Biomédica esclarece dúvidas sobre vacina de COVID-19 e enfatiza importância da ciência

porMarina Monzillo
Nov 13, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Papel escrito vacina de covid-19 em maquina de escrever

A biomédica Mellanie Fontes-Dutra fez um alerta a jornalistas cobrindo a pandemia: “Precisamos que as pessoas acreditem na ciência, não só investir em vacinas para apagar incêndios. Quantas respostas rápidas podemos dar para questões não resolvidas se tivermos investimento?”

Fontes-Dutra, doutora em neurociência e divulgadora científica, participou do webinar “A corrida pela vacina contra COVID-19”, realizado pelo Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde em 12 de novembro, para comentar sobre as notícias recentes, como a suspensão temporária dos testes da CoronaVac, devido a um evento adverso grave, e o abate de milhões de visons na Dinamarca, por apresentarem uma variante do coronavírus que estava sendo transmitida para humanos.

Entretanto, o principal recado da especialista durante o evento online foi a necessidade de se vacinar em massa e de ouvir mais os cientistas. “Em 2014, já falávamos em pandemias emergentes de coronavírus. Precisamos construir mecanismos de vigilância de vírus circulantes e discutir nosso comportamento como sociedade e com o meio ambiente. Por que a gente teve essa pandemia agora? A próxima pode vir da Amazônia, por causa do desmatamento, por causa das nossas ações”, disse ela. 

 

 

Veja a seguir os principais pontos da conversa: 

CoronaVac

  • Para Fontes-Dutra, tanto a Anvisa quanto o Instituto Butantan cometeram erros no caso recente de suspensão dos testes da CoronaVac, quando se deu a morte de um dos voluntários por uma causa que não tinha relação com a vacina. “Não foi falta de competência, foi erro de comunicação. Um jogou a peteca para o outro. Comunicados foram divulgados antes do acesso aos documentos oficiais”, analisou ela. 

  • A biomédica lembrou como é necessária a responsabilidade com a informação. “A Anvisa e o Butantan não devem ser desacreditados; muito disso poderia ter sido tratado entre as partes, e a cobertura da imprensa poderia ter sido do que importava, a suspensão. Se parte da população tinha dúvidas de tomar a vacina, agora corremos o risco de ter aumentado a insegurança sobre elas, mas tudo passa pelo mesmo método, pelo mesmo rigor. A CoronaVac será tão segura como qualquer outra coisa aprovada.” 

  • Ela explicou como funciona o processo de desenvolvimento de vacinas e medicamentos. “A equipe de pesquisas precisa prestar esclarecimentos e notificar o andamento. Todo o processo é fiscalizado, a Anvisa recebe documentos, vai lá ver como está. Isso garante segurança e o método científico”. Ela lembrou que na fase 3 de testes, são milhares de voluntários, portanto, é comum aparecerem eventos adversos. “A gente precisa que apareçam, exatamente para ir lá e consertar, exatamente para entender e garantir a segurança”. Com a liberação novamente dos testes, Fontes-Dutra comentou que não há retrocesso nos estudos, eles retornaram do ponto que foram pausados. 

Outras vacinas 

  • Fontes-Dutra detalhou os quatro imunizantes atualmente em testes no Brasil.Como são tecnologias muito diferentes, é difícil falar qual é a melhor ou está mais avançada. Acredito que a melhor é a que protege”. Diante da divulgação de datas tão discrepantes de quando, finalmente, uma vacina chegará à população, a especialista deu seu parecer: “Pensar em segundo semestre de 2021 é muito otimista, considerando a aprovação ainda em 2020”. Ela lembrou que influenciam no prazo o tempo de preparo de produção e distribuição, o tipo de acordo comercial - se é de compra e venda ou aquisição da tecnologia - e ainda a formulação da vacina, se são uma ou duas doses. “Se for a vacina que usa RNA, por exemplo, precisamos estabilizá-la em temperaturas muito baixas, como aquelas de freezer de laboratório. Distribuir isso para todo o Brasil é um desafio. Estão tentando criar alternativas tecnológicas para facilitar essa distribuição”, comentou. 

  • Apesar de todas essas questões, ela disse que é bom lembrar é o Brasil é referência em vacinação. “A gente sabe vacinar a população inteira, a gente sabe distribuir, fazer campanha.”

A importância da cobertura vacinal

  • “Precisamos que muitas pessoas se vacinem, porque é um vírus que se espalha rápido. A pólio, por exemplo, precisa de mais de 90% vacinados para ser controlada. Depois de 30 anos sem circular, voltou quando baixou para 80%, e este ano, os dados que temos apontam para 65,57%. Isso preocupa muito a gente, não adianta essa corrida pela vacina de COVID-19 se as pessoas não se vacinarem”. Fontes-Dutra compartilhou como funciona a evolução dos imunizantes. “A nossa primeira vacina provavelmente não será a melhor, será nossa primeira resposta, para começar a lidar com esse agente infeccioso. A segunda vai ser provavelmente mais eficaz. Já tivemos várias versões de vacinas para influenza, pólio, vamos tornando cada vez melhor”. Ela afirmou que não tem problema tomar mais de uma vacina, respeitando um tempo entre elas.

Mutação de vírus 

  • Mutações são esperadas em casos de vírus ― eles se adaptam aos hospedeiros. Por causa delas que entendemos o pulo de uma espécie para outra. “Quando as pessoas pensam em mutação, pensam só no lado ruim, mas elas podem tornar o vírus menos agressivo. Na influenza acontecem mutações muito rápidas, por isso a necessidade de imunização todo ano. Essa taxa de mutação é mais baixa no coronavírus quando comparada ao influenza, o que é uma boa notícia.”

  • A biomédica contou que existem mutações que não fazem diferença na parte clínica. “Precisa estudar muito bem para ver a extensão dessa consequência. No caso da Dinamarca ―os visons que foram abatidos― uma das mutações encontrada na variante já era conhecida da comunidade científica e não piorou a mortalidade ou gravidade da doença.” 

  • Fontes-Dutra afirmou que não há, até agora, indicativos que as mutações possam comprometer o desenvolvimento das vacinas. “Parece que os imunizantes em desenvolvimento podem abranger variantes do SARS-COV-2. Não tem de se alarmar, mas saber que pode acontecer de ter uma variante que vamos, eventualmente ter de lidar.” 


Marina Monzillo é jornalista freelancer com 20 anos de experiência em diversas áreas, como cultura, turismo, saúde, educação e negócios.

Imagem sob licença CC no Unsplash por Markus Winkler