Aprenda a geolocalizar imagens seguindo esta conta do Twitter

porGaelle Faure
Mar 13, 2019 em Jornalismo investigativo
Captura de imagem

Uma vez por dia, a conta do @Quiztime no Twitter publica uma imagem. Pode ser de uma rua vazia, colinas onduladas ou um avião estacionado em uma pista. Geralmente é uma fotografia, às vezes um vídeo --mas é sempre misterioso. E esse é o ponto: ao examinar a imagem em busca de pistas, os seguidores da conta, muitos dos quais são jornalistas, tentam descobrir exatamente em que lugar do mundo foi tirada.

O Quiztime começou em 2017, quando a jornalista alemã Julia Bayer postou uma foto em sua conta no Twitter mostrando um cruzamento num dia de chuva em Colônia e perguntou: “Onde estou? Encontre a localização exata. ”Ela fez isso para seus alunos em uma sessão de treinamento que ia ensinar, mas de repente, viu suas menções no Twitter explodirem. Seus seguidores começaram a tentar resolver o desafio.

 

“No começo, pensei: 'Ah, não, os alunos da minha turma vão ver a solução!'”, lembra Bayer. “Mas foi muito divertido ver as pessoas começarem a trabalhar juntas no desafio e pensei: por que não continuar?”

Bayer começou a postar um quiz toda segunda-feira e depois convidou alguns dos seguidores a fazer o mesmo nos outros dias da semana. A atual lista de "quizmasters" inclui vários jornalistas alemães, um jornalista investigativo da Bellingcat e um especialista em OSINT. Aos domingos, qualquer pessoa do público pode postar seu próprio quiz, e o bot do Quiztime transmite para a comunidade.

"Eu viajo muito e sempre tenho meus olhos abertos para fotos que posso tirar e armazenar para quizzes futuros", diz Bayer. "Vejo a luz do sol atingindo um edifício específico e penso que seria uma boa ideia perguntar aos seguidores a que horas tirei a foto. Eu também posso deixar vestígios, por exemplo, publicando algo na minha conta do Instagram que possam conectar ao quiz.”

Bayer diz que os seguidores/jogadores geralmente incluem uma mistura de jornalistas e especialistas em OSINT que procuram aprimorar suas habilidades de geolocalização e verificação, bem como pessoas que são simplesmente curiosas e gostam de resolver quebra-cabeças.

O Quiztime funciona assim: o quizmaster tuita uma imagem, geralmente uma que eles mesmos tiraram, juntamente com uma ou várias perguntas. Às vezes, é tão básico quanto a localização, a data e a hora. Muitas vezes, no entanto, as perguntas ficam mais criativas. A equipe principal do Quizzers é sempre marcada para ajudar.

Os jogadores que querem discutir pistas e colaborar no desafio podem “responder a todos”. Eles podem, por exemplo, rastrear o logotipo de uma loja, identificar uma torre à distância ou examinar o ângulo das sombras. Normalmente, não é apenas uma pista, mas sim uma combinação de pistas que leva à resposta correta. Ao longo do caminho, o quizmaster geralmente interage com os jogadores para que eles saibam se estão no caminho certo.

Screenshot of Twitter
Capura de tela do Twitter

Aqueles que descobrem a resposta respondem diretamente ao quizmaster para não estragar o jogo para todos os outros. Isso significa que os jogadores podem começar a trabalhar em um quiz a qualquer momento, mesmo depois de outros terem resolvido o problema. Enquanto isso, aqueles que não têm tempo para fazer o quiz podem espiar a conversa para ler as explicações dos jogadores sobre como eles resolveram o problema.

Os quizzes variam em dificuldade. Alguns são resolvidos em poucos minutos, outros demoram horas ou dias e alguns nunca foram resolvidos. (Casos não resolvidos estão listados aqui.)

"Com algumas imagens, à princípio, parece que não há nada nelas", diz Bayer. “Mas há sempre alguma coisa, uma pequena pista escondida. Trata-se de treinar seus olhos para vê-las."

Mohamed Kassab, jornalista egípcio que joga Quiztime desde o início, diz que ele e outros jogadores usam todo tipo de ferramentas online --como o Google Imagens (ou, cada vez mais, o Yandex) para pesquisas de imagens reversas, Suncalc para calcular o tempo de dia, etc-- mas adverte que as ferramentas não resolvem tudo.

