Você fala espanglês? Produzindo conteúdo para o público latino

porJenny Manrique
Apr 18, 2016 em Diversos

Como as organizações de notícias devem mirar os diversos públicos latinos nos Estados Unidos? Editores que criam conteúdo para os hispânicos nos EUA compartilharam algumas dicas durante o Hispanicize, o maior evento anual para formadores de opinião e jornalistas latinos sobre criação de conteúdo digital em Miami.

"É importante compreender que a mídia de língua espanhola não vai desaparecer", disse Hugo Balta, diretor sênior de conteúdo multicultural da ESPN. "A imigração da América Latina continua e espanhol é a segunda língua mais falada no país."

Sabendo isso, aqui estão algumas dicas reunidas do evento:

Identique o público que você quer alcançar 

Inglês, espanhol ou bilíngue? A preferência de idioma da grande população latina nos EUA (quase 56 milhões, de acordo com os dados do censo mais recente) depende de variáveis, como país de origem, data de chegada, estados onde vivem e idade, bem como as diferentes gerações encontradas nas casas latinas.

"É quase impossível produzir conteúdo que vai ser relevante para todos os latinos, por mais que sejamos retratados como um grupo uniforme", disse Douglas Rojas Sosa, editor online do elNuevoHerald.com. "Se você é um latino de segunda ou terceira geração, vai preferir o inglês, enquanto primeiras gerações ainda buscam informações em espanhol e de seus países de origem."

No entanto, meios de comunicação como Fox News Latino seguiram um caminho diferente ao decidir eliminar conteúdos em espanhol há três anos.

"Nós não poderíamos competir com publicações em espanhol como The Miami Herald ou La Opinion en Los Angeles", disse Alex Vros, vice-editor do FoxNewsLatino.com. "Em vez disso, vimos que trazer um foco latino aos tópicos globais e publicá-los em Inglês nos daria um público específico, como the Dreamers, que são muito presentes em nossas matérias."

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Aqueles que imigraram da América Latina em geral buscam informações sobre seus países de jornais locais em versão digital. Ainda assim, um grande público para estas matérias vai para sites como El País da Espanha ou NYTimes America, que paradoxalmente não se baseiam na região.

Com este diagnóstico em mãos, a Rede Latino-Americana de Jovens Jornalistas começou a impulsionar plataformas colaborativas como Distintas Latitudes para praticar "um jornalismo que atravessa as fronteiras com uma melhor perspectiva regional", disse o coordenador Jordy Meléndez.

A rede ajuda a criar narrativas de formato longo e artigos de investigação, publicando materiais de 200 freelancers em 17 países desde 2009.

Editores americanos reúnem conteúdo da região, tendo em conta que a experiência latina nos Estados Unidos é muito diferente de seus países de origem, embora ainda relevante para as suas identidades.

"Apesar de todo o nosso conteúdo ser em inglês, cada vez que temos uma matéria ligada a um país latino-americano, nós fazemos o esforço de traduzi-la, notando que, se é conteúdo original, pode se tornar viral", disse Cindy Rodriguez, editora de CafeMedia, cujo público principal são mulheres latinas.

Faça sua redação tão diversa quanto seu público 

Diversidade e inclusão são um desafio para muitas redações nos Estados Unidos, e esta realidade não afeta só a jornalistas latinos. De acordo com o censo de 2015 da Sociedade Americana de Editores de Notícias, a porcentagem de jornalistas minoritários "tem oscilado entre 12 e 14 por cento por mais de uma década."

A Associação Nacional de Jornalistas Hispânicos (NAHJ) trabalha com a mídia de língua inglesa para melhorar o recrutamento de jornalistas latinos e editores, promovendo uma cultura corporativa para atrair e retê-los. "Precisamos ser reflexo do público que estamos servindo e começa com autenticidade e vozes autorizadas", disse Balta, ex-presidente e conselheiro atual do conselho da NAHJ.

Não tenha medo de espanglês

Bons jornalistas são muito sofisticados com a gramática; o componente bicultural dos seus públicos-alvo os obriga a falar como os seus leitores. Esta é uma subcultura real nos EUA que não existe em outros países.

"O conteúdo da mídia social deve ser orgânico. Se as pessoas não falam assim, não vão compartilhar a matéria. Se suas fontes falam espanglês, você deve refletir essa experiência", disse Rodriguez do CafeMedia.

Com isso em mente, a ESPN lançou One Nacion depois de descobrir que mais de 8 milhões de espectadores são bilíngues. "Eles não tinham um espaço para determinados esportes, então eles iam para 'Deportes' atrás de futebol e boxe, mas isso não era uma experiência agradável", disse Balta. "Às vezes, usamos as legendas, às vezes os âncoras interagem com seus clientes trocando de línguas; vivemos em dois mundos."

Esta troca tem sido visível também nos debates presidenciais recentes, quando as perguntas para os candidatos são feitas em ambas as línguas e os eleitores latinos vão para a mídia social para compartilhar suas impressões.

"Eu tenho um público que é 50/50, então publico em ambas as línguas. Mas a minha sugestão é experimentar o que funciona. Medir opiniões, comentários e retuites é mais fácil do que nunca", disse Mariana Atencio, âncora da Fusion TV, referindo-se ao Daily Brief da Univision na iniciativa em inglês. "Nós latinos viramos uma mercadoria que todo mundo quer, por isso, a melhor coisa é divulgar nossas vozes autênticas."

Imagem principal sob licença CC no Flickr via Sacramento BBB