10 dicas para cobrir COVID-19

porTaylor Mulcahey
Mar 8, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
O coronavírus de 2019

É dever do jornalista comunicar de maneira clara e responsável informações confiáveis ​​ao público em geral. Durante uma crise de saúde global, como a que enfrentamos agora com a propagação de COVID-19, a doença causada pelo novo coronavírus, esse papel se torna cada vez mais crítico.

"Há tantas 'áreas cinzas' em histórias como essa, que é sua responsabilidade tentar desvendar isso para ter uma ideia clara do que está acontecendo", disse o jornalista freelance Michael Standaert, que reside em Shenzhen, de onde escreve para a Bloomberg, The Guardian, Al Jazeera e outros veículos.  Standaert está cobrindo o vírus na China desde seu surto em dezembro de 2019.

Especialmente durante crises, os jornalistas precisam estabelecer um equilíbrio difícil entre informar o público e estimular o medo. "Você deve evitar levar as pessoas à complacência", disse o Dr. Stephen Morse, professor de epidemiologia da Universidade de Columbia. Mas também não deve exagerar tanto, que crie medo ou pânico sem fundamento, acrescentou.

Na China, essa tarefa é ainda mais desafiadora diante da censura do governo. Standaert tem achado cada vez mais difícil conseguir fontes 'on the record', porque os cidadãos chineses temem as advertências ou repreensões do governo. "É uma loucura e preocupante um cidadão comum achar que não pode falar o que pensa sem a aprovação de funcionários do governo local", disse ele.

Por mais difíceis que sejam as condições, repórteres como Standaert continuam produzindo matérias sobre o vírus. Sejam eles da editoria de saúde, aos que cobrem economia, transporte e mais, jornalistas de todo o mundo estão reportando essa notícia sob diversos ângulos.

Para ajudar jornalistas de todo o mundo a cobrir esse tema de forma responsável, compilamos uma lista de dicas abaixo para reportar sobre COVID-19.

(1) Entenda o ânimo no terreno e depois traduza-o no seu trabalho

Como em qualquer crise mundial, há muitas informações circulando e nem todas são boas. A proliferação de informações na internet pode enganar o público, como a imagem de um homem morto na rua em Wuhan, cercado por profissionais médicos. Esta foi chamada de "a imagem que captura a crise dos coronavírus em Wuhan" pelo The Guardian,  mas não havia provas de que o homem realmente tivesse morrido em decorrência do vírus.

As reportagens visuais sobre a crise são valiosas, mas precisam ser feitas com responsabilidade. Os repórteres devem garantir que suas imagens retratam com precisão o que está acontecendo. Fotos sensacionalistas, como a do homem na rua, dão uma imagem imprecisa e espalham o medo. “As fotografias que saem de Wuhan continuam sendo importantes para criar uma linha do tempo e um arquivo. Dada a desconfiança geral das informações na China, as pessoas realmente precisam ver o que está acontecendo para acreditar”, disse Betsy Joles, repórter freelance e fotojornalista de Pequim.

Antes mesmo de começar a fotografar ou a escrever, aprecie o ambiente, fale com as pessoas e entenda o clima no terreno. Em seguida, traduza isso nas suas reportagens e evite qualquer conteúdo que possa contradizer o que as pessoas estão realmente passando.

"Acho que não há nada de errado em transmitir o medo e a incerteza de uma história, se a situação é essa", disse Standaert. "Mas você precisa ter cuidado se estiver do lado de fora e ouvir apenas alguns testemunhos."

[Leia mais: Dicas para remediar a desinformação sobre temas de saúde]

(2) Foque na reportagem, não na análise

A opinião e a análise têm seu papel, mas é muito cedo para realmente entender ramificações em grande escala, disse Joles. "Eu tentei evitar pontificar nesta fase, porque ainda há muita reportagem a fazer."

Não siga o exemplo do Wall Street Journal, que publicou um artigo que chamou a China de "verdadeiro doente da Ásia" — e foi amplamente chamado de racista— além de especular sobre a queda econômica do país devido ao vírus. É muito cedo para conhecer os efeitos financeiros a longo prazo.

Standaert alertou contra matérias que tentam projetar qualquer ramificação política dentro ou fora da China. "Estamos apenas no terceiro turno do jogo", disse ele, "e não sabemos realmente como as coisas vão se desenrolar."

Deve-se notar ainda que a China expulsou três repórteres do Wall Street Journal em resposta a este artigo: uma ação preocupante em termos de liberdade de imprensa, apesar dos aspectos problemáticos do artigo.

(3) Fique de olho nas manchetes

Este conselho é direcionado a todos os editores: não engane os leitores com suas manchetes. Com um alto volume de informações e o ritmo acelerado das mídias sociais, muitas pessoas obtêm suas notícias apenas lendo as manchetes. Embora você queira que estas sejam cativantes, não sacrifique os fatos por cliques, nunca, mas principalmente em meio a uma crise.

"Tento ativamente sugerir manchetes para minhas matérias que reflitam a situação e não sejam  sensacionalistas", disse Joles.

(4) Lembre-se: nem todos os números são precisos

Os jornalistas confiam nos números e os dados são uma parte fundamental das reportagens. No entanto, Morse alertou que os dados nem sempre são confiáveis.

"Quando você vê números de uma epidemia ou doença, eles serão imprecisos", disse ele. "E eles são mais imprecisos no começo."

Não negligencie os dados disponíveis, mas verifique se o seu público entende as limitações e incertezas por trás dos números.

A infecção tem um período estimado de incubação de até 14 dias, o que significa que é possível alguém contrair o vírus e não mostrar sinais por duas semanas. Isso leva a um atraso nos números, disse o Dr. Morse.

