Uruguai também aposta em fact-checking colaborativo para suas eleições

porSantiago Sánchez
Sep 19, 2019 em Fact-checking e verificação
Verificado.uy

Uma foto do capitão do time de futebol uruguaio, Diego Godín, em apoio a um candidato à presidência, uma publicação nas redes sociais sobre outro presidente que perdeu uma sessão do Senado na qual foi discutida uma declaração sobre a Venezuela; um líder do governo que parece relacionado à Associação Nacional de Fuzis dos Estados Unidos e um valor escandaloso sobre os salários da família do ministro da economia: todas essas publicações viralizaram no Uruguai nas últimas semanas e foram negadas ou relativizadas pelo Verificado.uy, uma plataforma recente de verificação de fatos lançada em 22 de julho, com várias peculiaridades.

A primeira é que é um projeto conjunto de jornalismo colaborativo. Como aconteceu nos Estados Unidos, França, Espanha, Reino Unido, México, Brasil e Argentina, o Verificado.uy é uma plataforma que responde a vários meios de comunicação de todo o país. "Trata-se de criar coalizões de mídia", disse a coordenadora jornalística do projeto, Ana Matyszczyk.

A mídia por trás da coalizão é variada: jornais, rádios, canais de televisão e portais de notícias, alguns com linhas editoriais antagônicas. "Mas, apesar dessas distâncias, o trabalho funciona de forma formidável", disse Matyszczyk.

Uno de los contenidos virales desmentidos:  el capitán de la selección uruguaya de fútbol, Diego Godín, sostiene un cartel en apoyo a uno de los candidatos
Um dos conteúdos virais negados: o capitão do time uruguaio de futebol, Diego Godín, segura um pôster em apoio a um dos candidatos.

 

Mas nesta coalizão não existem apenas meios de notícias: organizações da sociedade civil e universidades públicas e privadas do país também participam. “Há um diferencial em relação ao resto dos países e é que somos o primeiro país que entende que o desafio de mitigar as informações erradas no país não deve cair apenas nas mídias, mas também deve incluir outros atores, como as universidades e a sociedade civil: são dois pilares que apoiam a comunidade e devem ser representados”, afirmou a coordenadora jornalística do projeto. "Este é um problema de todos."

O projeto conseguiu financiamento da Fundação AVINA, Google, Facebook e First Draft. Basicamente, atua em duas áreas principais: os conteúdos de “origem duvidosa” que circulam nas redes sociais, que se tornam virais e relacionados à campanha, e o discurso público dos candidatos à presidência. "Embora nosso universo seja muito amplo, é realmente muito pequeno e existem vários filtros que usamos para refinar o que vamos cobrir", explicou Matyszczyk.

Embora o lançamento da plataforma tenha sido em 22 de julho, a coordenadora acredita que o trabalho mais árduo que ela terá que realizar no Verificado.uy ainda não começou. “Não começou o grosso da campanha, que iniciará um mês antes das eleições. Aí você sentirá um pouco mais o fluxo da desinformação”. As eleições nacionais do Uruguai estão previstas para 27 de outubro e, se nenhum dos candidatos exceder 50% das votações — que é o cenário mais provável —, haverá um segundo turno entre os dois candidatos mais votados no dia 24 de novembro.

Desafios

A plataforma já realizou 15 verificações e, enquanto tudo está indo bem até o momento, há consciência dos desafios que implicarão fazê-la funcionar quando a campanha eleitoral se intensificar. “Esse sistema é gigantesco e é complexo fazer com que todas as engrenagens se encaixem e comecem a funcionar sem problemas. Todas as experiências em todo o mundo concordam que esses tipos de projetos sempre vão de menos para mais e, quando a campanha eleitoral está prestes a terminar, é comum perceber o quão poderoso isso é e o quão bem está funcionando”, disse Matyszczyk. Outro problema identificado pela coordenadora é "manter um equilíbrio" entre as informações verificadas pelos candidatos de cada partido.

O projeto, no entanto, não é imune a ataques, mesmo de outros jornalistas. “Houve críticas e certamente haverá no futuro. É uma atividade que nunca foi realizada no Uruguai e é bom que essas críticas existam porque faz parte do caminho que temos que percorrer”, afirmou Matyszczyk.

Mas, para a coordenadora, o equilíbrio é positivo: “Fiquei muito surpresa ao ver como veículos de notícias que têm leituras antagônicas da realidade podem chegar a um consenso e estar muito mais próximos quando se trata de resolver verificações do que podemos imaginar. Isso é uma conduta exemplar.”


Imagem cortesia do Verificado.uy.