Bolsista do programa Knight fala sobre tabus e inovações no jornalismo de saúde

por Margaret Looney
Dec 2, 2011 em Temas especializados

A jornalista de saúde, Mercedes Sayagues, começa suas sessões de treinamento com as palavras de Martin Luther King Jr.: "De todas as formas de desigualdade, a injustiça na assistência à saúde é a mais chocante e desumano."

Sayagues é bolsista do Knight International Journalism Fellowship em Moçambique, onde orienta jornalistas do jornal Savana. Ela desenvolveu uma página de saúde no jornal sobre questões negligenciadas como aborto, câncer cervical e a amamentação para mulheres com HIV.

Conversando com a IJNet, Sayagues discute os desafios da informação sobre saúde e o que há de novo no campo.

IJNet: Existem temas vistos como "tabu" referentes a questões de saúde que dificultam a cobertura do jornalistas?

Mercedes Sayagues: Muitos. Uma delas é a relutância, alimentada pelo medo e tabus, para entrevistar pacientes terminais, mesmo quando o paciente quer contar sua história. Em uma artigo recente sobre o câncer do colo do útero, quando o médico disse que o estado de uma mulher na enfermaria de oncologia era terminal, o repórter e fotógrafo se esquivaram dela, apesar de ela querer dizer a outras mulheres para ir a um hospital em vez de perder tempo e dinheiro com curandeiros tradicionais.

Eu tenho que explicar que não há problema em falar, que perderíamos histórias poderosas e citações se evitarmos pacientes em estágios avançados. Digo aos jornalistas que a morte iminente não é contagiosa. Que, na verdade, todos nós vivemos com a morte iminente, a única diferença é que o paciente terminal sabe a causa da morte.

Outro problema é a linguagem... As pessoas aqui raramente "morrem", em vez disso, "perdem a sua vida". A doença se torna uma patologia e um vírus ou micróbio [se torna] um agente patógeno. Simplifique, use palavras normais; esse é meu mantra quando revisamos os artigos

IJNet: Existem projetos inovadores para a apresentação do jornalismo de saúde à comunidade?

MS: Um projeto piloto começou este ano para lembrar 11.000 pessoas sobre os anti-retrovirais (ARVs), a tomar suas pílulas diárias e ir à próxima consulta médica. Cerca de 13 por cento da população [em Moçambique] é portadora do HIV. Mais de 200.000 já começaram o tratamento, mas três em 10 abandonamos os anti-retrovirais, portanto, esses lembretes são cruciais.

Se for bem sucedido, o esquema, lançado pela ONG britânica ARK, será replicada a nível provincial e em seguida nacional. O principal obstáculo é que cerca de metade dos 20.000 pacientes-alvo se recusou a dar seu número de telefone, temendo perda de confidencialidade.

IJNet: Que conselho você daria a quem quer ser jornalista de saúde?

MS: A reportagem de saúde é uma ótima maneira de sentir o pulso de uma nação. A saúde é um marcador de desigualdades e injustiça, pela negligência dos cidadãos e da ausência de um direito humano básico. A reportagem sobre saúde mostra a distância entre rural e urbano, ricos e pobres, homens e mulheres, capital e periferia, público e privado. Uma criança em Cabo Delgado, ao norte, tem três vezes mais probabilidade de morrer antes dos cinco anos do que uma criança na capital. Saúde é política.

Finalmente, as matérias de saúde são sobre pessoas, sobre nossas vidas. Saúde ressoa com todo mundo, de analfabetos ou a PhDs. A melhor maneira de abordar uma reportagem de saúde é com paixão -- e com tempo para ler e fazer pesquisas na Internet. Se você não fizer pesquisa de fundo e verificar os fatos, vai publicar informação sem sentido ou incorreta.