10 dicas para reportagem sobre conflito e abuso

porJaldeep Katwala
Dec 19, 2010 em Temas especializados

O jornalista Jaldeep Katwala apresenta 10 dicas sobre como fazer jornalismo em zonas de conflito. Katwala, que cobriu os conflitos na República Democrática do Congo, disse que este tipo de reportagem é complexo e que muitas vezes os fatos não se revelam da maneira que o nível de compreensão da situação requer.

1: Não escreva clichês

‘The Heart of Darkness’ é o título de um bom livro de Joseph Conrad, escrito na primeira metade do século 20, sobre uma viagem pelo rio Congo. Não precisa apresentar o Congo em cada história, muito menos no seu título.

2: Não acredite em tudo que dizem

As ONGs internacionais, por definição, estão do lado da vítima. Querem gerar interesse para sua perspectiva e contar sua história. Muitas vezes, esta é uma história de impacto por si própria, sem a abordagem emocional adicional proposta pelas ONGS. Lembre-se disto especialmente quando obter relatos de segunda mão.

3: Não busque a "verdade definitiva"

A verdade está em algum lugar, mas é incrivelmente difícil de encontrar. Veja como exemplo a República Democrática do Congo. É um país enorme, maior que a Inglaterra, França, Alemanha, Espanha, Itália e Polônia juntos. Como jornalista, a menos que tenha vivido a situação, você tem que confiar no que outra pessoa diz. Por isso, tenha cuidado.

4: Não tire os fatos do contexto

A MONUC é a missão de paz da ONU maior do mundo. Conta com 20.000 soldados no campo. Contudo, ponha isto em contexto. Há 40.000 soldados internacionais em Kosovo.

5: Não aceite informação sem perguntar

Os fatos são carregados. Uma revisão dos arquivos do Congo mostra que 5,4 milhões de pessoas morreram durante o conflito nesse país. Sabe como se chegou a este número? Sabe que período cobre a estatística? Se não, então não o use.

6: Não esqueça da rosto humano do sofrimento

A violência sexual e a violação são crimes terríveis. Assim como todo sofrimento humano. Ao fazer a reportagem, não se esqueça de que por trás de todos as manchetes e matérias há seres humanos.

7: Não seja descuidado com as palavras

Use a linguagem com cuidado. Genocídio é um termo jurídico específico com um significado particular. Um grande número de pessoas mortas não significa automaticamente que seja um genocídio.

8: Não se deixe levar pela agenda do outro

É tudo questão de tempo. Lembre-se que os grupos de pressão, muitas vezes, divulgam informações para coincidir com eventos importantes no calendário político. Por exemplo, os debates do Conselho de Segurança da ONU são frequentemente antecedidos por demandas de ONGs por ações. Como jornalista, você deve definir a ordem do dia e não ter outros a definindo para você.

9: Não ignore as pressões locais

Os jornalistas do Congo trabalham em um ambiente político totalmente diferente do seu. Enfrentam censura (ou autocensura), perseguição, intimidação e ameaças de morte. Muitas vezes não podem informar o que gostariam.

10: Não ignore a história

A história se repete. O jornalismo não precisa se repetir. O jornalismo não deve ser um acúmulo de clichês. Pense originalmente, pense lateralmente. Encontre histórias que contam a história não contada e que vão além dos clichês.

Jaldeep Katwala é jornalista desde 1985. Ele trabalhou para a BBC, Channel 4 News e Radio Netherlands. Ele também ensinou jornalismo e dirige uma série de projetos de desenvolvimento de mídia e cursos de formação em todo o mundo.

Este artigo foi escrito por Jaldeep Katwala e apareceu originalmente no Media Helping Media.