10 dicas para entrevistar políticos

por David Brewer
Sep 8, 2016 em Temas especializados
Entrevistando políticos

Há uma arte de entrevistar políticos. Você precisa entender a motivação, perceber que eles terão um roteiro, não lhes permitir complicar as coisas, recusar ter o assundo desviado, manter uma mente aberta, conhecer o assunto e evitar insultos e acusações.

Lembre-se: você está lá apenas para descobrir informações para informar o debate público.

Nunca faça acordos; não deve haver um pacto sobre o resultado.

1: Faça a entrevista para o benefício do público

Lembre-se que ambos têm um "eleitorado". 

O seu eleitorado é o público, com que você está comprometido a informar com informação equilibrada, imparcial, objetiva e precisa.

O deles é o eleitorado que eles representam, composto de pessoas que podem ou não ter votado neles.

Você está lá para fazer perguntas em nome de seu público e descobrir informações que "se não fosse por você, o mundo nunca teria sabido."

Você não está lá para parecer inteligente ou vencer uma batalha.

Uma entrevista de política não tem que se tornar uma confrontação intensa.

Um bom entrevistador vai extrair a informação que está buscando, sem a necessidade de levantar a voz.

Você está à procura de informações que "se não fosse por você, o mundo nunca teria sabido"

2: Compreenda a motivação do político

Sua motivação deve ser o de informar o debate público oferecendo um jornalismo robusto, fatos verificados que permitem que o público entenda melhor o que está acontecendo ao seu redor e faça escolhas informadas.

No entanto ambição, interesses pessoais, ativismo, ganho pessoal, vingança e outra bagagem pessoal podem atrapalhar.

Você tem a responsabilidade de lidar com isso. Trata-se de integridade.

Você não pode conduzir uma entrevista política significativa sem integridade.

Sua motivação também deve ser informar o debate público e assegurar que as necessidades de todos na comunidade sejam representadas e contadas.

No entanto, a fidelidade partidária, o medo de perder o seu lugar, posição, ambição, ideologia e uma série de questões pessoais podem atrapalhar isso.

Seu trabalho é ver através disso e chegar aos fatos em questão.

Os políticos são funcionários públicos. Eles foram eleitos para fazer um trabalho em nome daqueles que representam. Seu desempenho profissional está aberto ao escrutínio.

Você como jornalista tem um papel único de sentar-se com esses tomadores de decisão e fazer as perguntas importantes que seu público não é capaz de fazer.

Você está trabalhando em nome do seu público.

É o seu trabalho examinar fundo e descobrir os fatos sobre a conduta profissional, como o político está cumprindo com suas responsabilidades e quaisquer questões pessoais que possam impedi-los.

Você não pode conduzir uma entrevista política significativa sem integridade

3: Mantenha a simplicidade

Os políticos podem tentar complicar as coisas quando lhes convém. Eles podem tentar fazer com que o jornalista se sinta inferior, sugerindo que não entendem a situação. Frases como "bem, é complicado" e "você precisa entender a fundo" são formas comuns de tentar reduzir a eficácia do jornalista.

Atenha-se às perguntas jornalísticas fundamentais de quem, por quê, quando, onde, o quê e como. As perguntas devem ser curtas e diretas ao ponto. Quanto mais complexa a questão, mais oportunidades você oferece ao político de evitar o ponto principal.

Não tenha medo de continuar a fazer a mesma pergunta várias vezes até obter uma resposta clara. Frasear a mesma pergunta de maneiras diferentes ajuda a reduzir a probabilidade de irritar o político. No entanto, se eles ficarem com raiva, não deixe que isso te incomode.

Você não precisa ser especialista em tudo em que um político está envolvido, mas é importante que tenha uma sólida compreensão das questões da entrevista. Você certamente precisa conhecer a história e ter certeza de que sabe o que está falando e que as perguntas que faz são bem pesquisadas.

Não tenha medo de continuar a fazer a mesma pergunta várias vezes até obter uma resposta clara

4: Não se desvie ou descarrilhe

É tão fácil ser desviado da questão crucial. Quando o jornalista perde a calma, perde a entrevista.

