COVID-19”, realizado pelo Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde, em 17 de dezembro. 

As especialistas listaram os desafios de levar ampolas, seringas e agulhas e outros itens para todos as partes do Brasil, mas também ressaltaram que o país tem capacidade de produzir e distribuir esses insumos para que a tão esperada vacinação aconteça, já que tem conhecimento e experiência com grandes campanhas desse tipo, basta se planejar e se estruturar - o que ainda não aconteceu.  

 

 

Veja a seguir os principais pontos da conversa.

Insumos necessários

  • Placido começou listando quais os itens precisam ser providenciados para a vacinação em massa: além de ampolas, seringas e agulhas, ela citou algodão, equipamento de proteção individual para os profissionais de saúde e a própria estruturação da cadeia de frio, com termômetros e caixas térmicas de qualidade, já que as vacinas precisam ser refrigeradas. No caso da vacina da Pfizer, por exemplo, a temperatura deve ser ao redor de -70oC. "Isso exige um planejamento minucioso para que a vacina consiga alcançar todo mundo. Em muitos casos, ela precisa chegar na casa das pessoas, principalmente nessa primeira fase, que contempla indígenas, ribeirinhos, em áreas remotas”. Ela reforçou que essa organização também tem de levar em consideração o transporte, que pode ser aéreo, fluvial e até a cavalo, moto e bicicleta. 

  • A enfermeira ressaltou que cada fabricante entrega sua vacina com condições particulares de aplicação. Existem ampolas que já vêm com seringa e agulha, outras não, além da milimetragem da agulha, que também pode mudar. “No sistema público, hoje a maioria são frascos multidoses, que não exigem cadeia de frio tão robusta nem muito espaço, porém, pedem mais seringas e agulhas”, contou. Outra coisa a se levar em conta é o preparo de profissionais, já que a nova vacina pode envolver diferentes doses do que estão acostumados a realizar dentro da rotina do serviço. 

Desafios no suprimento 

  • Miguel citou como uma das preocupações esse fato de não se saber exatamente a seringa, a agulha e a ampola que vamos usar, em função da não definição de qual será a vacina que vamos aplicar, “Temos um gargalo de não poder começar a produzir, temos esperar definir.” 

  • Segundo ela, o Brasil tem grandes representantes, uma produção instalada. A grande questão é que não há uma visibilidade do que já existe de material em cada município e estado. “Temos três grandes fabricantes, uma produção relativamente alta, que vai ter de aumentar em função da necessidade e sabemos que a gente consegue atender demanda maior, vimos isso no caso da influenza, mas não temos clareza desses estoques”, disse.  

  • Antes de começar essa produção, há uma necessidade de importação de matéria-prima, como plástico e aço, que demanda também toda uma cadeia e um tempo de preparação para se ter acesso. “Ou seja, temos uma cadeia de suprimentos relativamente longa, dependemos de insumos nacionais e importados para a produção de seringas e agulhas e uma indefinição do que produzir, em um momento em que o mundo inteiro está lidando com essa escassez”, resumiu.

  • Para complicar ainda mais o cenário, produtores de matérias-primas tiveram de diminuir a capacidade instalada por conta da redução de atividades em função da própria pandemia e a taxa do dólar aumentou muito, encarecendo todos os produtos importados. “A logística inteira está mais lenta e mais cara. Quem paga mais leva primeiro. Como será a priorização disso? Um único agente comprando é melhor. Com maior volume e poder de barganha, você ganha prioridade com o fornecedor”, disse. 

Temos experiência, falta coordenação

  • “Falta gestão de demanda e oferta e da distribuição”, acredita Miguel. Para ela, olhar o que está sendo feito no  Reino Unido e nos Estados Unidos, onde a vacinação já começou, é um bom caminho. “Estamos mais perto de saber o que vai acontecer. O que daria para ser feito é um planejamento como um todo, para a gente começar a produzir quando tiver a certeza”, acrescentou.

  • Para as duas especialistas, esse planejamento é urgente e deve incluir a visibilidade do estoque disponível; uma redundância - a compra de vários tipos de insumos, o que exigiria disponibilidade de recursos -; e o compartilhamento de informação e o diálogo com fornecedores, estabelecendo intenções de compra. “O que gente precisa é criar um estoque de segurança, pelo menos de matéria-prima. Ver quais os cenários possíveis, a quantidade que vai precisar”, comentou Miguel. 

  • Placido explicou que existe um sistema que faz monitoramento do estoque nas salas de vacinação, cada município tem o seu controle, mas é preciso direcionar os esforços. E para isso, uma coordenação em esfera federal é fundamental. 

  • A boa notícia é que o Brasil já tem muitas seringas para outras vacinas, muito provavelmente não vai ser preciso criar uma seringa nova. “Temos produtos similares, provavelmente vamos poder trabalhar com estoques que já temos. E temos de correr atrás para planejar melhor daqui pra frente, para não empurrar o problema”, disse ela.

  • Miguel é otimista em relação à expertise brasileira de levar vacina para vários locais. “Se a gente conversar, estruturar e organizar essas informações, vai ser mais fácil. Sabemos fazer a entrega, o Brasil tem uma boa cobertura, tem uma boa distribuição, é mais coordenação agora”, comentou. “Exceto a vacina que exige -70oC, não é nada muito diferente do que a gente faz normalmente, que é lidar com um grande volume em um curto espaço de tempo. Com febre amarela e influenza a gente conseguiu”, completou. 

  • Placido lembrou que a rede está construída, são 38 mil salas de vacinação pelo país e, em situação de campanha, podem chegar a 50 mil. “Mas estamos em um momento delicado, de crise das coberturas vacinais, temos de priorizar a COVID-19, mas temos febre amarela e sarampo que fazem parte do cenário epidemiológico do Brasil, e uma situação em que não podemos fazer a vacinação de COVID-19 junto com outras vacinas concomitantes, existe um planejamento que precisa ser agora para o efeito cascata não acontecer”, alertou. 


Marina Monzillo é jornalista freelancer com 20 anos de experiência em diversas áreas, como cultura, turismo, saúde, educação e negócios.

Imagem sob licença CC no Flickr por Agência Brasília