Site Efecto Cocuyo dribla a censura na Venezuela com reportagens independentes

porJessica Weiss
Mar 19, 2015 em Jornalismo digital

Na manhã de uma quarta-feira de janeiro, dois jornalistas venezuelanos foram às ruas de uma das zonas mais pobres da capital da Venezuela, Caracas. Em Petare, falaram com os moradores sobre uma série de problemas e preocupações. Mas as jornalistas não estavam apurando uma notícia; elas estavam lá para divulgar uma nova iniciativa de jornalismo lançada recentemente, Efecto Cocuyo.

Em um clima cada vez pior para a liberdade de imprensa na Venezuela, Efecto Cocuyo é uma plataforma de mídia independente que oferece reportagens críticas e investigações contundentes.

Abrangendo questões como política, economia e direitos humanos, o site está empenhado em fazer com que poderosos agentes públicos se responsabilizem por suas ações. Seu nome, que significa "Efeito Vagalume" em espanhol, simboliza a comunidade que as fundadoras esperam construir em torno delas - -porque "milhões de pequenas faíscas", segundo elas, "podem iluminar toda uma nação."

Como um gesto simbólico, as cofundadoras Laura Weffer e Luz Mely Reyes, ambas jornalistas premiadas, foram para Petare naquela quarta-feira segurando grandes baldes vazios, pedindo dinheiro para angariar fundos. Elas não esperavam receber muitas doações, mas para sua surpresa, cada pessoa, mesmo as mais humildes, deram apoio.

"Isso nos mostrou que as pessoas estão conscientes da importância de apoiar o jornalismo independente", disse Luz. "As pessoas se sentem mal informadas. Foi uma experiência impressionante e comovente."

Pessoas de todo o espectro --ricos e pobres, venezuelanos, dentro e fora do país, partidários do governo e oposição-- estão desesperadas por notícias de confiança. De acordo com as fundadoras, é "um dos momentos mais sombrios da Venezuela relacionado à prática do jornalismo livre". Ao longo dos últimos dois anos, a mídia privada que costumava desafiar o governo e denunciar a corrupção enfraqueceu sua cobertura. Houve mudanças por debaixo do pano na propriedade de mídia. Os repórteres estão deixando seus trabalhos em busca de novas oportunidades. Na última década, 11.000 agressões contra jornalistas foram registradas na Venezuela, de acordo com uma denúncia formal apresentada pelo Sindicato Nacional de Trabalhadores da Imprensa.

No ano passado, Laura se sentiu pressionada a deixar o jornal mais vendido do país, o Últimas Noticias, depois de liderar uma investigação de assassinatos por oficiais de inteligência desonestos que pavimentou o caminho para a prisão de oficiais de segurança. Luz foi acusada no ano passado pelo Ministério Público do Estado depois que o presidente Nicolas Maduro atacou uma reportagem sobre escassez de gasolina publicada pelo jornal 2001, onde trabalhou como editora-chefe.

Assim, as duas jornalistas começaram a falar seriamente sobre um novo projeto. Elas viram iniciativas de jornalismo empreendedor aparecer no país, mas a maioria não era liderada por jornalistas. Elas pensaram em uma equipe que combina a energia de jovens escritores e técnicos com a experiência veterana delas em cobrir histórias contundentes. Descobriram um desenvolvedor de Web local animado com a ideia, conseguiram um espaço em um pequeno escritório e começaram a trabalhar em conjunto. No dia 8 de janeiro,  enviaram seu primeiro tuite. Agora, elas têm oito repórteres e cerca de 40.000 seguidores no Twitter.

"Estamos usando a mídia social para nos conectar com a comunidade, gerar ideias de história e nos manter e atualizados sobre as últimas notícias", disse Laura. "É importante construir uma comunidade em torno disso, para que pareça que vem do povo."

E modelo de financiamento do site, também, conta com essa comunidade. Para garantir não ficar preso a interesses econômicos, Efecto Cocuyo está contando com o público. No mês passado, lançaram uma campanha de crowdfunding no IndieGoGo, que já arrecadou mais de US$14.000 até agora. Com os recursos, elas planejam contratar repórteres adicionais para fornecer "análise de notícias de última hora, reportagens de investigação e conteúdo abrangente sobre a informação crucial". Também esperam construir uma equipe de investigações de reportagem de dados.

"Estamos fazendo isso há muito tempo e as pessoas confiam em nós", disse Laura. "Esse é o nosso capital mais importante."

No futuro, elas vão monetizar uma série de produtos a serem vendidos, incluindo podcasts e outros produtos, além de palestras e conferências. Estão desenvolvendo uma estratégia permanente de financiamento coletivo, para que parceiros-membro possam dar apoio constante ao longo do tempo. Elas também planejam sediar um centro de treinamento em jornalismo, ou "laboratório de ideias", onde jovens jornalistas de todo o país podem vir para aprender as habilidades necessárias. Os workshops focarão sobre a formação de jovens jornalistas das províncias, onde a crise econômica do país está sendo mais sentida.

"Queremos compartilhar com jovens jornalistas que precisam dessa troca e discussão para fazer boas matérias", disse Laura. "Esses jovens cresceram em um clima restrito. Eles não têm o treinamento que tivemos. "

Quando perguntada se estão preocupados sobre como trabalhar no clima atual, Laura dá de ombros. "Claro, jornalistas têm medo", disse ela. "Mas, no nosso caso, o medo é mais fraco do que a nossa paixão em fazer um bom jornalismo."

Imagem cortesia de Parée no Flickr sob licença Creative Commons