4 jornalistas contam como é ser mulher no jornalismo

porDestiny Alvarez
Oct 16, 2019 em Diversidade
Rosalind Donald

As mulheres lutam pela igualdade e seu lugar na força de trabalho há décadas e, apesar de bem-sucedidas em alguns casos, a batalha ainda continua. Para as mulheres na mídia, a ênfase na diversidade e o apoio ativo mútuo desempenham um papel fundamental na navegação pelos papéis de gênero no local de trabalho.

A cada semestre, a Universidade de Oregon convida os principais profissionais de mídia e acadêmicos a participarem da série de seminários “Desmistificando a Mídia”, lançada em 2016. Embora os palestrantes do seminário sejam de um grupo diversificado de profissionais, o última edição contou com quatro mulheres pela primeira vez na história do seminário.

Na sessão, a premiada jornalista de dados Jennifer La Fleur, a professora de jornalismo Susan Robinson, a pesquisadora de mudanças climáticas Rosalind Donald e Mandy Jenkins da McClatchy, na época bolsista do JSK em Stanford, conversaram com estudantes e professores.

Além de compartilhar detalhes de seu trabalho, elas falaram sobre suas próprias experiências como mulheres na indústria da mídia. Com base em entrevistas individuais, aqui estão algumas de suas principais reflexões sobre as oportunidades e os desafios para as mulheres na mídia.

Mandy Jenkins, McClatchy

Mandy Jenkins, McClatchy
Mandy Jenkins falando na Universidade de Oregon. Imagem via OR Media.

 

Enquanto muitos jornalistas evitam ler os comentários, Mandy Jenkins, gerente geral do Compass Experiment, um laboratório de notícias local fundado pela McClatchy e Google, disse que ler e responder a pessoas que se preocupam o suficiente para se envolver com eles é uma parte importante do trabalho de um jornalista. O engajamento também é um princípio fundamental do jornalismo social, que usa as redes sociais para envolver o público, distribuir informações e mais.

"Eu acho que a ascensão do jornalismo social está muito ligada à ascensão das mulheres", disse Jenkins. “Há muitas mulheres que estão causando grandes impactos no jornalismo, mas ainda não estamos vendo essa mudança no topo. Eu acho que vai demorar muito mais tempo."

"Eu tenho minha própria teoria de por que as mulheres estão conseguindo dar grandes saltos no jornalismo agora", acrescentou. “Houve um tempo em que as mulheres eram limitadas a coberturas de artes e comunitária. Mais tarde, por exemplo, quando comecei a trabalhar, eram todos trabalhos de jornalismo social.”

Jenkins disse que, quando entrou em campo, os trabalhos em jornalismo digital, redes sociais e engajamento com a comunidade não eram tão procurados e valorizados. O jornalismo impresso ainda estava na vanguarda, por isso foi fácil para as mulheres conseguirem esses empregos e, como resultado, as mulheres passaram a dominar essas posições.

“As mulheres foram capazes de subir nesses empregos porque eram posições que nenhum homem queria. Com o crescimento dos postos, as mulheres nessas posições cresceram. Muitas dessas mulheres estão lentamente sendo promovidas para posições editoriais mais altas agora.”

Jenkins visitou a Universidade de Oregon como jornalista residente durante seu período como bolsista John S. Knight em 2019 na Universidade de Stanford. Durante sua palestra, ela discutiu sua carreira e pesquisas recentes sobre desinformação e notícias importantes.

Rosalind Donald, Universidade de Columbia

Rosalind Donald é ex-jornalista e vice-editora do Carbon Brief, um site de verificação de fatos focado em ciência e política climática na mídia. Atualmente é doutoranda e pesquisadora da Faculdade de Jornalismo da Universidade de Columbia, onde seu trabalho se concentra no entendimento da comunidade sobre mudanças climáticas; um tópico que ela argumenta que poderia fazer parte de qualquer editoria jornalística.

"Informar sobre mudanças climáticas ou ciência pode ser difícil", disse Donald. "Você tem pessoas dizendo que não deveria estar nessa área porque é uma área científica. As mulheres na ciência e em campos complexos lidam com isso todos os dias. Não apenas jornalistas."

O jornalismo exige longas horas e, muitas vezes, grandes tarefas que podem afastar um jornalista de sua família com frequência suficiente para perturbar uma vida familiar equilibrada. As mulheres estão sendo pressionadas a escolher entre carreira e filhos.

Donald concorda que ser mulher na mídia é uma luta, mas ser mulher de minorias raciais ou mãe mãe pode ser ainda mais difícil.

Enquanto as conversas sobre o viés de gênero e a necessidade de aumentar a diversidade na redação continuam, as mulheres não brancas e as mulheres mães continuam a lutar por representação e apoio.