[Leia mais: Diretrizes para determinar quando um estudo médico tem valor jornalístico]

(5) Converse com o maior número possível de pessoas 

O vírus afeta pessoas de vários países, cidades e camadas sociais. A experiência das pessoas afetadas na China não será a mesma de Cingapura, que não será a mesma de outras na Itália. Mesmo dentro de um país ou cidade, existe muita diferença.

“As pessoas em quarentena não estão todas doentes e morrendo. Algumas delas estão entediadas”, disse Joles.

Os repórteres têm a responsabilidade de fazer o possível para capturar as diferentes realidades em que as pessoas vivem. "Isso requer que os jornalistas lançem uma ampla rede em suas reportagens, mesmo que essa ampla rede esteja apenas dentro de uma cidade, para procurar fontes em todos os níveis sociais", acrescentou.

Standaert enfatizou a importância de falar com o maior número possível de pessoas, especialmente em países onde a censura é mais pronunciada. Ele disse que está cada vez mais difícil na China rastrear fontes que lhe fornecerão uma imagem precisa de uma situação.

“Por exemplo, sabemos que muitas fábricas estão tendo dificuldades para reiniciar seu trabalho. Mas muitas dessas empresas estão tentando ignorar isso”, disse ele. "Você precisa conversar com as empresas, precisa conversar com os trabalhadores e precisa olhar de vários ângulos para ver o que está acontecendo."

(6) Evite conotações racistas

As epidemias globais têm um histórico de disseminação de racismo e xenofobia, e COVID-19 não é diferente. Faz poucos dias, um homem de ascendência chinesa de Cingapura teria sido agredido em Londres: seus agressores disseram que não queriam "seu coronavírus".

Chinatowns em cidades dos Estados Unidos, incluindo San Francisco, Los Angeles e Nova York também sofreram perda de negócios.

A mídia deve ter cuidado para não incentivar estereótipos ou promover inadvertidamente interpretações racistas. A Associação de Jornalistas Americanos da Ásia publicou uma lista de recomendações para jornalistas. Entre as sugestões: adicione contexto às fotos de pessoas com máscaras faciais, evite imagens de Chinatown, a menos que estejam diretamente relacionadas à matéria e não use nenhuma referência geográfica no nome do vírus.

(7) Considere a maneira como você entrevista especialistas

Você pode ser um redator fenomenal, mas se não encontrar as fontes certas, seu trabalho sofrerá. Tome cuidado para pesquisar os especialistas que você precisa e seus pontos de vista.

"O problema não é apenas encontrar um bom especialista", disse Morse, "é encontrar pessoas que sejam suficientemente capazes de se distanciar de seus próprios preconceitos -- ou declarar seus próprios preconceitos -- porque todos temos um preconceito."

Depois de identificar um especialista, interrogue seus preconceitos e não aceite o trabalho deles como  palavra divina. Isso não apenas ajuda você a entender a visão de mundo deles, como também fortalece sua matéria.

Muitos jornalistas também contam com modelos preditivos para entender como uma doença se espalhará. Mas os modelos são baseados em suposições, disse a Dra. Seema Yasmin, repórter e bolsista do JSK, durante um recente webinário do Center for Health Journalism (CHJ) da Universidade do Sul da Califórnia Annenberg. Sempre pergunte em quais suposições eles se baseiam.

(8) Não negligencie histórias que não são empolgantes

Uma história mundial como a COVID-19 se presta a reportagens contundentes, investigações detalhadas e mais. No entanto, nem toda história que você escrever será digna de um Prêmio Pulitzer, disse Emily Baumgaertner, repórter médica do Los Angeles Times, durante o webinário do CHJ. Pode ser necessário escrever um artigo de página inteira sobre lavagem das mãos, por exemplo, e tudo bem.

Concentre seus esforços em responder às perguntas do seu público. Use o Google Trends para entender melhor que tipo de informação as pessoas estão procurando e, em seguida, produza conteúdo de qualidade para o qual elas possam recorrer para encontrar respostas.

(9) Defina seus limites

Os editores provavelmente pedirão mais reportagens com mais frequência. É importante dizer não às vezes: pelo seu bem e pelo seu trabalho. Standaert recomendou tirar 24 horas para se afastar do computador e do trabalho para retornar descansado mentalmente e ser capaz de buscar novos ângulos da história. "Um bom fogo precisa de espaço entre os galhos", disse ele.

A desaceleração para avaliar quais histórias você deseja contar garantirá que você não fique escravo da pressa. Em vez disso, você pode se concentrar em contar bem algumas histórias, disse Joles. E, embora as redes sociais possam ser uma ferramenta útil para se conectar com pessoas em outras partes do país (especialmente se tem que evitar viagens ou grandes reuniões), às vezes pode causar mais mal do que bem.

(10) Quando a situação se acalmar, não abandone a cobertura

Uma hora, a crise vai passar, mas isso não significa que seu trabalho acabou. "Há muita coisa acontecendo após uma epidemia que precisa ser coberta", disse a Dra. Yasmin.

Avalie a maneira como os políticos e as autoridades de saúde lidaram com a crise, identifique as lições aprendidas, determine se os sobreviventes ainda vivem com o estigma da infecção e explore o que significa retornar ao "normal", sugeriu Dra. Yasmin.

De fato, Dra. Yasmin decolou profissionalmente ao cobrir a crise do ebola entre 2014 e 16. Suas matérias de acompanhamento oferecem uma estrutura para outros repórteres, incluindo "Por que os sobreviventes do ebola sofrem com novos sintomas", para PBS NewsHour, e "Uma mulher sobrevive ao ebola, mas não a gravidez na África", publicada na Scientific American.

Links adicionais


Imagem sob licença CC no Unsplash via CDC