Bluetooth para o jornalismo cidadão na Índia

porDevansh Mehta
Jan 13, 2020 em Notícias locais
A equipe de treinamento da CGnet Swara

No ecossistema de mídia de hoje, o setor de tecnologia define as regras dos jogos, com os veículos de jornalismo constantemente se atualizando. Existe uma falha coletiva de imaginação na indústria da mídia em reimaginar o futuro em nossos próprios termos e depois criar esse futuro.

Na CGnet Swara, uma plataforma de jornalismo cidadão sediada nas florestas da Índia central, o futuro que imaginamos é aquele em que todas as pessoas da sociedade — mesmo aquelas com menos recursos — podem acessar informações e ter suas vozes ouvidas. Trabalhando nas regiões maoístas da floresta Dandakaraniya, onde há mais de 40 anos uma guerra civil, a CGnet Swara trabalha com grupos tribais locais nessas áreas (com aproximadamente 80 milhões de pessoas segundo algumas estimativas). Muitas pessoas nessas aldeias não leem ou escrevem, moram em áreas sem sinal de internet ou telefone celular e falam apenas sua língua nativa.

Perguntamos a nós mesmos: "Como podemos expandir o jornalismo cidadão e entregar notícias a essas pessoas?"

Um estudo dessas áreas revelou que, embora não haja sinal, telefones celulares são encontrados em todas as aldeias. Mesmo nas zonas mais interiores, as aldeias possuíam coletivamente pelo menos um a dois telefones celulares, que eram usados ​​por trabalhadores migrantes ou por pessoas que viajavam para o mercado semanal, onde as instalações de sinal e internet estão disponíveis. Os moradores usavam o Bluetooth, que não requer internet ou sinal, para compartilhar músicas e outros arquivos de entretenimento em sua aldeia (um fenômeno também observado nas áreas controladas pelo Talibã no Afeganistão). Se as pessoas nessas zonas obscuras da mídia estavam compartilhando músicas entre si por Bluetooth, por que não podiam compartilhar matérias?

Intervenção

Embora tivéssemos uma ideia básica, precisávamos elaborar os detalhes para fazer nosso projeto funcionar. A parte mais difícil foi projetar um aplicativo Android com incentivos adequados. Nós imaginamos um morador da aldeia cumprindo uma função semelhante à de um “jornaleiro”, indo de casa em casa e usando o Bluetooth para distribuir nosso programa de áudio por meio do aplicativo.

No entanto, o Bluetooth descarrega a bateria do telefone, o que não é ideal para aldeias que podem nem ter eletricidade. Precisávamos projetar uma estrutura de incentivo adequada que compensasse o "jornaleiro", ou mensageiro, por seu tempo, o consumo de bateria do telefone e o espaço ocupado no telefone com nossas histórias em áudio.

Muitos usuários nessas zonas obscuras da mídia não têm contas bancárias ou acesso regular a um banco, tornando os incentivos financeiros tradicionais um fracasso. No entanto, todos eles tinham um número de telefone que recarregavam todos os meses. O design final consistia em fornecer aos mensageiros sete centavos para cada matéria que compartilhassem por meio de nosso aplicativo via Bluetooth, que poderiam ser resgatados quando tivessem dinheiro suficiente para recarregar o telefone.

Também queríamos que os moradores gerassem suas próprias histórias. Para permitir que esses usuários relatem histórias de sua aldeia, eles também podem usar o aplicativo para gravar histórias de áudio em sua língua materna. Então, quando se conectam à internet (uma vez por semana ou mês), as histórias que gravam são enviadas para nossa equipe de moderadores, que verificam, editam e compilam essas histórias em programas de áudio.

App's interface
A primeira opção permite gravar histórias, a segunda opção ouvir histórias, a terceira opção listar histórias que os usuários podem compartilhar para ganhar dinheiro e a quarta opção permite que eles compartilhem o aplicativo com outras pessoas por Bluetooth. O canto superior direito indica o dinheiro que eles ganharam.

 

No início de setembro, iniciei uma viagem de 3.500 quilômetros pelo coração de Chhattisgarh para começar a testar o aplicativo em várias aldeias. Fui acompanhado por um residente que falava o idioma local e fazia parte da nossa organização desde 2014. Resolver os problemas do aplicativo levou mais de um mês de testes e lançamos o design final no início de outubro.

Setting out on the road trip to deploy the new Bluetooth based media platform
Viajando para implantar a nova plataforma de mídia baseada em Bluetooth.
 Training users on how they could earn money by distributing our stories through Bluetooth
Treinando os usuários sobre como eles podem ganhar dinheiro distribuindo nossas matérias por Bluetooth.

Resultados

Depois de finalizar o design, passamos os próximos cinco dias entregando o aplicativo aos moradores e treinando as pessoas que se tornariam nossos mensageiros e repórteres. O aplicativo não podia ser baixado e precisava ser transmitido de outro usuário.

Após o impulso inicial, passamos o programa para uma equipe de treinamento em nossa organização, que usa um ônibus para viajar de vila em vila para divulgar a plataforma de jornalismo cidadão.

Os resultados finais nos pegaram de surpresa. No primeiro mês em que foi implantado, nossas matérias foram transferidas um total de 20.955 vezes via Bluetooth para 2.443 telefones exclusivos. Pagamos a 680 mensageiros US$930 para recarregarem seus celulares e distribuírem nossas matérias.

O aplicativo também possibilitou mais jornalismo cidadão. Aproximadamente 10% dos usuários reportaram pelo menos uma história. De 4 de outubro a 24 de dezembro, um total de 528 histórias foram reportadas por meio do aplicativo, das quais 156 foram verificadas e publicadas em nosso site, transmitidas pelas mídias sociais e distribuídas à comunidade por meio do aplicativo. Essas histórias variam de canções folclóricas culturais a problemas comunitários de longa data, como não ter uma estrada para a aldeia.

 

Pie chart on the type of stories
Tipo de histórias distribuídas.

 

Depois de provar que é possível um meio radicalmente novo de distribuir e coletar conteúdo nas zonas obscuras da mídia, descontinuamos a iniciativa, pois nosso orçamento para recargas de celular acabou. No futuro, nosso objetivo é torná-la uma rede autossustentável por meio de anúncios e usar essa rede para comprar e vender produtos locais dos vilarejos às cidades.

Discuti esse experimento com um grupo de estudantes do programa de jornalismo social da Universidade da Cidade de Nova York. Eles perguntaram se eu considero o que fizemos como jornalismo. Pela lente tradicional, se vemos um jornalista como criador de conteúdo, provavelmente não seria. No entanto, os estudantes discordaram, pois acreditam que o jornalismo fornece informações às comunidades usando toda e qualquer ferramenta à nossa disposição.

Os velhos modelos de jornalismo estão morrendo e precisamos reimaginar nossa profissão para criar o futuro, e não apenas reagir a ele.


Devansh Mehta é o diretor de atividades de pesquisa da CGnet Swara. Este projeto foi financiado pela Independent and Spirited Media Foundation, Tata Trusts, Microsoft Research India, South Eastern Coalfields Limited e Internews. O presidente da CGnet Swara é um ex-bolsista Knight do ICFJ.

Todas as imagens são cortesia da CGnet Swara.