Um político que está andando na corda bamba pode contratacar a fim de forçá-lo a estar na defensiva. Eles podem tentar levá-lo a uma discussão que querem ter, em vez de discutir as questões que você deseja abordar. Não se deixe levar por isso; é uma armadilha. Volte para a pergunta que você quer perguntar.

Sempre fique longe de insultos pessoais e nunca entre em um jogo de debate onde um acaba gritando com o outro. Quando isso acontece, a entrevista (embora provavelmente muito divertida para o público e é provável que acabe no YouTube e seja viralmente comercializada globalmente) perde o seu poder como ferramenta para informar o debate público. Você e o político terão provavelmente danificado a sua integridade. Vai refletir mal para sua organização de notícias também.

Uma entrevista com um político deve ser uma tentativa sincera de descobrir informações para ajudar o público a entender mais sobre questões atuais. Não é uma batalha de inteligência entre você e o político. Não se trata de marcar pontos. Também não serve para fazer você parecer inteligente na frente de seus colegas e amigos.

Quando o jornalista perde a calma, perde a entrevista

5: Não faça acordos

Pode parecer óbvio, mas você nunca deve ir para uma entrevista com um político sob qualquer forma de acordo, explícito ou implícito. Não deve haver uma compreensão mútua de que ambas as partes vão conseguir alguma coisa fora da entrevista. Isto é desonesto e vai contra os elementos centrais do jornalismo.

É comum um político tentar fazer isso para garantir conseguir o que ele quer divulgar; isso é política. Mas você tem que estar acima isso. É uma questão de integridade.

Nunca deve haver qualquer sugestão de que o curso da entrevista pode ser traçado com antecedência. A única coisa que você pode concordar de antemão é a duração da entrevista e até mesmo isso introduz limitações que poderiam impedi-lo de chegar à verdade.

Não deve haver compreensão mútua de que ambas as partes vão conseguir alguma coisa fora da entrevista

6: Eles terão um roteiro

Na hora de se preparar para a entrevista, você pensa nas áreas que pretende cobrir e pode ter escrito as perguntas que quer perguntar. O político provavelmente faz o mesmo.

É provável que tiveram várias sessões de trabalho com assessores políticos e serão informados sobre a mensagem exata que desejam transmitir através de sua entrevista.

Organizações políticas gastam uma fortuna na contratação de consultores que aconselham políticos a evitar responder a perguntas e garantir que divulguem sua mensagem não importa que perguntas são feitas. Há um grande negócio em manipular a mídia. Muitas vezes, esse treinamento é realizado por ex-jornalistas para que os políticos possam estar bem preparados, não necessariamente para lhe darem a informação que você procura, mas para garantir que permaneçam na mensagem política.

Você pode ter certeza que isso acontece quando ouve respostas como, "Bem, isso é um ponto interessante, mas a questão principal aqui é...", ou "Estou feliz que você me perguntou isso, mas você tem que lembrar que as verdadeiras razões por trás disso são... "

Estas e muitas outras respostas que tentam tirar a iniciativa da entrevista do jornalista sugerem que o político está preparado e pronto para usar sua entrevista como uma transmissão política e não como um veículo para informar o público.

Não haverá nenhuma dúvida de que o político tem um roteiro em sua cabeça. Eles saberão o resultado final e terão uma frase final (a última palavra) que vão querer divulgar, independentemente das perguntas que você pediu.

No entanto, você não está lá para ajudá-los em sua campanha. Você é um jornalista cujo trabalho é chegar à verdade.

Nunca pense que você estará mais preparado do que eles; isto é ingênuo e tolo. Você precisa ir a uma entrevista de política sabendo que por atrás do político há uma equipe de gestão de notícias, que terá feito isso centenas de vezes e terá usado jornalistas como você para atingir seus objetivos.

Você não é um redator cuja função é ajudá-los na campanha de relações públicas de um político

7: Tenha a mente aberta

Embora seja importante saber o que você vai perguntar (como explicado acima), também é importante ir para a entrevista com uma mente aberta. É um equilíbrio delicado ir preparado com um conjunto de perguntas e ainda assim manter a flexibilidade necessária para estar alerta para alguma nova informação que você não sabia antes. Isto naturalmente significa que você precisará dominar o assunto.

