Divulgadores científicos revigoram informação bem embasada nas redes sociais

نوشتهMarina Monzillo
Nov 26, 2020 در Reportagem sobre COVID-19
Fotos de Mellanie Fontes-Dutra, Jonathan Vicente e Luiza Caires

Com a pandemia de COVID-19, cientistas e pesquisadores da saúde ganharam mais espaço nos meios de comunicação e seguidores nas redes sociais. Trata-se de um trabalho importante, que ajuda no combate ao coronavírus por meio da democratização de informação séria e relevante e na exposição do que circula de falso e incorreto.  

Três destes divulgadores participaram do webinar “Divulgação científica nas redes em tempos de pandemia”, realizado pelo Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde, em 25 de novembro. Luiza Caires, jornalista, editora de ciências do Jornal da USP e mestre em comunicação; Mellanie Fontes-Dutra, biomédica, doutora em neurociência; e Jonathan Vicente, biomédico, pós-graduado em ciência política, mestrando em saúde coletiva, falaram sobre o que gera interesse do público nas redes e como lidam com os negacionistas, entre outros assuntos. 

 

Veja a seguir os principais pontos da conversa. 

A divulgação científica na pandemia

  • “Quando a pandemia chegou, senti muita falta de informações sobre o que estava acontecendo aqui no Brasil”, contou Fontes-Dutra. Então, ela mobilizou pesquisadores voluntários de diversas áreas em um grupo multidisciplinar. “Comecei essa divulgação focada na pandemia neste ano, mas desde 2015 faço isso de forma presencial, em palestras, por exemplo.”

  • Vicente também expandiu sua atuação como divulgador a partir do último janeiro. “Até então, as pessoas não se interessavam por saúde e biomedicina. De lá para cá, foi um boom no Twitter e em outras redes sociais, como Instagram. Perceberam que existem outros profissionais de saúde, além de médicos e enfermeiros. Estamos lutando contra o negacionismo e a gente pode crescer nas redes divulgando a verdade.” 

  • Caires, ao contrário dos demais, não é cientista, mas jornalista. “Vejo algo interessante e quero contar. As notícias do momento são focadas em saúde, mas tento variar, intercalar notícias esperançosas com as mais realistas.” 

Interesse x fadiga 

  • “Infelizmente, a notícia ruim ainda move. Quando começou a se falar em segunda onda, o pessoal voltou a mostrar mais interesse”, disse Caires. Ela notou que as pessoas consomem mais informações sobre o que afeta o cotidiano delas. “Fisiologia, ciência básica, são interessantes, mas o que querem saber mesmo é como fazer as coisas com mais segurança”, explicou. Para ela, o papel do divulgador é lidar com a realidade. “Se a pessoa está na rua, não adianta falar para ficar em casa. Tem gente que não tem escolha”. Por isso, vemos o sucesso de postagens sobre o que deve ser feito no transporte público, uso de máscara, ventilação e que mostrem dados sobre os riscos. 

  • Fontes-Dutra lembrou do agravante da chegada das festas de fim de ano, que serão inegociáveis para muitas pessoas, que não vão deixar de estar com a família. “Vamos passar instruções, informações científicas, para protegê-las nesse momento e não dar murro em ponta de faca, senão, a gente se afasta dessas pessoas, mostramos que não estamos em sintonia com elas”, disse.  

  • Vicente reforçou que para atrair os seguidores, mesmo diante de um momento de fadiga da pandemia e do excesso de informações, a estratégia de intercalar assuntos é importante. “Assim, a pessoa acaba instigada a voltar e tendo acesso a uma divulgação científica completa.”

Fazendo crescer uma rede de divulgadores

  • Fontes-Dutra contou que os divulgadores se leem, se marcam nas postagens e aprendem uns com os outros. A articulação não é coordenada, mas existe para levantar hashtags e fazer tuitaços, por exemplo. “A gente conversa bastante. É informal, dou print de conversas nossas no WhatsApp e posto. Existe mais colaboração do que concorrência, o trabalho é imenso, sempre vai ter algo a mais para alguém trazer”, contou Caires. Ela disse que acaba fazendo o papel de ponte entre cientistas e jornalistas, e o que posta, às vezes, gera pautas na imprensa. “Seria importante ter mais pesquisadores da USP no Twitter. No Brasil, a rede não é tão grande, mas tem um poder de multiplicação enorme.” Vicente está em um movimento de levantar perfis que ainda têm poucos seguidores. Está promovendo mesas-redondas com esses divulgadores “pequenos”. “Ainda há poucos biomédicos nas redes”, falou. 

  • Para Fontes-Dutra, é gratificante ser procurada pela imprensa. “Cientistas estão com colunas em jornal, ajudando a construir o jornalismo. Espero que continue depois da pandemia, porque este não é o único problema que estamos enfrentando e os cientistas têm muito a contribuir para a sociedade”, disse ela. Vincente completou: “Tem muito negacionismo, inclusive no Twitter; jornalistas nos ajudam a mostrar que aquela informação está incorreta”. Todos ressaltaram a importância de incluir links de referência quando eles próprios ou sites e jornais citam algum estudo. 

Como lidar com os negacionistas da ciência

  • Caires enfatizou que não podemos confundir o negacionista com quem tem dúvidas. “Não podemos de tratar ninguém como intelectualmente inferior. Temos de tomar cuidado para não ter preconceito.” 

  • Fontes-Dutra concordou: “Humanizar essas pessoas é importante. Alguém que questiona nunca deve ficar sem resposta. Ela pode ficar sem discussão, mas não sem respostas, até porque, se não tiver um posicionamento meu, a pessoa pode achar que não tenho capacidade de responder.”

  • Os divulgadores científicos reforçaram também a responsabilidade das empresas como Facebook na divulgação de informações falsas. Acreditam que o negacionismo deve ser mais combatido por eles, que também deveriam investir em promover o trabalho dos divulgadores sérios. Os participantes também questionaram as instituições, como universidades, centros de pesquisa e fundações, para se posicionarem mais nesses espaços virtuais. 


Marina Monzillo é jornalista freelancer com 20 anos de experiência em diversas áreas, como cultura, turismo, saúde, educação e negócios.

Imagem cortesia de Mellanie Fontes-Dutra, Jonathan Vicente e Luiza Caires, no Instagram.