Cinco dicas de sobrevivência para reportagem sobre religião em ambientes perigosos

porSherry Ricchiardi
Jun 12, 2015 em Temas especializados

No Paquistão, informar sobre questões religiosas é um negócio arriscado. Muitos jornalistas têm que se esconder ou exilar devido a ameaças recebidas por causa de artigos que escreveram ou comentários feitos no ar.

Âncora de TV proeminente e colunista de jornal, Raza Rumi fugiu para os Estados Unidos depois que sobreviveu a uma saraivada de balas que mataram seu motorista e feriram seu guarda-costas em março de 2014 em Lahore.

"Questionar o tratamento dos grupos marginalizados é suficiente para os extremistas rotularem você de apóstata na República Islâmica", diz Rumi, pesquisador do National Endowment for Democracy. Ele ainda escreve sobre questões religiosas para a mídia de casa e continua a receber ameaças, mesmo no exílio.

Ataques violentos contra minorias religiosas no Paquistão aumentaram significativamente no ano passado, de acordo com um relatório da Human Rights Watch (HRW) divulgado em janeiro. O "governo pouco fez em 2014 para parar o número crescente de assassinatos e repressão por grupos extremistas que têm como alvo as minorias religiosas", escreveu Phelim Kine, vice-diretor do -HRW na Ásia.

Jornalistas paquistaneses são vulneráveis ​​em duas frentes. Os fanáticos ameaçam matá-los pela cobertura considerada herética ou desrespeitosa ao Islã. Tribunais os acusam de blasfêmia e ameaçam de prisão.

No ano passado, Shoaib Adil, um editor de revista em Lahore, desapareceu da vida pública após acusações de blasfêmia terem sido apresentadas contra ele. De acordo com um artigo da BBC, Adil era um crítico aberto do militarismo religioso.

Em meados de maio, troquei e-mails com Waqas A. Khan, um repórter paquistanês que conheci no verão passado, quando ele fazia parte de um programa de intercâmbio patrocinado pelo Centro Internacional para Jornalistas. Suas histórias sobre a violência contra os cristãos e minorias muçulmanas têm suscitado ameaças "incontáveis", algumas mais graves do que as outras, diz ele.

Ter um "olho imparcial sobre a religião" é um tabu no Paquistão e pode "custar sua vida", escreveu Khan, chefe da sucursal de dois jornais, The Nation e Daily Observer do Paquistão, em Kasur, um distrito a 42 milhas de Lahore.

Jornalistas paquistaneses não só os únicos a enfrentar esse problema. Brian Pellot, diretor de estratégia global do Religion News Service, observa que, "47 por cento dos países têm leis que penalizam a blasfêmia, apostasia e/ou difamação da religião. Em muitos destes países, blogueiros e jornalistas são censurados, presos ou assassinados por reportar meramente os fatos de uma história em desenvolvimento."

Os jornalistas têm que cobrir religião, mesmo quando é arriscado, para responsabilizar as autoridades e distinguir rumores perigosos da realidade, diz Pellot. "Sem jornalistas profissionais separando o fato da ficção, os usuários da mídia social e blogueiros irresponsáveis muitas vezes ​​atiçam as chamas do conflito", ele escreveu em um e-mail.

Ele oferece as seguintes cinco dicas de sobrevivência para reportagem sobre religião em ambientes perigosos:

Conheça as linhas vermelhas

Para ir além dos limites, você primeiro precisa entendê-los. A liberdade de expressão é flagrantemente desvalorizada em muitos países. Dê uma olhada nas leis locais e sensibilidades culturais para que você saiba o que é tabu antes de entrar numa fria.

Deixe fontes dizerem o que você não pode

Inclua vozes alternativas em seus reportagens -- pessoas que podem expressar ideias e opiniões que você não pode ou que representam identidades que são muitas vezes ausentes ou distorcidas pela imprensa. Isto pode soar como um princípio básico da boa reportagem -- o que é -- mas também é uma poderosa forma de dissidência para destacar controvérsias e debates locais. Apenas certifique-se que a inclusão de tais citações não vai por você ou suas fontes em perigo.

Escreva anonimamente

Se você se preocupa mais em reportar os fatos ou afirmar suas opiniões do que em ver sua assinatura na matéria, considere escrever anonimamente ou sob pseudônimo. Não pense por um segundo que isso fará com que fique totalmente intocável.

Se você está reportando sobre questões delicadas, deve tomar todas as precauções para evitar ser rastreado, monitorado ou identificado. Se você não fizer isso, não só está comprometendo a sua própria segurança, mas também a de suas fontes. Comece com algumas dicas básicas de privacidade online da Electronic Frontier FoundationTorPrivacy International e Access Now.

Reportagem do exílio

Dificilmente ideal, mas a reportagem do exílio é muitas vezes uma opção necessária. Se os jornalistas e os cidadãos não podem cobrir temas religiosos delicados de dentro de seus países, podem optar por enviar informação de forma segura, segura e anônima para gente de fora que têm muitos seguidores internacionais. Jornalistas da diáspora que vivem e trabalham no estrangeiro ainda precisam considerar a segurança da família, amigos, colegas e fontes em seu país de origem. IranWire é um grande exemplo deste tipo de reportagem.

Escreva entre as linhas

Se você está preocupado principalmente com a censura de palavras-chave automáticas online, seja criativo. Os internautas na China há muito tempo se referem ao incidente da Praça de Tiananmen no dia 4 de junho de 1989, como "o trigésimo quinto de maio". Essa ofuscação normalmente é apenas um paliativo até os censores pegarem, mas se seus leitores sabem o que você quer dizer, vá em frente e experimente.

Imagem sob licença CC da Mesquita de Badshahi no Paquistão no Flickr via zerega