Efeitos da pandemia na saúde mental podem durar anos, alerta psiquiatra

نوشتهMarina Monzillo
Sep 23, 2020 در Reportagem sobre COVID-19
Pessoa sentada em banco segurando a cabeça

Maior irritabilidade, dificuldade de concentração, insônia, ansiedade, abuso de álcool, depressão. A estimativa é que dois terços das pessoas terão algum transtorno ou comprometimento emocional relevante relacionado à pandemia de COVID-19. O dado foi trazido pelo Dr. Táki Cordás, professor doutor em psiquiatria e coordenador da Assistência Clínica do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas em São Paulo, ao webinar “Pandemia do medo: os efeitos psiquiátricos da COVID-19”, realizado em 22 de setembro, pelo Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde.

Durante a conversa, o médico contextualizou a gravidade desse cenário: cinco das dez doenças mais incapacitantes, segundo Organização Mundial de Saúde, são psiquiátricas, e todas pioram com o estresse atual. “Os grandes temores da humanidade estão caindo na nossa cabeça de uma vez só: medo de morrer, ficar doente, ter danos físicos, perder autonomia, empobrecimento...”, listou. 

O agravamento de alterações neurológicas e psiquiátricas em quadros pré-existentes e o aumento de novos casos têm sido chamados de quarta onda da pandemia. Enquanto a primeira onda é a pandemia em si, a segunda refere-se ao colapso do sistema de saúde e a terceira prevê a piora de outras doenças crônicas pelo não tratamento durante este período. 

Com 40 anos de experiência clínica e acadêmica, Dr. Cordás tem acompanhado pesquisas que analisam a saúde mental da população desde março. “Trabalhos científicos são como as vacinas, levam anos, mas com a situação emergencial, estão sendo publicados rapidamente. São dados muito frescos”, comentou.  

De sua perspectiva médica, o psiquiatra não deixou de criticar o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e as variantes religiosas que ignoram ou desprezam a ciência. “Nesse momento tão anticientífico do país, é uma luz discutir ideias livremente e de maneira séria”, declarou.

 

Veja a seguir os principais pontos da conversa.

Isolamento social

  • Em março, os primeiros estudos publicados na Inglaterra faziam uma revisão das últimas pandemias, como a de SARS e a de ebola, e já traziam alguns dados chineses, incluindo a estimativa de que dois terços das pessoas serão afetadas emocionalmente pela pandemia de COVID-19. “Não estou falando que o isolamento não é necessário, tinha de ser feito, mas os trabalhos internacionais mostram que leva à piora de quadros psiquiátricos preexistentes e a novos casos”, comentou Dr. Cordás. 

  • Ele explicou que cada pessoa tem sua predisposição e nível de resiliência, mas a essas características individuais se juntaram questões como: a incerteza de quando a pandemia vai acabar; o prolongamento do isolamento; a percepção de que o poder central não conhece bem a situação, não oferece informações adequadas nem garante a sobrevivência mínima da população que não pode sair para trabalhar; e o medo de desemprego e empobrecimento. Entre a população mais jovem, a queixa de tristeza e irritabilidade é maior devido à perda da vida social. 

  • O médico acredita que não vai haver infraestrutura para o tratamento da quarta onda. “O atendimento sempre foi muito ruim, não há psiquiatras suficientes no Brasil. O clínico-geral precisa saber tratar os quadros mais leves. Psicólogos vão ter papel importante, mas nem eles vão dar conta do que vamos enfrentar”, previu. 

Pacientes de COVID-19 

  • “Claro que o comprometimento pulmonar é o principal na COVID-19”, pontuou Dr. Cordás, mas acrescentou que há relatos de UTI de 10% a 15% de quadros neurológicos, como encefalite, delirium e mania (excitação). Algumas pessoas apresentam perda de memória, que muitas vezes persiste após a alta. “Depois da fase aguda, temos visto gente com depressão, que pode ser efeito direto da COVID-19 ou traumático da internação.”

  • Ele lembrou que o ambiente de UTI é de isolamento absoluto e privação de sono, há os efeitos da COVID-19 no cérebro e da medicação. “Vai juntando coisas, que podem levar a um quadro psiquiátrico na vigência ou depois.”

Profissionais da saúde 

  • Os estudos mostram que equipes médicas que atuaram na linha de frente de pandemias passadas apresentaram estresse pós-traumático. “São sonhos e pensamentos, a pessoa revive, o que passou, tem ataque de pânico, insônia, angústia”, explicou Dr. Cordás. 

  • Não tem como dizer ainda se esses efeitos são permanentes, mas há relatos de médicos da época de SARS e ebola que começaram a apresentar sintomas dois ou até três anos depois. “O quadro pode durar anos ou surgir posteriormente”, alertou.  


Marina Monzillo é jornalista freelancer com 20 anos de experiência em diversas áreas, como cultura, turismo, saúde, educação e negócios.

Imagem sob licença CC no Unsplash por Jude Beck