“A técnica é muito mais importante que as ferramentas”, diz Kassab. “Muitas pessoas sabem sobre as ferramentas, mas muitas pessoas não sabem como usá-las bem. E quando uma ferramenta não funciona, de que outra forma você pode chegar à resposta? Através da prática e utilizando todo o seu conhecimento acumulado, você começa a identificar pistas e caminhos que nunca viu antes.”

Kassab agora usa o que aprendeu para treinar outros jornalistas no Egito e Oriente Médio. Ele diz que essas habilidades são muito necessárias para que os jornalistas da região possam verificar vídeos e desmascarar casos em que imagens circulam com informações falsas.

"Há um espírito colaborativo e solidário com o Quiztime", diz Kassab. "Eu aprendi muito interagindo com os quizmasters e jogadores regulares, que são muito generosos com seu conhecimento."

Outro jogador é a jornalista polonesa Beata Biel. Ela percebeu que, com o Quiztime, raramente há apenas um caminho para a resposta.

"Houve um teste para o qual eu fiz uma consulta de pesquisa bem original, 'rocha no formatio de um bumbum de elefante', e obtive um resultado muito melhor que os jogadores que estavam usando consultas mais elegantes como "rocha com uma rachadura", disse Biel. “E em outros casos, encontrei a resposta usando consultas de pesquisa descritivas, enquanto outros a encontraram usando uma pesquisa de imagem inversa. Então, acho que observar a abordagem que os outros adotam pode ser realmente interessante.”

Para Biel, o Quiztime treina seu cérebro de uma maneira útil: "Eu poderia estar jogando Sudoku, mas não me traria habilidades adicionais que posso usar no meu trabalho jornalístico."

Como exemplo, ela aponta para uma investigação visual publicada pela BBC Africa Eye que analisou a morte de duas mulheres e duas crianças pequenas por soldados camaroneses. Ao analisar imagens da cena, que havia sido descartada pelo governo de Camarões como "notícia falsa", os jornalistas descobriram onde ocorreu o assassinato e quem era o responsável. Eles examinaram pistas como o contorno das montanhas à distância e o ângulo das sombras. Durante a investigação, eles foram ajudados por vários detetives do Twitter, incluindo membros do Bellingcat e jogadores regulares do Quiztime.

“Um amigo meu me perguntou: 'Por que você está tentando descobrir onde esse vídeo foi tirado? Você nunca esteve em Camarões ”, diz Biel. “E isso era verdade. Mas também sabia que é possível descobrir muito apenas por meio de várias pistas visíveis em um vídeo, usando até mesmo as ferramentas digitais gratuitas mais simples. Os quizzes reforçaram minha crença de que você pode fazer muita coisa boa com esses tipos de habilidades.”

Embora essas habilidades sejam frequentemente usadas para documentar os abusos dos direitos humanos, o próprio Quiztime não busca investigar imagens violentas ou perturbadoras, diz Bayer.

"Alguns de nós estão trabalhando nas notícias diárias, o que pode ser exaustivo, então queremos que isso seja diversão", diz Bayer. "Acho que também é o que nossos usuários apreciam: que podem ter certeza de que não encontrarão imagens traumáticas aqui."

O Quiztime está aberto para quem quer jogar. Tudo que você precisa é de uma conta no Twitter. Biel tem algumas palavras finais de conselho:

“Mesmo se você é tímido demais para sugerir sua resposta publicamente, tudo bem, você pode guardar para si mesmo e ver como os outros tentaram alcançar a solução. Você verá logo que essas habilidades podem ser úteis, como quando uma fonte envia uma foto para você ou quando vê uma foto online e precisa verificar onde ela foi tirada.”

Outras leituras e estudos de caso do blog Quiztime (em inglês):


Este artigo foi publicado originalmente pelo GIJN e é reproduzido na IJNet com permissão

Gaelle Faure é editora associada da GIJN. Anteriormente, ela trabalhou para a France 24, onde se especializou em coleta e verificação de notícias sociais. Ela também trabalhou como editora do News Deeply e reportou para a revista Time.

Imagem principal sob licença CC no Unsplash via Charlotte Butcher