Triunfos e desafios de repórteres investigativos na África

porRaymond Joseph
Dec 13, 2015 em Jornalismo investigativo

O boom no jornalismo investigativo na África do Sul parece estar terminando agora que organizações de mídia cortam orçamentos para equilibrar suas receitas e continuar a dar lucro a seus acionistas.

Nos últimos anos, todos os grandes órgãos de comunicação do país criaram unidades de investigação integradas por jornalistas experientes que tiveram recursos e tempo para fazer grandes investigações. Essas inscrições para o prestigiado Prêmio Investigativo Taco Kuiper são um testemunho da qualidade do trabalho que ainda está sendo produzido.

"A África do Sul teve um tipo de era dourada de jornalismo investigativo, com até quatro equipes em diferentes instituições dedicadas a ele", disse o professor Anton Harber, chefe do departamento de jornalismo da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo.

"Lamento dizer que algumas dessas equipes foram desfeitas nos últimos meses devido a pressões financeiras, então eu temo que essa tendência -- a mais produtiva que já tivemos neste país -- esteja diminuindo."

Mas nem tudo é tristeza e melancolia, disse ele, acrescentando: "Em toda a África, há bolsões de excelente trabalho sendo feito, impulsionado principalmente por indivíduos dedicados e corajosos."

Harber falava após a 10° conferência Power Reporting realizada em sua universidade recentemente. "Power Reporting começou como uma conferência pequena local há uma década e cresceu para ser o ponto focal da comunidade africana de jornalismo investigativo e o braço continental da Rede Global de Jornalismo Investigativo", disse Harber.

A conferência sempre teve três elementos: formação de técnicas para garantir que as pessoas sejam expostas a novas ferramentas de investigação, destacar o trabalho interessante a ser feito em toda a África e encorajar a cooperação transfronteiriça. Oferece um programa recheado de três dias de workshops práticos, excelentes oportunidades de networking e apresentações de jornalistas locais e estrangeiros sobre reportagens investigativas que fizeram.

Entre eles este ano estava Jonathan Calvert, o chefe da equipe Insight do jornal Sunday Times de Londres, que se disfarçou com a colega Heidi Blake para expor a corrupção generalizada na FIFA. Um grande avanço em sua investigação surgiu quando uma fonte entregou milhares de documentos da FIFA, incluindo recibos, registros de pagamentos e documentos internos.

Mas a quantidade de documentos foi tão grande que eles tiveram de recorrer a especialistas de dados para ajudar a extrair e analisar as informações, disse Calvert. "Passamos semanas trabalhando em segredo fora do escritório. Nós desaparecemos por semanas e as pessoas se perguntavam o que tinha acontecido conosco."

O jornalista Edouard Perrin encantou os delegados ao contar sobre a investigação LuxLeaks que expôs a forma como o paraíso fiscal de Luxemburgo ajudou as maiores marcas do mundo a evitar o pagamento de impostos. Depois de ganhar acesso sem precedentes aos acordos fiscais secretos, Perrin passou três anos desvendando como multinacionais gigantes lucraram com a sombria multibilionária "indústria evasão fiscal".

Jornalismo investigativo pode ser perigoso e às vezes custa um preço elevado para os jornalistas. O editor Bheki Makhubu da Suazilândia, por exemplo, foi preso por uma série de artigos que escreveu sobre o judiciário da Suazilândia e seu chefe de justiça.

Makhubu deu a palestra anual "Carlos Cardoso Memorial" como parte da conferência Power Reporting. A palestra homenageia um jornalista investigativo destemido que expôs incessantemente a corrupção em Moçambique e pagou por isso com a sua vida. Makhubu foi preso com o advogado de direitos humanos Thulani Maseko em 2014. Eles haviam servido 15 meses da sentença quando um tribunal ordenou a sua libertação em junho deste ano.

"Tenho medo de escrever o que eu acredito ser certo? Não, não tenho. Eu agora tenho a opinião e acredito muito fortemente que a verdade é o verdadeiro libertador contra a tirania... Vou continuar a falar a verdade ao poder", disse ele.

A conferência terminou com um ponto alto: Harber anunciou durante a cerimônia de encerramento que a Conferência Global de Jornalismo Investigativo será realizada em Joanesburgo em 2017.

"Muitos de nossos colegas fazem um trabalho incrível em circunstâncias muito difíceis, e esta conferência -- que trará cerca de 1.000 dos melhores repórteres do mundo para a África pela primeira vez -- é uma grande oportunidade para destacar este trabalho e dar apoio e encorajamento", Harber disse.

Imagem de Anton Harber (esquerda) e Bheki Makhubu (direita) por TJ Lemon