Você precisa ter feito a sua investigação até o ponto em que ficará bem se uma linha de questionamento não planejada ou esperada o levar a descobrir mais informações que serão úteis para o seu público.

Se o político sente que você tem medo de se desviar de uma linha rígida de questionamento, pode achar que isso é uma fraqueza e tentar explorá-la. Se o fizerem, vão tomar o controle da entrevista, e todos os seus esforços podem servir para efeitos de relações públicas ou, pior ainda, propaganda.

Você deve tentar descobrir algo novo com o processo. Não vai conseguir fazer isso se ficar preso obstinadamente ao seu roteiro.

Você deve ir para a entrevista com uma mente aberta

8: Não deixe-os fugir da pergunta

Há muitas maneiras de um político evitar uma questão (duas foram mencionadas acima). É importante para o jornalista que conduziu a entrevista saber quando isso está acontecendo. O entrevistador precisa saber quando é preciso se segurar. Muitas vezes, é claro para o público quando a questão está sendo evitada. Você pode não precisar insistir.

Certifique-se de que você preparou perguntas que cobrem todas as principais questões. Você provavelmente não terá que perguntar tudo e quase certamente não vai conseguir respostas claras para tudo.

Decida quais são as mais importantes e pergunte primeiro para ter certeza de cobrir os pontos principais.

Nunca deixe as melhores perguntas para o final da entrevista; pode não dar tempo de fazer as perguntas.

Muitas vezes, é claro para o público que a questão está sendo evitada. Você pode não precisar insistir

9: Tente entender a motivação do político

Apesar do problema de gestão de notícias, o político é um ser humano e um indivíduo com uma necessidade especial: conseguir o apoio do público a fim de continuar a manter o seu trabalho. Assim, não importa quão preparados estão para a entrevista, eles também serão vulneráveis em alguns pontos. E vão querer dar uma boa impressão.

O jornalista precisa entender isso, porque, com a formulação cuidadosa de perguntas, seguindo algumas pistas que os próprios políticos lhe dão, explorando alguns dos tópicos que parecem querer explorar e envolvendo com um tom de compreensão e abordagem, você pode ser capaz de examinar mais fundo nas áreas que sente que o público precisa saber.

Você pode ir muito mais longe com uma abordagem mais suave, simpática do que com uma abordagem dura, de confronto. Isso tudo depende da situação e do político. Mas é importante ser flexível.

Lembre-se: o ponto do exercício não é fazer você ficar bem e o político mal, mas sim descobrir informações essenciais que informam o debate público para que o público possa fazer escolhas informadas.

Você pode ir muito mais longe com uma abordagem mais suave, simpática do que com uma abordagem dura, de confronto

10: Certifique-se de que a palavra final informa o público

O político tem a palavra final, ou você? A última palavra é um elemento precioso para qualquer entrevista. Um político vai querer resumir a mensagem no final da entrevista. Eles vão querer que a última resposta seja uma frase ensaiada.

Uma forma de lidar com isso é garantir que você resuma os pontos principais no final. Para fazer isso, você precisa ouvir todas as suas respostas, tomar notas, manter um resumo de pontos e repeti-lo no final. Também é uma boa ideia anotar citações relevantes que você possa usar no final para ilustrar o seu resumo.

Boa sorte e seja forte. E sempre tenha em  mente que, com perguntas focadas, não-confrontacionais, pacientes e bem estudadas, você pode descobrir um fato de que "se não fosse por você, o mundo nunca teria sabido".

Certifique-se de resumir os pontos mais relevantes no final


Este artigo foi escrito por David Brewer e publicado originalmente no Media Helping Media. Foi traduzido e publicado pela IJNet com autorização. Media Helping Media é um site para informar-se sobre capacitações, que proporciona recursos gratuitos aos jornalistas que trabalham em estados em transição, países pós-conflito e zonas onde a liberdade de expressão e de imprensa está ameaçada.