Site muçulmano focado na geração do milênio é alternativa a extremismo online

porMax Walden
Jan 10 em Temas especializados
Islami.co

O site muçulmano focado na geração do milênio, Islami.co, faz um jornalismo um pouco diferente da mídia tradicional da Indonésia.

Artigos recentes incluem uma análise do modo como os personagens do Bob Esponja representam pecados diferentes e um ponto de vista que explora a possibilidade de que Jack Sparrow, do filme Piratas do Caribe, seja muçulmano (o autor conclui que provavelmente não é).

Mas o Islami.co também lida com questões mais sérias enfrentadas pela Indonésia e pelo mundo muçulmano, como uma manifestação em novembro que marca o aniversário de protestos em massa contra o ex-governador cristão da cidade, Basuki “Ahok” Tjahaja Purnama, em 2016 e 2017.

Um colunista do Islami.co declarou que a mais recente manifestação representava uma "mercantilização de símbolos religiosos", com o símbolo islâmico de Tawhid adornando bandeiras, camisetas, chaveiros e chapéus à venda.

"A moda temática dos tawhid é super legal!", eles escreveram ironicamente.

Dedik Priyanto, editor-chefe do Islami.co, explica que o site se posiciona como a “mídia que oferece uma narrativa contrária ou alternativa”.

"Ao cobrir a questão da blasfêmia referente à bandeira Tawhid ou Ahok, consideramos a escrita de muitas perspectivas diferentes", diz ele.

Islami.co art
Uma charge publicada pelo Islami.co diz "radicalismo, intolerância, discurso de ódio". Imagem fornecida pelo Islami.co.

De olho nos jovens urbanos da Indonésia

Com um design elegante e moderno, o Islami.co foi criado "para fornecer um lugar para a aprendizagem islâmica aos muçulmanos urbanos", diz o fundador e jornalista Savic Ali.

Mas a missão central do site é contrapor as forças do conservadorismo e extremismo que atraíram multidões tão grandes para os comícios anti-Ahok.

O site foi criado sob a organização Nahlatul Ulama (NU), que também publica a NU Online. Ali, que também é diretor da NU Online, diz que percebeu que a NU Online não estava conseguindo alcançar os muçulmanos indonésios urbanos que não eram membros da organização --numa época em que grupos políticos conservadores estavam tentando chegar a residentes de áreas urbanas.

Com seu slogan “mídia islâmica amigável e esclarecedora”, o Islami.co visa facilitar o debate ponderado sobre temas islâmicos, escrituras e questões atuais, em consonância com a tradição tolerante e pluralista do Islã Nusantara --o Islã do arquipélago indonésio.

“Infelizmente, na Indonésia, a autoridade acadêmica foi dominada por aqueles que falam nas redes sociais ou na internet, como Ustadz Somad e outros”, diz Priyanto, referindo-se a um pregador islâmico que tem 6,5 milhões de seguidores no Instagram.

A direção do Islami.co entende que a batalha pelos corações e mentes indonésios está acontecendo online. Em 2017, quase 55% da população (cerca de 143 milhões de pessoas) se conectaram à internet. Muitos indonésios são consumidores de notícias para dispositivos móveis e usuários entusiastas de redes sociais.

O pregador ultraconservador Felix Siauw, que conta com 2,9 milhões de seguidores no Instagram, está entre os radicais que estão de olho nesse público.

"A NU e Muhammadiyah ficaram para trás nessa área", diz Priyanto, citando uma outra grande organização islâmica tradicional.

Islami.co making videos
O Islami.co tem um foco forte em fazer vídeos para o YouTube. Imagem fornecida por Islami.co.

Combatendo fraudes e discurso de ódio

O Islami.co representa um impulso mais amplo da NU para combater notícias falsas e fraudes, muitas das quais têm como alvo minorias religiosas ou étnicas.

Ali diz que a prioridade do site é a pesquisa na web e o YouTube, porque é assim que a maioria de seu público potencial encontra conteúdo islâmico. A NU também está incentivando uma rede de jovens ativistas a criar novos sites e canais do YouTube.

"Minha esperança é ganhar de páginas intolerantes e ultraconservadoras quando as pessoas estão procurando por temas islâmicos no Google", diz ele.

Em 1998, a Indonésia tinha apenas 258 jornais licenciados, mas tem se gabado do cenário de mídia mais diversificado do mundo, com cerca de 43.000 “organizações de notícias”, de acordo com o Human Rights Watch. Alguns deles são jornais de registro, como o Kompas ou a revista Tempo, mas muitos outros são publicações hiperpartidárias sem credibilidade.

Com níveis de educação midiática em geral baixos, Priyanto diz que grande parte das fraudes e discursos de ódio que ocorrem na Indonésia são resultado da “incapacidade da mídia de fornecer entendimento a um público politicamente polarizado”.

“O resultado é que as pessoas confiam em uma mídia desonesta que está mais de acordo com suas crenças do que com a mídia que checa os fatos rigorosamente e tem um histórico confiável”, diz ele.

Nesse contexto, Ali vê o Islami.co como um contrapeso às vozes agressivas, intolerantes e antidemocráticas que dominam o debate online.

Priyanto diz que o site recebe entre um e 1,5 milhão de pageviews por mês e seu número de leitores continuam a crescer. Com isso vem uma atenção indesejada.

"Recebemos ameaças nas mídias sociais como o Twitter, mas agora estamos acostumados com isso", diz ele.

“Acreditamos que o Islã deve ser defendido com educação e conhecimento, e não como um mero dogma. É isso que estamos tentando implementar com o Islami.co e estamos prontos para todos os riscos.”


Este artigo foi originalmente publicado pela The Splice Newsroom e reproduzido na IJNet com permissão.

Imagem principal mostra funcionários do Islami.co trabalhando nos escritórios do site de notícias online. Imagem fornecida pelo Islami.co.