Site de jornalismo cidadão se expande na América Latina

por Maite Fernandez
Oct 30, 2018 em Jornalismo digital

Kara Andrade se deu conta do impacto da comunicação móvel enquanto caminhava pela selva guatemalteca.

Andrade estava com um grupo de biólogos investigando os efeitos do narcotráfico na selva de El Petén, ao norte da Guatemala. Ela observou como os biólogos subiram uma colina perto de uma pequena pirâmide maya em busca de um sinal de telefone celular.

Andrade ficou surpresa como os celulares funcionaram em uma área tão remota e enviou uma mensagem para sua mãe. Alguns momentos depois, sua mãe respondeu de Tampa, Florida: "Que bom saber de você!"

Assim foi como Andrade teve a ideia do HablaCentro, um site de jornalismo cidadão que funciona com tecnologia móvel e publica notícias e informações úteis para as comunidades locais.

Ela descobriu que os celulares são uma ferramenta de comunicação muito poderosa em um país como a Guatemala, que tem mais de 17 milhões de usuários registrados e somente 14 milhões de habitantes, segundo dados oficiais.

A data de lançamento do projeto surgiu por necessidade. Era maio de 2008, Dia das Mães, e os guatemaltecos estavam chocados com o assassinato de Rodrigo Rosenberg, um advogado proeminente.

A TV mostrava uma gravação com Rosenberg dizendo que se estivessem vendo esse vídeo seria porque ele tinha sido assassinado por Álvaro Colom, presidente de Guatemala.

“O episódio causou uma crise no pais", disse Andrade, de 34 anos. "As pessoas saíram às ruas (…) e exigiram respostas do presidente."

O caso terminou tão escandalosamente como começou: mais tarde foi descoberto que Rosenberg tinha encomendado seu próprio assassinato para incriminar Colom. “Na Guatemala as coisas nunca são como aparentam”, refletiu Andrade.

Ex-aluna da Universidade de Berkeley, Andrade mora nos Estados Unidos desde os seis anos de idade e obteve uma bolsa do programa Ashoka para financiar seu projeto.

Durante a crise institucional gerada pela morte de Rosenberg, os guatemaltecos queriam respostas, e o HablaGuate tentou proporcioná-las de uma forma sensata e aberta.

O projeto utiliza a plataforma aberta Android, que reflete suas aspirações. "A tecnologia tem que ser tão livre como as comunidades que queremos construir”, Andrade disse.

Através dos telefones móveis, os usuários podem publicar matérias que vão desde denúncias de crimes relacionados com o narcotráfico até a promoção de filmes ou espetáculo. O acesso à tecnologia e o modelo do projeto cria um fluxo ascendente de informação.

"As pessoas sabem que não precisam esperar que um jornalista de uma organização reconhecida conte a sua história. (Agora) podem fazer isso através do Wordpress, Twitter, Facebook e Tumblr", disse Andrade.

Pelo menos três funcionários trabalham no HablaCentro: um editor ou repórter, um gestor ou administrador comunitário e uma pessoa responsável pelo aspecto técnico do projeto.

Os usuários podem acessar o site através da Internet, Twitter, Facebook, e-mail e, obviamente, através de seus telefones celulares. Os informes podem ser anônimos.

O projeto já esta sendo expandido para quatro países: Honduras, Costa Rica, Venezuela e El Salvador. México será o próximo. E há planos de colaborar com o site de jornalismo cidadão Mi Panama Transparente. Entre os cinco países, o site tem 500 usuários registrados.

Em alguns casos, o site foi criado por causa de um estado de emergência e uma certa insatisfação com os meios de comunicação tradicionais. Tal foi o caso do HablaHonduras, que surgiu quando um golpe de Estado derrubou o então presidente Manuel Zelaya, um mês após o lançamento do projeto na Guatemala.

Algumas pessoas entraram em contato com Andrade através do Facebook e Skype com o propósito de replicar o projeto em Honduras para obter as notícias diretamente já que a imprensa não estava publicando muito a respeito, disse Andrade.

"Os proprietários de mídia são um (punhado) de gente que tem dinheiro. Uma minoria", afirmou Andrade. Para ela o importante é criar uma comunidade informada que proporcione "informação e apoio a um Estado que realmente funciona para os cidadãos."

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