4 dicas sobre o papel dos dados na reportagem investigativa

por Sam Berkhead
Sep 7, 2015 em Jornalismo de dados

A evidência é fundamental.

David Donald, um jornalista de dados em residência na Faculdade de Comunicação da American University, enfatizou esta frase durante uma recente conversa com jornalistas paquistanesas visitantes da Parceria Profissional em Jornalismo EUA-Paquistão do ICFJ.

"Tudo o que eu falo é no contexto de evidências", disse Donald. "Jornalismo investigativo trata de evidências; jornalismo de dados trata de evidências."

Donald, cujo trabalho investigativo para o Center for Public Integrity (CPI) expôs os métodos de concessão de empréstimos que levaram à crise financeira de 2008 nos Estados Unidos e ao excesso de cobrança dos prestadores de serviços de saúde aos pacientes do Medicare, afirmou que os dados devem sempre desempenhar um papel na reportagem eficiente.

Aqui está um resumo dos principais pontos que tiramos da palestra de Donald:

Tenha a mentalidade de buscar por documentos

Para usar eficazmente bancos de dados e documentos como jornalista, Donald disse que é importante ter uma mentalidade de buscar documentos. Essencialmente, isso significa que você precisa trabalhar para encontrar documentos e dados tanto -- se não mais--  como trabalha para encontrar fontes para citações.

De acordo com Donald, os jornalistas investigativos Don Barlett e Jim Steele definem a "mentalidade de buscar documentos" como o estado em que um jornalista assume que sempre vai existir em algum lugar um documento ou banco de dados sobre um determinado tópico.

"Até prova em contrário, seu trabalho é descobrir onde esse documento está," explicou. "Os documentos e bancos de dados são frequentemente registros oficiais, então pode citá-los como tal. Um documento ou banco de dados nunca vai ligar para você antes da publicação e afirmar 'eu nunca disse isso'. Algumas fontes tentam fazer isso, mas um documento ou banco de dados não."

Números têm um contexto cultural

Assim como uma pessoa pode escolher palavras que representam os seus preconceitos pessoais, números e dados podem ser igualmente manipulados para apoiar um ponto de vista específico sem mostrar a imagem completa.

"Só porque a matemática está correta, não significa que o número não vai tomar lados", disse Donald, destacando a importância de calcular o número mediano em vez da média.

Donald citou a disputa sobre os salários de jogadores entre os proprietários de times de beisebol e atletas que levaram à greve de 1994-1995 da liga americana de baseball. Os proprietários da equipe normalmente reportavam o salário médio para a imprensa, que era impulsionado a milhões de dólares graças a alguns jogadores estrelas com salários extraordinários. Já os jogadores reportavam o salário médio, que removia o efeito anômalo, revelando que o salário típico do jogador era muito menor.

"Todo repórter de baseball da época, em seguida, usou a média, porque provavelmente nem sequer sabiam como calcular o número mediano", disse Donald.

Dados perfeitos não existem

Ao usar dados em um reportagem, é fundamental lembrar que todos os dados são inerentemente defeituosos, Donald ressaltou.

"O problema com os dados é que dados perfeitos não existem", disse ele. "Há sempre problemas com os dados, porque em algum lugar, de alguma forma, em algum momento, cada parte dos dados foi tocada por mãos humanas, o que  gera uma alta probabilidade de erros."

Dados obrigam a fonte a prestar contas

Além de mudar a forma como os jornalistas escrevem e apresentam suas informações, dados e evidências também afetam profundamente a relação entre jornalistas e suas fontes, disse ele.

"Você vai ter evidências sobre as quais a fonte terá que responder ou optar por não responder -- que pode fazer com que pareçam idiotas", disse Donald. "Se não tem provas, então o que está discutindo é muito geral. Você vai escrever qualquer coisa que a fonte quer dizer e não saberá o que perguntar além de 'o que acha sobre isso?' ou 'qual é a sua opinião sobre isso?'"

"Quando você tem evidências, pode dizer coisas como 'eu achei esta prova aqui, pode me dizer a sua reação?' -- e, de repente, as coisas mudam profundamente como repórter."

Imagem sob licença CC no Flickr via romanlily