Uma ideia para respeitar a privacidade digital e promover a honestidade no uso de dados

porGustavo Faleiros
Oct 4, 2013 em Jornalismo básico

A narrativa sobre grandes volumes de dados muitas vezes se concentra em seu vigor e potencial. As possibilidades de grandes dados para o bem cívico são, de fato, incríveis. Dados são usados ​​para tudo, desde melhorar a resposta a crises durante desastres naturais, como o Furacão Sandy, a fornecer banco móvel para os cidadãos mais pobres da África.

Mas a excitação sobre o potencial dos grandes volumes de dados para melhorar as nossas vidas não deve nos impedir de perceber que esta nova era levanta questões éticas em necessidade urgente de respostas. A pergunta que muitos já estão se fazendo é: "Até que ponto os nossos dados pessoais são utilizados indevidamente por governos e empresas?"

Milhões de pegadas digitais de pessoas têm sido apropriadas por razões econômicas e vigiadas em nome da segurança, muitas vezes sem o nosso consentimento. O caso atual de espionagem por parte da Agência Segurança Nacional dos EUA, como revelado pelo delator Edward Snowden, talvez seja o exemplo mais concreto. Mas mesmo algo aparentemente tão inofensivo como os indesejados anúncios direcionados em nossas caixas de e-mail revelam "regras não tão rígidas" em torno de seus dados privados.

Convidado pela Fundação Rockefeller e o Pop Tech para participar de seu programa Bellagio/Pop -Tech inaugural, eu me juntei a um grupo multidisciplinar de estudiosos e profissionais para discutir as implicações dos grande dados sobre a resiliência da comunidade. Nós nos perguntamos: "Quando uma cidade ou bairro se depara com um desastre ou estresse, como um choque econômico, mudança climática ou um desastre natural, o que poderia ou deveria ser o papel dos grandes dados para impulsionar a recuperação, ou, até mesmo, ajudar a evitar o desastre em primeiro lugar?"

Nossa conclusão é que, quando os dados são mal utilizados, as redes são corroídas, minando a confiança dos cidadãos em relação às instituições que existem para servi-los. Por exemplo, durante um desastre natural, a geolocalização é extremamente útil para os esforços de recuperação. No entanto, muito pouca gente concorda em compartilhar sua localização em plataformas de rede social por receio de que seus dados sejam capturados por empresas ávidas em explorá-los por razões indevidas.

Nosso grupo, em seguida, perguntou: "Como podemos incentivar as pessoas a compartilharem seus dados para o bem social? Como podemos permitir que as pessoas compartilhem suas informações apenas quando elas acham que é necessário?"

Como resposta, temos uma proposta. Vamos adotar o hashtag "#noshare" (não compartilhar) ou "#ns" como um pronunciamento sobre a propriedade dos dados e nosso direito de optar por ficar de fora da drenagem digital atual de informações pessoais.

Acreditamos que esta iniciativa, com apoio suficiente, pode agir como uma norma social sobre quais informações devem ou não devem ser transformadas em dados pesquisáveis. É uma linha na areia para aqueles que querem explorar seus dados sem você saber. Vai impedi-los de fazê-lo? Não. Mas vai deixar bem claro se usarem seus dados de uma forma que viole sua vontade. Não haverá nenhuma maneira da pessoa que usou seus dados negar que sabia que você não queria que os usassem.

Podemos usar #noshare em mídias sociais, mas também em broches usados em roupas, em cartazes colocados em prédios, ou em qualquer outra situação, quando você decidir que não quer que as suas ações sejam detectadas ou vigiadas. Como Patrick Meier, outro bolsista do Pop Tech no nosso grupo, escreveu em seu blog, iRevolution, esta é "uma humilde tentativa de recuperar alguma agência sobre as máquinas no interesse da privacidade."

Por que é importante para o jornalismo

Na era dos grandes dados, a discussão sobre ética será fundamental para as organizações de jornalismo. A enorme quantidade de dados gerada atualmente está reformulando o jornalismo como o conhecemos. O jornalismo de dados, por exemplo, é um ramo inteiramente novo no nosso campo. Baseia-se em nossa capacidade tecnológica crescente em acessar e analisar grandes conjuntos de dados, para que possamos revelar e contar as histórias por trás deles.

Grupos de mídia já estão criando algoritmos para capturar e ler dados. Um dos exemplos mais impressionantes que eu já vi é o Open Paths project do New York Times, um "locker seguro de dados de informações de localização pessoal", que permite que as pessoas compartilhem seus dados geográficos com projetos específicos de artes e educação.

Há também esforços acadêmicos em andamento que procuram entender como as práticas tradicionais de apuração, produção e distribuição de informação estão se transformando. A professora Emily Bell, diretora do Tow Center da faculdade de jornalismo da Columbia University, juntamente com alguns colegas, disse que estamos vivenciando o surgimento do jornalismo pós-industrial.

Sem dúvida, há um entusiasmo em usar dados para inovar o jornalismo. Isto é especialmente importante em um campo que muitas vezes é considerado moribundo, dado o grande número de demissões e fechamentos nas redações ao redor do mundo. Ao trabalhar com grandes quantidades de dados, as empresas de mídia estão criando produtos interativos e investindo em obter informações de forma colaborativa (crowdsourcing) de suas audiências.

No entanto, a confiança do público nos meios de comunicação e a importância do jornalismo será maior se adotarmos políticas que respeitem a privacidade e honestidade para com o uso de dados. Só se o jornalismo ganhar a confiança do público, ele pode cumprir efetivamente seu papel de fazer com que pessoas e instituições poderosas prestem contas com a sociedade.

Na minha opinião, um dos conceitos mais interessantes que descrevem a relação entre cultura e tecnologia foi desenvolvido pelo sociólogo alemão Ulrich Beck, que escreveu que vivemos em uma "sociedade de risco", em que lidamos com perigos e ameaças simultaneamente com a introdução da tecnologia moderna. Ele frequentemente usa o exemplo da energia nuclear. É uma das formas mais avançadas de extração de energia a partir da matéria, mas é potencialmente mais perigosa também.

Parece que, se não usarmos limites éticos ao lidar com grandes volumes de dados, vamos continuar enfrentando a mesma contradição de riscos e oportunidades.

Gustavo Faleiros é um jornalista ambiental e instrutor de mídia especialista em jornalismo de dados. Ele é um bolsista do ICFJ Knight International Journalism Fellowship com base no Brasil. Ele agradece a Kate Crawford, Amy Luers, Patrick Meier, Claudia Perlich e Jer Thorp, bolsistas do Tech Pop, por seus comentários, opiniões e inspiração para este post.

O conteúdo de inovação de mídia global relacionado com os projetos e parceiros dos bolsistas ICFJ Knight na IJNet é apoiado pela John S. e James L. Knight Foundation.

Imagem sob licença CC no Flickr via CyberHades