Além de opções de vida e luta por representação, as jornalistas também estão lutando por respeito e segurança. Onde você entrevista é um lugar seguro? E se os entrevistados derem em cima de você? Isso nem sempre acontece, mas pode fazer você sentir que não estavam vendo você como um profissional fazendo um trabalho.

"Há muitas coisas que as pessoas dizem para você que fazem você se sentir como se não pertencesse. Não tenho mais 20 anos, sou casada, sou uma mulher branca, então minha experiência ainda é muito mais positiva do que a de muitas outras pessoas.”

Ouça a palestra de Donald aqui (em inglês).

Professora Susan Robinson, Universidade de Wisconsin-Madison

Susan Robinson, UW-Madison
Susan Robinson, da Universidade de Wisconsin-Madison. Imagem via Mídia OR.

 

De acordo com um relatório do Poynter, as mulheres são maioria nas faculdades de jornalismo, mas esse não é o caso na redação. Um estudo da Columbia Journalism Review mostra que a diversidade na liderança da redação precisa de reforma. Nos 135 jornais de língua inglesa mais amplamente distribuídos dos Estados Unidos, 73% dos editores são do sexo masculino e 90% são brancos.

"Acho que realmente estamos progredindo em equidade de gênero na redação. [Mas] menos nas faculdade de jornalismo e ainda menos em posições altas”, disse Susan Robinson, professora de pesquisa de jornalismo da Universidade de Wisconsin-Madison.

Robinson cobriu negócios, tecnologia e agricultura — todas indústrias dominadas por homens — e disse que seu gênero criou desafios. “Especialmente com minhas fontes, porque as esposas ficavam irritadas por eu tomar café com seus maridos”, ela lembrou. "Sempre houve esses rumores que, obviamente, não eram verdadeiros, mas era assim. Foi muito difícil."

As fontes a chamavam por apelidos íntimos e comentavam sobre sua aparência. "Era ruim e constante", disse Robinson. “Mas isso era tudo fora da minha redação. Eu tive muita sorte nas minhas redações. Éramos quase todos considerados iguais.

O ponto central do trabalho de Robinson é o fluxo de informações, que se move através de ecologias e redes de mídia específicas no nível da comunidade local. Ela falou sobre seu novo livro, "Networked News and Racial Divides: how power and privilege shape progressive communities".

Jennifer LaFleur, Investigative Reporting Workshop

Jennifer LaFleur, American University
Jennifer LaFleur. Imagem via OR Media 

 

"Eu fui basicamente desencorajada de fazer matemática e ciências e coisas assim quando estava na escola", disse Jennifer LaFleur, editora de dados do Investigative Reporting Workshop e instrutora de jornalismo de dados da American University. No entanto, ela desafiou esse sentimento e seguiu uma carreira em jornalismo de dados — então chamado de reportagem assistida por computador (CAR, em inglês).

Ao longo dos anos, LaFleur observou a indústria crescer, especialmente em termos de paridade de gênero. Ela se lembra de quando entrou em campo pela primeira vez e participou de um evento para mulheres e apenas cinco apareceram.

Agora, as mulheres compõem aproximadamente metade dos participantes de conferências, de acordo com LaFleur, e a última vez que tentaram realizar um evento semelhante para mulheres, não conseguiram encontrar um espaço grande o suficiente.

"É o único lugar em que fico super feliz quando tenho que esperar na fila do banheiro", disse ela.

Segundo LaFleur, é responsabilidade de todos trazer mais diversidade para o campo.

“Quando estou construindo uma equipe, realmente tento contratar jovens mulheres e jornalistas não brancas, porque ouvi por tanto tempo que é muito difícil conseguir ter uma redação diversa e uma equipe diversificada, e isso é uma grande mentira."

Programas de mentoria e bolsas são um ótimo local para jornalistas mais experientes encontrarem novos e futuros jornalistas para trazer e ajudá-los a crescer. Ter uma variedade de perspectivas novas pode melhorar a redação e a qualidade do jornalismo que está sendo escrito.

"Quando temos outras mulheres tendo sucesso, todas temos sucesso."

Em parceria com o Catalyst Journalism Project, LaFleur discutiu como evitar erros no jornalismo de dados durante sua palestra. Você pode ouvir sua palestra aqui (em inglês).


Escute mais conversas com essas palestrantes através do podcast "Demystifying Media" (SoundCloud, iTunes)) e estas entrevistas de estúdio de 10 minutos.

Destiny Alvarez é uma jornalista baseada em Portland, Oregon. Ela se formou pela Faculdade de Jornalismo e Comunicação da Universidade de Oregon com um mestrado em jornalismo em 2019. Alvarez foi a editora-chefe de 2019 da premiada publicação Flux Magazine, liderada por estudantes. Alvarez foi estagiária da Demystifying Media e do Programa Charles Snowden de Excelência em Jornalismo para The Register-Guard em Eugene, Oregon.

A imagem principal mostra Rosalind Donald, cortesia da OR Media.